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Como viver juntos? Tema da 17a Bienal de Arquitetura de Veneza 2021

A solução não será política
Como viver juntos? Tema da 17a Bienal de Arquitetura de Veneza 2021
Foto: Folha de SP
Por João Rieth Em 03/06/2021 às 11:03

Marcada para maio de 2020,  a 17a Bienal foi adiada semanas antes da abertura, quando muitos dos projetos selecionados para a exposição se preparavam para a fase de montagem. Após um ano, a vida da maioria das pessoas foi duramente afetada, e praticamente a importante exposição preconizou um futuro incerto: como viveremos juntos? E finalmente em 22 de maio último, a Bienal de Arquitetura de Veneza abriu as portas para mostrar obras de 112 participantes, de 46 países. A exposição ficará aberta até 21 de novembro.

Para o arquiteto e professor do MIT e curador da Bienal, Hashim Sarkis, "a atual pandemia global tornou a nossa pergunta ainda mais relevante e apropriada, embora de modo irônico, visto o isolamento imposto. Mas foi a crise climática que nos levou a essa pergunta , os deslocamentos populacionais, a instabilidade política e as desigualdades raciais, sociais e econômicas— que também nos conduziram à pandemia". "Não podemos mais esperar que sejam os políticos a propor um caminho em direção a um futuro melhor", disse  o curador. "Acreditamos que os arquitetos tenham a capacidade de dar respostas mais estimulantes daquelas que a política ofereceu até agora em grande parte do mundo."

A Bienal foi dividida em cinco escalas : seres diversos, novas famílias, comunidades emergentes, além das fronteiras e como um único planeta. Ao olhar para o todo, percebe-se  que muitos projetos dão embasamento à pertinência da pergunta —como viveremos juntos? através de gráficos, instalações, maquetes, vídeos e fotografias que, em diversos casos, transmitem  alertas e possibilidades. A diversidade de países no entanto, é pequena. Dos 112 participantes, 75% são da Europa e dos Estados Unidos. Além dos estúdios e profissionais que assinam projetos individualmente, a Bienal de Veneza é formada pelas representações nacionais, os pavilhões de países em que os trabalhos não passam pela curadoria principal. Eles são convidados a dialogar com o tema central, mas cada país tem autonomia em sua exposição. Neste ano, são 61 nações.

O artista argentino Tomás Saraceno revestiu a sala inteira com sacolas plásticas, pensada para redes sociais e apresenta uma argumentação recorrente. "O projeto encoraja os visitantes a reutilizar as próprias sacolinhas e a ajudar a construir um mundo mais inclusivo e regenerativo, em condição de imaginar um futuro sem combustíveis fósseis", afirma o autor. A instalação gotejante sobre o derretimento do gelo das montanhas dos Alpes, de Günther Vogt, de Liechtenstein; "Hollow Ocean", da turca Pinar Yoldas, sobre as ameaças às vidas marinhas; e o estrondo incômodo que simula o barulho do rompimento de blocos de gelo da Antártida, do italiano Arcangelo Sassolino, que acompanha a pesquisa do livro "Antarctic Resolution". Para ficar na crise das águas, uma resposta mais assertiva vem do projeto "Building with Waves", do americano Skylar Tibbits, que criou dispositivos submersos que usam a própria força das ondas para gerar bancos de areia que poupariam regiões costeiras de serem engolidas pelo mar –um modelo em tamanho real.

Outras possibilidades que tiram proveito do próprio ecossistema são sugeridas pelo Atelier Marko Brajovic, de São Paulo. O estúdio, que há 15 anos pesquisa a biomimética, apresenta nove projetos em andamento na região amazônica, em pequenas maquetes translúcidas impressas em 3D. Em comum, hotel, museu, casas, biblioteca flutuante e escolas para comunidades ribeirinhas são pensados para serem construídos com materiais e técnicas que se adaptam ao fluxo anual das águas. "Vamos mostrar como podemos viver juntos, não só entre seres humanos, mas também com outras espécies", diz Brajovic. A região amazônica, com mais três projetos —incluindo outro brasileiro, assinado por Gringo Cardia em parceria com índios kuikuro do Alto Xingu—, ocupa uma área nobre do pavilhão central dos jardins. "A Amazônia não existe num país ou numa cidade, ela atravessa fronteiras e é preciso as imaginar unidas, como os arquitetos fazem na mostra. É preciso pensar primeiro espacialmente e ambientalmente, não politicamente", diz o curador.

Fotografias mostram crianças brincando em áreas precárias, ao ar livre em um campo de refugiados sírios, no Líbano. As crianças, afirma o libanês Wissam Chaaya, estão na linha de frente na busca por espaços abandonados que, com elas, se transformam em áreas úteis e vivazes. Entre esses espaços, muitos trabalhos promovem o uso da madeira, caso das mostras de Estados Unidos, Japão e países nórdicos, que, apesar de abordarem o mesmo material, o fazem de três formas bem diferentes. Os americanos recontam em fotos, maquetes elegantes e uma fachada erguida em frente ao pavilhão como a madeira é usada na estrutura das casas americanas desde o século 19 e responde hoje por mais de 90% das novas construções residenciais. Os japoneses exibem peças de uma casa construída em 1954, com madeira, e desmontada em 2019. Os elementos foram transportados de navio para Veneza, deram formas a outras estruturas no pavilhão e, ao fim da mostra, serão reaproveitados. Já Noruega, Finlândia e Suécia montaram em tamanho real um ambiente de 470 metros quadrados de moradia compartilhada, em que espaços íntimos se revezam com zonas coletivas, para serem divididas com vizinhos, como cozinha, área de serviços e canto para brincadeiras. A proposta do estúdio Helen & Hard é usar esse conceito dos anos 1970, surgido nos países nórdicos, para atualizar os espaços residenciais de hoje.

Ainda entre os pavilhões nacionais, outra exposição pertinente à pergunta do curador é a do pavilhão britânico, que discute o uso de espaços públicos e privados, como jardins cercados por grades e ruas exclusivamente dedicadas ao consumo. A seção inicial, "Entre Seres Diversos", mescla maternidade não feminina com opções de gaiolas para pássaros, passando por esculturas de cera de abelha e outras com buchas vegetais, para promover edifícios "probióticos". O clima de feira de ciências se completa com instalações high-tech, sobre arquitetura molecular. A dimensão colossal desta Bienal de Arquitetura, mantida mesmo depois de um ano em que os eventos foram cancelados, adiados e repensados, tem recebido críticas, assim como o impacto ambiental de suas instalações temporárias. Além disso, é um evento altamente dependente de visitantes internacionais, numa época em que as viagens, para muitos, continuam restritas.

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