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Escultura e violão: quem é o artista plástico Gil Galant?

Escultura e violão: quem é o artista plástico Gil Galant?
Foto: Jessica Rosso
Por Jessica Rosso Em 13/08/2021 às 16:14

Você já se perguntou de onde vem a inspiração de um artista? Essa foi uma das primeiras perguntas que fiz ao Gil Galant, artista plástico natural de Morro da Fumaça, da localidade de Linha Anta, que mora atualmente no bairro São Simão, em Criciúma. Aos 57 anos, ele relembra que quando ainda era estudante, aos 12 anos, descobriu com naturalidade que aquilo que tinha ao seu redor era o que lhe dava inspiração.  

 

“Gil Galant é um artesão, um artista, um cara que busca melhorar, um cara que busca no trabalho dele ter um traço todo dia, uma assinatura para ter no seu trabalho, uma originalidade, porque as pessoas falam que é muito difícil ser artista no Brasil, é muito difícil, tem muitos artistas no Brasil, mas ser artista e ter um traço ao ponto de refinar, e aquele traço ser reconhecido tem que trabalhar demais. Vemos caras como Picasso, como Monet, em que um simples rabisco você já sabe de quem veio aquele traço, então é essa procura, é essa intensidade, e Gil Galant é o cara que está procurando isso”, diz o artista plástico sobre si mesmo.

 

Hoje, Gil tem monumentos na região Sul, incontáveis peças de artesanato feitas de madeiras, constrói violão e é reconhecido por sua trajetória artística. Vive da arte, e a arte emana de suas mãos. Viajou pelo Brasil, conheceu diversas culturas, se instalou em Criciúma e por um tempo trabalhou como artesão, desenvolvendo joias em ouro e prata. Trabalhando como entregador de jornal, ele conheceu o artista Edi Balod, com quem construiu uma amizade que o incentivou ainda mais a trabalhar com artesanato. Como ele mesmo cita, segue buscando o traço que deixe sua marca como artista. 

Viver da arte não é fácil

 

Quem olha as obras de Gil Galant, entre esculturas e violões, nem imagina a sua trajetória, ou as dificuldades que como artista ainda enfrenta. Ele conta que é difícil, mas que nunca foi fácil, não que ele lembre pelo menos.

"Eu vivo com muito pouco. Viver de arte não é com duas conversas, tem que ser muito centrado, ter uma cabeça muito legal, eu perdi vários amigos por causa de drogas, por causa de bebedeira por não se organizar, são muitas ideias fluindo, muita coisa acontecendo e tu tens que se organizar para produzir, se você não tem essa organização mental não consegue produzir, não consegue fazer nada. Você anda numa corda bamba o tempo todo, e precisa estar se nutrindo de bons pensamentos de coisas boas", disse. 

Questionado sobre a escolha e a vida que leva dedicada à arte, ele ressalta que é uma vida de descobertas, onde não há dinheiro que pague as vivências que se tem, e que ali se pode crescer como espírito. "É aproveitar esse tempo", pontua. 

Gil mora sozinho, mas não é solitário. Ele conta que está sempre recebendo pessoas em sua casa, que também é seu local de trabalho, e tem uma filha. Sobre a chegada da pandemia da Covid-19, ele comentou como isso tornou as coisas mais difícies financeiramente para quem é artista. Gil foi contemplado com a Lei Aldir Blanc, recurso que auxiliou artistas num primeiro momento no Brasil.  

Para o artista a felicidade é uma coisa fragmentada. O que as pessoas estão passando na pandemia, é o que Galant tem passado há muitos anos. "Se você aproveita esses momentos e está presente, você é feliz. É isso que as pessoas não estão, mais presentes, e essa pandemia veio para mostrar para elas como é difícil estar presente, e aí a hora que elas estão com elas mesmo, elas se assustam, e se perguntam quem são, porque vieram, que negócio é esse? E agora tenho que ficar comigo e administrar meus pensamentos. É doido, né".

Quem veio primeiro, o violão ou o artesanato ? 

O artista conta que o artesanato abriu para ele o caminho da arte. “O artesanato é uma coisa que se repete, é uma coisa que abriu toda essa consciência para ser artista”, afirma. Ele relembra que o artesanato o levou há vários lugares da América Latina. 

Para ele, esse um trabalho como outro qualquer. “Você tem que acordar cedo, trabalhar, procurar se manter numa linha pra estar sempre legal, sempre bacana, tendo boas inspirações, boas conversas, um bom astral para levar adiante", disse. Questionado sobre a obra preferida, ele cita: "a próxima".

Depois do artesanato, veio o violão. Gil conta que está no 15º e que trabalha com uma antiga técnica chamada flamenca, em que se utiliza um serrote e um formão, alcançando uma artesania muita boa. Ele e um amigo fizeram o primeiro violão juntos e depois disso deu continuidade.

"As mãos tem que estarem bem calibradas, é uma maneira diferente de construir um violão, e a sonoridade é total, é uma técnica que poucos trabalham e isso tem muito na Europa, com muitos artesãos, que ainda guardam essa técnica. É uma técnica que eu estou iniciando, quebrando a minha cabeça, aprendendo com tudo isso", relata. Atualmente, o artista plástico leva cerca de um mês para contruiu um violão. 

Estou aprendendo sobre a sonoridade e a qualidade das madeiras que tem no Brasil. Existem madeiras no Brasil que são ótimas para violão e tem outras nem tanto. Só que no Brasil não tem a madeira para o tampo do violão. A melhor madeira vem da Europa por causa do crescimento da árvore, que lá é mais lenta, o clima mais frio, então ela adquire uma mobilidade. Seria o mesmo pinus daqui, só que plantado na Europa. Podemos fazer o tampão com outras madeiras, venho pesquisando outras madeiras brasileiras para isso, mas não alcança o mesmo timbre. Para os braço do violão temos as melhores madeiras no mundo", explica, Galant. O artista cobra em média R$3.500 por um violão feito com madeiras nacionais.

 

"Estudo muito até hoje"

Gil optou por não concluir os estudos. Ele saiu para viajar após a sétima série. Ao longo do tempo conheceu muitas pessoas que assim como ele, optaram por viajar. "Fui viajar nos anos 80, e tinha muita gente boa viajando, conheci pessoas que largaram a medicina para viajar, conhecer lugares, as pessoas, era a única maneira que tinha de conhecer, não era pela internet, tinha que pegar o ônibus e ir lá e tal,  telefonar para alguém se você tinha, para dar uma força e assim ia", relembra. O artista plástico conta que também teve relacionamentos em que sempre acabava sendo levado para o banco de uma faculdade, assistir aula de artes, e isso foi o que o fez também querer ler, correr atrás e pesquisar. 

Apesar do artista não ter ido à universidade, a educação permanece presente em sua vida. "Eu tomei o caminho inverso. Eu pesquiso até hoje, estudo muito até hoje, leio muito, e não tem outro jeito se não estudar", finalizou.