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Fernando Jorge da Cunha Carneiro: o primeiro arquiteto de Criciúma

Aos 90 anos, ele já criou mais de 2 mil projetos e construiu uma bela história
Fernando Jorge da Cunha Carneiro: o primeiro arquiteto de Criciúma
Foto: Lucas Renan Domingos/Portal Engeplus
Por Lucas Renan Domingos Em 28/07/2021 às 17:22

Ainda criança, Fernando Jorge da Cunha Carneiro, nascido em Araranguá em 27 de junho de 1931, mudou-se de sua cidade natal para Criciúma. Aos sete anos, em dezembro de 1938, junto da família, chegou na Capital do Carvão e aqui deu continuidade aos seus estudos, iniciados no Grupo Escolar Davi do Amaral, ainda em solo araranguaense, onde fez o primeiro ano do primário. No Grupo Escolar Professor Lapagesse ficou até finalizar o primeiro complementar. Em 1943 foi para Porto Alegre estudar as cadeiras ginasiais e científicas, quando surgiram seus primeiros traços.

Dos 90 anos de vida, Carneiro tem 67 deles dedicados ao que sabe fazer de melhor, projetos arquitetônicos. Ainda no ginásio, o menino que mais tarde seria o primeiro arquiteto de Criciúma e o primeiro catarinense com título exclusivo de Arquiteto e Urbanista, dava sinais da profissão que iria seguir.

“Eu, no período ginasial, já gostava de desenhar algumas ruas existentes de Criciúma”, conta. O 11º filho dos 12 que teve Jorge da Cunha Carneiro foi influenciado pelo pai a ingressar na faculdade na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mesmo ainda sem saber ao certo qual caminho desejava trilhar.

“O meu cunhado Jorge Frydberg tinha a primeira construtora legalizada de Criciúma e também por já gostar de desenhar, eu acabei tendo esta influência. Mas a verdade é que quando eu fiz o vestibular eu estava em dúvida entre três cursos. Além de Arquitetura, pensei em Medicina e Agronomia. Medicina porque eu tinha curiosidade sobre o corpo humano. E Agronomia porque meu pai tinha bastante terras na região, onde plantava e criava animais”, lembra.

Fundação da faculdade de Arquitetura e Urbanismo na UFRGS

A escolha foi mesmo a Arquitetura. “Parecia que estava mais no meu espírito”, pontua o arquiteto e urbanista criciumense. Só que a área ainda era apenas um braço da Escola de Engenharia da UFRGS. “Era um ano só de projetos, com algumas disciplinas de urbanismo”, relata. Com a contribuição de Carneiro, a federal gaúcha montou em 1951 a primeiro curso dedicado exclusivamente para a formação em Arquitetura e Urbanismo.

“Nós fundamos a faculdade de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul fazendo a junção de dois cursos que existiam dentro da Escola de Engenharia, que era o de Arquitetura e o de Belas Artes. Em 1952 foi a primeira turma da faculdade de Arquitetura e Urbanismo da federal e foi a turma que me formei”, detalha Carneiro.


Arquiteto mostra a homenagem que recebeu no cinquentenário da faculdade de Arquitetura da UFRGS - Foto: Lucas Renan Domingos/Portal Engeplus

As primeiras obras e a paixão por viagens

Formado na UFRGS, aos 23 anos, ao lado de outros cinco colegas e um professor o arquiteto e urbanista criciumense foi buscar experiência no exterior. Antes de retornar a Criciúma, ele ficou 100 dias na Europa Ocidental.

“Fomos aprimorar tudo o que estudamos e depois eu utilizei o conhecimento para dar aulas quando retornei a Criciúma. Fui professor de Inglês, Desenho Geométrico e Taquigrafia em várias escolas particulares de Criciúma e professor titular das cadeiras de Geometria Descritiva, Desenho Artístico e Perspectiva, e História das Artes e das Técnicas do curso de Educação Artística, além de membro do primeiro Conselho Curador da Fucri, hoje Unesc”, afirma.

Durante o tempo na Europa nasceu outra paixão, a de viajar. “Eu já pisei em 55 países de todos os continentes. Não posso dizer que conheci, porque a gente não conhece nem o Brasil direito”, sorri. “Sempre quando posso e quando tenho dinheiro eu viajo. Gosto muito de visitar museus, principalmente. Acredito que 80% dos maiores museus do mundo eu conheço”, calcula.


Em um mapa, Fernando da Cunha Carneiro marca os países onde já pisou - Foto: Lucas Renan Domingos/Portal Engeplus

Em 1955, já novamente na cidade criciumense, Carneiro abriu seu escritório. De lá para cá, foram mais de 2 mil obras assinadas por ele. “Aqui não havia arquiteto. Eram os próprios engenheiros que copiavam algumas de livros de arquitetura de Buenos Aires, na Argentina. Os meus primeiros projetos foram o prédio Alcino Zanatta, a casa do Rubens Costa e a casa do Thadeu Silvestre”, enumera.

O apego pelas obras

Com a assinatura do arquiteto foram erguidas obras de residências, edifícios, prédios comerciais, supermercados, igrejas, escolas, espaços públicos, monumentos, clubes e outros. Alguns dos projetos são bastante conhecidos pelos criciumenses como a Igreja Nossa Senhora da Salete, no bairro Próspera, o espaço comercial que hoje abriga o Camelódromo, a Estação Rodoviária, o Mampituba, o Criciúma Clube. Há também aquelas que ganham a preferência do artista. 

“Algumas eu gosto mais. De residência tem a casa do Jarvis Gaidzinski. A Praça do Congresso também foi eu que projetei. O Monumento aos Mineiros, que representa a mineração em galerias e a mineração a céu aberto, também foi eu que fiz. O Monumento às Três Etnias, da Praça Seis de Janeiro. Teve ainda a Satc, a TV Eldorado a própria Igreja Nossa Senhora da Salete”, enumera. 


O prédio onde fica atualmente o Camelódromo, um dos projetos de Carneiro - Lucas Renan Domingos/Portal Engeplus

Outros projetos ficaram apenas no papel ou não saíram da forma como pensava o arquiteto. “Tem alguns projetos que eu gostaria muito que fossem concretizados, mas depois, por questão financeira, não foram feitos. Outros foram executados, mas não da forma que projetei. É o caso do bairro Cidade Mineira que as casas eram para ser construídas com jardins na frente, o Camelódromo que era para ser um prédio comercial no centro com um shopping ao ar livre nas outras salas e depois colocaram os camelôs lá. E algumas foram feitas, mas reformaram, destruíram sem ao menos falar comigo”, reclama. 

Contemporaneidade

Apesar de desenhar seus próprios traços, sempre iniciando o projeto à mão, mantendo a tradicionalidade do antigo modo de trabalhar dos arquitetos, sem muita tecnologia, Carneiro tem suas referências. Um de seus professores foi o arquiteto austríaco Eugênio Steinhoff. Sempre buscou inspiração em arquitetos como o francês Le Corbusier, o alemão Walter Gropius, o finlandês Eero Saarinen, os brasileiros Oscar Niemeyer, Irmãos Roberto e outros paulistas. 

Foi seguindo o que aprendeu com os seus mestres que ele desenhou os seus projetos, dentro do que ele define como Arquitetura. “A Arquitetura é um retrato de cada época e região, porque ela utiliza justamente materiais da época e da região, isso é a verdadeira Arquitetura. Hoje, por exemplo, estão sendo utilizadas mais estruturas metálicas, porque outros materiais como madeira e concreto armado estão desaparecendo”, diz. 

Muitas das obras de Carneiro seguem sendo atuais, mesmo sendo projetadas a anos atrás. “O funcionalismo da Arquitetura é fazer com que o projeto sirva àquilo que propõe, utilizando os materiais da época e com função para tudo bem determinado. Em um projeto bem feito, olhando por fora você consegue definir o que há dentro. E por dentro a Arquitetura tem que ser boa também. Se você vai dentro, você também precisa se sentir confortável. Eu fiz o projeto de Della Giustina, por exemplo. Por fora você vê que o prédio é  agradável de se olhar e ao entrar o sentimento é o mesmo”, afirma. 


Arquiteto ainda mantém a tradição de iniciar os projetos com desenhos à mão - Foto: Lucas Renan Domingos/Portal Engeplus

Reconhecimentos pelo o que construiu 

Aos 90 anos, Fernando Jorge da Cunha Carneiro, sócio titular do escritório Carneiro e Arquitetos Associados, que administra ao lado do filho Maurício da Cunha Carneiro e da neta Júlia Carneiro Lucchese,  já não assina mais tantos projetos como antigamente. “Mas eu continuo dando alguns pitacos”, brinca o arquiteto. 

Foi dele inclusive os primeiros desenhos de um dos projetos que está em andamento, o da Igreja da Ressurreição, que contará com um columbário e será edificada no Santuário Sagrado Coração Misericordioso de Jesus, em Içara. 

Mesmo em ritmo mais tranquilo de outras épocas, a história que Carneiro construiu ficará sempre marcada. A garantia disso está nos troféus e homenagens expostos em sua sala no escritório, os quais ele exibe com orgulho.


Arquiteto exibe com orgulho os prêmios e homenagens que já recebeu pelos trabalhos que desenvolveu - Foto: Lucas Renan Domingos/Portal Engeplus