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No túnel da depressão, é possível encontrar uma luz

Doença deve ser a mais comum do mundo até 2030, aponta OMS
No túnel da depressão, é possível encontrar uma luz
Foto: Thiago Hockmüller/Portal Engeplus
Por Jessica Rosso Crepaldi Em 27/10/2021 às 20:53

Dias, horas, minutos ou até mesmo um instante… cada pessoa tem o tempo próprio para olhar para dentro de si e perceber que algo não está certo. Mas e quando se chega na etapa de não ver o tempo passar? O momento em que o protagonista se torna coadjuvante da própria vida, internalizando a tristeza ou sentindo um completo vazio? É mais ou menos desse jeito - cada um à sua própria maneira -, que um dos entrevistados para esta reportagem relatou ter sentido os dias passarem enquanto a depressão chegava.  

Enquanto isso acontecia, e até mesmo enquanto você lê esta reportagem, no mundo todo cientistas e profissionais da área da saúde buscam lidar e descobrir mais sobre a causa deste sentimento. Está aí a busca pela luz no fim do túnel… tanto para quem espera conseguir vencer a depressão quanto para quem a estuda.

Conhecida nos últimos anos como o ‘mal do século’, a depressão ainda não tem cura e levanta diariamente inúmeras perguntas sobre como surge, como se desenvolve, quem atinge e por quê. O alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de que a depressão pode ser a doença mais comum do mundo em 2030. 

O psicólogo Ismael Ferreira explica que a depressão é uma doença que foi se popularizando ao longo dos últimos anos, e que tem se tornado comum o fato de se dizer que determinada pessoa é depressiva ou até mesmo um paciente se autodeterminar como depressivo. “Isso tem se popularizado no meio das pessoas que às vezes são mais leigas com relação aos critérios científicos”, avalia.

Ferreira explica que estes critérios, que são rigorosos, incluem a depressão como sendo uma complicação psicológica assim como a ansiedade ou o pânico, por exemplo. “Existe essa concepção mais científica que não vai colocar a depressão como a doença do século”, destaca.

Neste momento, o que é possível afirmar diante dos estudos, segundo o psicólogo, é que as pessoas estão sofrendo psicologicamente muito mais do que em outros momentos, porém a depressão não é a única forma de sofrimento e nem tem sido a mais recorrente. O profissional - que atua em Criciúma - atende até 25 pacientes por semana. “Desses, de três a quatro casos são casos de pessoas diagnosticadas com depressão. A maior parte [dos psicólogos] vai ter casos de pessoas sofrendo de ansiedade, por exemplo”, afirma Ferreira.

 

Ninguém escolhe ter depressão

Ainda que este não seja o maior dos problemas visualizados em consultórios, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que cerca de 5,8% da população brasileira sofre de depressão – atualmente um total de 11,5 milhões de casos. E o que sabemos até agora é que a depressão "não escolhe" o paciente, uma vez que pesquisadores não conseguiram determinar exatamente onde inicia este transtorno. 

A professora e doutora em Ciências da Saúde e pós-doutorado na Unesc, Camila Arent, faz parte de um grupo que estuda a depressão na Universidade do Extremo Sul de Santa Catarina (Unesc). “Já se tem muitas evidências ou regiões do cérebro que estão relacionadas ao transtorno, outras substâncias do nosso organismo,  neurotransmissores descompensados… enfim, existem muitas evidências do que causaria a depressão, mas isso não está bem estabelecido. São muitas teorias”, explica. 

Em Criciúma, o grupo de pesquisa do qual Camila participa realiza estudos clínicos e pré-clínicos em busca de desvendar a depressão. “Temos um laboratório de psiquiatria translacional na Unesc. São anos de estudo para chegar a um resultado”, explica.

Apesar do esforço concentrado no estudo, atualmente o grupo trabalha em um projeto relacionado ao transtorno depressivo maior após a chegada da Covid-19. “Neste momento, este é o nosso carro-chefe [no laboratório]. Ele tem tomado todas as nossas atenções. Estamos totalmente dedicados a esse projeto agora”, explica.

 

Sintomas podem aparecer ainda na infância ou adolescência

Entre os milhões de brasileiros que sofrem com o transtorno está um jovem de 21 anos, morador de Criciúma. Para esta reportagem, ele preferiu não se identificar, e por isso o chamaremos a partir de agora de Bruno*

O momento depressivo pode aparecer trazendo ‘surpresa’ para o paciente, e a condição pode se manifestar de diversas formas. Bruno, por exemplo, descobriu a doença aos 13 anos e foi imediatamente internado. “Eu passei por uma dificuldade, meus pais estavam se separando e eu estava mudando de país. Além disso, eu não tinha nenhum amigo. Eu tinha uma ideia sobre esse assunto, mas nunca imaginei que isso poderia ser um problema meu”, comenta. 

O jovem conta que na época chegou a pensar não ter motivos para reclamar, já que existiam outras pessoas com ‘reais motivos’ para estar em uma clínica. “Eu me senti muito ruim”, pontua. 

Assim como para Bruno, outras pessoas podem ver com surpresa a chegada do transtorno. Por isso, a pesquisadora Camila Arent listou alguns sintomas que podem acender o alerta para aqueles que têm sentido desânimo:

  • Sentir tristeza, ficar deprimido;

  • Desinteresse em fazer coisas que causavam interesse;

  • Mudança de apetite (comer mais ou comer menos);

  • Apresentar ganho ou perda de peso;

  • Dormir menos, sentir-se muito cansado;

  • Sentimento de desesperança, desânimo;

  • Sentir-se bastante irritado, angustiado, ansioso;

  • Em casos mais graves: pensamentos de morte e idealização suicida.

 

Muito se fala sobre a importância do diagnóstico de outras doenças em seu início, para que o tratamento precoce ajude na cura. Mas, será possível identificar a depressão logo que ela inicia? De acordo com o psicólogo Ismael Ferreira, há maneiras de fazer essa identificação, apesar de isso ser mais difícil, uma vez que a intensidade dos sintomas é menor, assim como não são todos os sintomas que aparecem em um primeiro momento. 

“Quando identificados os sinais depressivos, a pessoa deve procurar ajuda. Quanto mais cedo iniciar o processo psicoterapêutico, mais fácil é o tratamento”, avalia.

Segundo Ferreira, muitas vezes estes sinais aparecem quando a pessoa tem dificuldade de lidar com as questões da vida, que podem aparecer desde a infância. “Criança que não consegue lidar, por exemplo, com a divisão de coisas na escola, não consegue lidar com o fato de ser mais um no meio dos outros, além de outras questões muito sutis na existência de cada um de nós que pouco a pouco vai se colocando como um problema”, complementa o profissional.

Uma pessoa que desenvolve um processo depressivo, vai desenvolver uma incapacidade de lidar com questões da vida. O psicólogo explica que rompimentos e perdas são muito mais difíceis de lidar. “Isso se dá porque ela vai ter uma fragilidade que vai se desenvolver ao longo da vida, às vezes desde a infância, sutilmente. Isso vai se agravando ao longo da vida,  fazendo com que a pessoa fique incapaz, às vezes, de lidar com questões a ponto de que, por exemplo, um fim de um relacionamento, de um emprego, ou uma perda faz com que ela não consiga mais sair da cama, não consiga mais sair para a vida”, completa. 

 

 

Apesar de sabermos que ter depressão não é algo fácil, os profissionais avaliam que é possível, sim, ter uma vida normal após receber o diagnóstico. Para isso, no entanto, é preciso que a pessoa tenha em mente a necessidade do enfrentamento, como o psicólogo Ismael Ferreira explica:

 

O enfrentamento ao tabu e a luz no fim do túnel

A psicóloga Josiane Javorski explica que há perspectiva de uma boa qualidade de vida mesmo que a pessoa tenha o transtorno, caso o tratamento seja feito da forma correta. Entretanto, ainda há muito tabu em relação a depressão. "A gente vem avançando, mas a passos muito lentos. Ela [a depressão] é diferente, porque a gente não quer ter, porque é uma doença estigmatizada, então demoramos muito para identificar que aquilo que estamos sentindo pode ser depressão e buscar ajuda, e às vezes, isso acontece em um estado muito avançado, e essa desesperança já tomou conta de uma forma que faz você achar que não tem mais jeito. Então, é legal você compartilhar as coisas, aquilo que está sentindo", pontua. 

A psicóloga pontua a necessidade de falar sobre o assunto, e ao longo da entrevista Josiane citou um estudo feito na Nova Zelândia, que acompanhou a vida de mil pessoas por 48 anos. "Elas foram avaliadas sete vezes durante este período. A pesquisa apontou que 80% dessas pessoas, ao longo da vida, desenvolveram algum transtorno mental", destaca.

O fato da conversa sobre o transtorno acontecer é o que faz com que todos olhem para essa causa com maior naturalidade, de forma que o tabu possa ser combatido dia a dia. “Isso não pode ser um problema para a gente e há uma tendência de que tenhamos cada vez mais condições de identificar. E se houver um tratamento psicológico que faça com que a pessoa entenda como esse processo foi evoluindo e os caminhos que ela tem para sair, muitas vezes com auxílio da psicoterapia e da medicação, ela pode sair do processo depressivo. É possível retomar a vida, e inclusive ter uma vida normal, uma vida comum como qualquer outra pessoa”, conclui a profissional.

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