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Viagens

Rumo ao sul

Isso aqui é um pouquinho de BR-101

Portal Engeplus visitou os últimos quilômetros da maior rodovia do Brasil

14
FEV
2017
| 17h00
17h00
Denis Luciano
Jornalista | Portal Engeplus
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Denis Luciano

Ela é a maior rodovia do Brasil. Começa em Touros, no Rio Grande do Norte. Termina em São José do Norte, no Rio Grande do Sul. Corta doze Estados. Costeia a região carbonífera, Criciúma e Içara. E a BR-101 é um livro aberto de histórias. Como a da duplicação em Santa Catarina, uma novela recentemente concluída.

Quem está por aqui, e se acostumou com o conforto de trafegar por vias duplas e espaçosas, talvez nem saiba que está a algumas centenas, não muitas, de quilômetros do extremo meridional ainda em pista simples, repleta de buracos e onde trafegar a mais de 60 quilômetros por hora e dentro da lei são verdadeiras ousadias.

“Sou do tempo em que atolávamos por lá, e só trator para nos salvar”, recordou o ex-jogador de futebol Sílvio Silvino das Neves, 53 anos, o Sílvio Laguna, que vestiu a camisa do Criciúma entre 1983 e 88. Depois de largar a bola, passou a viver dos peixes e tem na região de Mostardas, no Rio Grande do Sul, um dos bons mercados para encontrar pescados de qualidade. 

Os tempos lembrados por Sílvio antecedem 1993, quando o asfalto chegou ao trecho da BR-101 entre os municípios gaúchos de Osório, Capivari do Sul e Mostardas. Em 2001, o asfalto avançou, alcançando Tavares. Entre 2008 e 2009, a pavimentação chegou a São José do Norte, no até então último trecho de chão da BR-101 no Brasil.

O caminho
até a Solidão

Não apenas Sílvio Laguna, mas muitos saem de Criciúma e municípios vizinhos para pescarias e descanso no conhecido Farol da Solidão, em Mostardas, a quase 300 quilômetros daqui. Até Osório, tudo duplicado. Ali, quando inicia a BR-290 que leva a Porto Alegre, o viajante faz um desvio, recorta bairros de Osório até reencontrar a BR-101, que a partir dali passa a RST-101, trecho da rodovia estadualizado, e alvo de uma briga do governo do Rio Grande do Sul para devolvê-lo à União. 

A pista vai gradualmente piorando, até os pontos mais dramáticos. Entre Palmares do Sul e Mostardas, dos quilômetros 125 a 155, as crateras são vizinhas. Algumas enormes. “As panelas, tem de monte aqui”, diz o comerciante Jader Pereira, 50 anos, que tomava um cafezinho em um dos poucos pontos de parada no trecho. Em nada lembra a BR-101 catarinense, por exemplo. E com as duras penas dos cofres públicos gaúchos, difícil imaginar que o governo estadual vá conseguir resolver o problema. Transitar à noite? Nem os nativos se arriscam. “Moro ali em Mostardas e passar à noite aqui é um convite para ficar a noite aqui”, brincou o agricultor Júlio Oliveira, 53 anos, outro dos tempos em que atolar na areia do trecho era comum. 

A natureza
dá o tom

Há o bucólico e o engraçado também. Os campos dominam as cercanias da BR-101 estadualizada dos gaúchos. Em alguns trechos, as árvores fazem sombra nos ralos acostamentos, lembrando tempos antigos da mesma rodovia em Santa Catarina, antes que milhares delas fossem derrubadas para dar lugar às novas pistas. 

Se tem verde, tem fauna. E os animais buscam coexistir com a carcomida BR-101. Em Mostardas, a reportagem encontrou um cavalo que troteava solene e descansado na pista. “E o pior, na contramão”, gargalhou Nelson Joacir, 38 anos, motorista de uma empresa próxima. Os poucos que por ali viajavam naquela tarde nublada de sábado diminuíam prontamente a velocidade, depois ou antes de vencidos os buracos do pior trecho, em respeito ao flamante equino.

Ao contrário do que se poderia imaginar, poucas são as borracharias à beira da esburacada estrada. “Seria um bom negócio”, concordou o caminhoneiro Túlio Moreira, 48 anos, que vai e vem a São José do Norte, em busca de cebolas para os mercados que abastece na Grande Porto Alegre. Nos 84 quilômetros entre Capivari do Sul e o acesso ao Farol da Solidão, o destino de Sílvio Laguna e de tantos mais cedo mencionados, as últimas melhorias vieram no final de 2014, em uma operação tapa buracos. Melhorou, mas não resolveu. 

De volta federal,
um tapete

Vencido o acesso ao farol, a rodovia melhora, e não demora a voltar a ser BR-101. De Tavares a São José do Norte, no último trecho, já como federal, o asfalto reluz de tão novo. Não tem dez anos. É uma pista simples, estreita, mas muito boa. E como prova de que estrada é progresso, especialistas apontam que a economia daquela região, antes adormecida e estagnada pelo difícil acesso, mais que duplicou em uma década com a chegada do asfalto. “Morrem uns bichinhos atropelados aqui, o que no tempo da estrada de chão não acontecia. Mas é o preço”, comentou, entre lembranças, o pescador Pedro Messias, 68 anos, um velho usuário da antiga “Estrada do Inferno”.

No fim nacional da BR-101, está uma simpática pracinha de interior, com seus aposentados e poucos frequentadores. “Dessa praça vi terminarem o asfaltamento. Eu não acreditava, mas como dizia o outro, a esperança venceu o medo”, apontou outro pescador, Jesuíno Costa, 80 anos, enquanto via a tarde passar lenta. A rodovia termina com asfalto e a avenida Edgardo Pereira Velho começa com pedras irregulares, e o trânsito de carros novos e velhos, de carroças e bicicletas, dos nortenses (os de São José do Norte) e seus visitantes em um tráfego que virou frenético, para os padrões locais, depois da pavimentação da velha estrada, concluída em 2009 e que ligou de vez o extremo sul da BR-101 ao resto do Brasil. 

A estrada
complexa

No ponto zero, uma placa indica “km 405”, indicando não apenas as incongruências de uma estrada tão complexa quanto enorme, mas também a distância até Osório, no trecho gaúcho, parcialmente esquecido e abandonado. Perto da plaquinha, o primeiro - ou seria o último? - posto de combustível da BR-101, ao lado de uma quadra de futebol sempre bem frequentada, com a bola que rola a poucos metros da estrada. Até no quilômetro final a maior rodovia do Brasil resume um extrato do Brasil: a estrada, o automóvel e o futebol. Ah, e a esperança.

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