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Mais de 12 horas de fila: a espera por atendimento médico em Criciúma

Portal Engeplus visitou postos de saúde durante a madrugada; nem todos têm filas
Mais de 12 horas de fila: a espera por atendimento médico em Criciúma
Foto: Heitor Carvalho | Rafaela Custódio
Por Heitor Carvalho | Rafaela Custódio Em 05/04/2019 às 17:35

Filas, reclamações e brigas. Na última semana, o setor de saúde de Criciúma entrou em evidência após o vereador José Paulo Ferrarezi (MDB) ter ido até a Unidade Básica de Saúde (UBS) do Centro para registrar o horário em que os pacientes chegam ao local para garantir uma senha e uma vaga para consultas. As senhas são entregues, geralmente, às 7 horas de sexta-feira. Por conta disso, desde a noite de quinta-feira pessoas já buscam reservar seu lugar na fila. Entretanto, como constatado pela reportagem nesta madrugada, isso não acontece em todos os postos de saúde da cidade.

Durante a madrugada desta sexta-feira, dia 5, jornalistas do Portal Engeplus percorreram as ruas para acompanhar de perto a situação. O primeiro registro foi feito na UBS da área central de Criciúma. O paciente Domingos Furlanetto, aposentado de 76 anos, havia chegado ao local às 18 horas de quinta-feira, dia 4, para reservar seu lugar.

Os repórteres estiveram também nas unidades de Santa Luzia, Pinheirinho, São Luiz, Brasília, Argentina e Próspera. A conclusão veio às 8 horas desta sexta-feira, em uma conversa de meia hora com a Secretária de Saúde do município, Franciele Lazarin de Freitas Gava. A reportagem completa, em vídeo, texto, áudio e fotos, você confere abaixo.

A Unidade Básica de Saúde (UBS) do Centro de Criciúma nesta sexta-feira, dia 5, ofereceu 88 números para consultas. Muitos dos que estavam na fila já haviam ido até lá na última sexta-feira, dia 29, e não conseguiram senhas para agendamento. Com isso, retornaram uma semana depois. “Já vim pela terceira vez. Não consigo pegar número. Estava um caos semana passada, pois só tinha 44 números. Hoje, teve o dobro de senhas. É lamentável esta situação da saúde pública. É triste. Você não vem para uma unidade a passeio, quando as pessoas estão aqui é porque realmente precisam”, comenta Eliane de Assunção, secretária de um consultório médico que após horas na fila ainda teria que cumprir sua jornada de trabalho.

Além do tempo de espera na fila, os pacientes reclamam do atendimento na unidade. “Já vim quatro ou cinco vezes. O atendimento é péssimo. Além de esperar, somos mal atendidos e não tem organização. O pessoal da fila se organiza melhor do que os profissionais. Ninguém tem respeito por nós”, declara José Luiz Gonçalves, que chegou às 4h30 e conseguiu a senha 49.

Gonçalves ainda relata que o período de espera para os procedimentos médicos também são demorados e isso pode afetar a saúde dos pacientes. “Chegamos aqui com um problema e estamos sujeitos a morrer e não nos dão uma solução. Está complicado”, afirma. “Não temos para quem reclamar. Ninguém se importa conosco”, acrescenta.

Organização voluntária

Enquanto o atendimento da saúde não é elogiado pelos pacientes, a atitude de Claudinor Tomé é reconhecida por quem fica na fila. Isto porque ele é o responsável por organizar e distribuir os números por ordem de chegada. “Eu distribuo as senhas para que quando os profissionais cheguem já esteja tudo organizado. Quem pega o número já sabe que está garantido. Semana passada cheguei às 4 horas e acabei ficando sem senha”, lembra.

Tomé estava com 88 números, mas ressalta que ninguém avisou que iria ter mais de 44 vagas disponíveis para consultas. “Nunca vi ninguém da secretaria de saúde aqui para nos ajudar ou organizar a fila. É um descaso da prefeitura. Tem pessoas que vieram ontem para pegar um número”, observa.

A reportagem do Portal Engeplus encontrou uma situação diferente no bairro Santa Luzia. Havia pacientes na fila, porém eles explicaram que isto acontece por motivo de precaução. “Cheguei às 5 horas. Tinha apenas uma pessoa que chegou às 4h30. O atendimento aqui é bom. Há alguns meses tínhamos que vir bem cedo, mas agora mudou. Já foi resolvido o nosso problema”, esclarece José Mateus. “Nunca forçaram ninguém a vir de madrugada, mas a gente vem para garantir a vaga. Todo dia tem médico e tem números”, complementa.  


O posto de saúde do Centro Social Urbano também não registrava filas nesta manhã

 

Já no bairro São Luiz, encontramos cerca de 30 pessoas na fila. Não havia senhas distribuídas entre os pacientes. Gislene Rodrigues chegou à unidade às 6 horas e comentou que UBS não atende apenas moradores do bairro São Luiz, mas contempla também os bairros Fábio Silva e Milanese. “Infelizmente é uma situação difícil, porque tem semanas que você vem e tem número, e outras semanas não”, afirmou.

Na última sexta-feira, dia 29, o vereador José Paulo Ferrarezi esteve na UBS do Centro e relatou em suas redes sociais e também ao Portal Engeplus sobre a situação que encontrou no local. Nesta sexta-feira, dia 5, ele voltou ao posto de saúde para conferir a situação. “A secretaria de saúde e os coordenadores das unidades precisam informar a sociedade quando houverem mais senhas de atendimento. É uma falta de respeito com o cidadão na nossa cidade”, declara.

Segundo Ferrarezi, através de um requerimento a Secretária de Saúde, Franciele Gava, foi chamada para estar presente na sessão do dia 23 na Câmara de Vereadores. “Sou vereador da cidade e tenho que fiscalizar, esse é o meu papel. Então no fim do mês vamos fazer um debate na câmara sobre a saúde da nossa cidade”, relata.

Não é corte de gastos, é falta de profissionais interessados

De acordo com Franciele, o que tem dificultado o atendimento no posto da área central de Criciúma é que há pouco tempo, dois médicos pediram demissão. "Não estamos promovendo corte de gastos ou diminuindo vagas no posto. Realmente, estamos em busca de profissionais, mas não encontramos", explica a secretária.

Cobrada pela Câmara de Vereadores, Franciele diz saber que o dever do vereador é fiscalizar, mas lembra que eles também podem propor soluções. “Basta que eles proponham uma solução, porque eu faço. Estou aberta a receber ajudas nesta situação”, declara.

Confira no áudio um trecho da entrevista com a secretária.

Com data marcada para ir à sessão da Câmara, a secretária já sabe o que fazer lá. “Eu vou perguntar pra eles qual é a solução para o problema: o que fazer quando não há proibição de contratação; quando não há redução de custos; quando podemos contratar quando não temos profissionais para o cargo."