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Almir Fernandes: uma vida dedicada ao voluntariado

Atualmente, Almir é presidente da Cruz Vermelha de Criciúma
Almir Fernandes: uma vida dedicada ao voluntariado
Foto: Arquivo Pessoal
Por Amanda Garcia Ludwig Em 20/05/2020 às 20:41

Muitas pessoas que já precisaram de algum tipo de ajuda no Sul de Santa Catarina vão conhecer este nome: Almir Fernandes de Souza. Há anos, onde há alguma necessidade de assistencialismo social, Almir está presente. E não poderia ser diferente, já que o voluntariado está em sua vida desde sempre. Atualmente, ele é presidente da Cruz Vermelha de Criciúma e responsável por grandes campanhas de ajuda voluntária na região.

Além de presidir a Cruz Vermelha, é comum que os sul catarinenses encontrem Almir envolvido em outras frentes de trabalho. Além de profissionalmente ser agente de polícia civil, exercendo a função de auxiliar médico-legal no Instituto Geral de Perícias (IGP) de Criciúma, nas horas vagas ele se dedica ao voluntariado. É coordenador da Equipe Multi-Institucional, e atua ainda em projetos como a Campanha do Agasalho, ONG Banco de Olhos de Criciúma e Praia Acessível. 

Um longo caminho de crescimento traçado entre muitas atividades

Vindo de uma família grande, com 18 irmãos, desde muito cedo Almir conviveu intensamente com um ambiente onde cada um precisava ser independente. "Aos 12 ou 13 anos eu já levava almoço para minhas irmãs que trabalhavam no hospital. Eu saía do bairro Santa Bárbara e quando chegava perto do hospital me impressionava. Eu pensava em ser médico ou enfermeiro, o ambiente hospitalar me levava a pensar no futuro", conta.

Seu primeiro emprego? Ascensorista de elevador no Hospital São José, em Criciúma. O ir e vir de médicos e enfermeiros, e o fato de transportar os profissionais para centros cirúrgicos ou cadáveres para a área de necrotério do local despertou sua curiosidade. "Eu aproveitava o tempo livre para ler livros de medicina, e sempre que era possível, tirava dúvidas com estes profissionais enquanto eles estavam no elevador", lembra Almir.

Logo depois, o hospital precisou de um atendente na área de enfermagem, e Almir aceitou o emprego aos 17 anos. "Inicialmente fiquei receoso, na época não havia facilidade de internet para tirar as dúvidas. Mas com o apoio da minha irmã, aceitei. Foi aí que consegui ser bem treinado para atender ocorrências de emergências, traumas, mortes violentas e acidentados", relata o profissional.

Na época, Criciúma ainda não tinha um Instituto Médico Legal (IML), e isso fez com que Almir trabalhasse diretamente com o médico legista do hospital. "Foi aí que comecei a perceber outras oportunidades dentro da área médica. Pedi um tempo e fui fazer um curso pré-vestibular em Florianópolis."

Não deu conta do curso. Precisava trabalhar e estudar ao mesmo tempo, e para ir do Hospital de Caridade que ficava na ilha ao cursinho que estava no continente, precisava cruzar a pé a ponte Hercílio Luz. "Era comum me encontrarem dormindo na aula. O cansaço era grande", conta.

Ele decidiu voltar ao hospital São José de Criciúma. Tentou ainda fazer a faculdade de Enfermagem em Tubarão, mas também não conseguiu controlar o cansaço. "Não consegui chegar ao fim por não conciliar trabalho e faculdade. Aí vi que não dava mais. Foi quando surgiu o concurso público ligado à Polícia Civil, com vaga para auxiliar médico legal. Como tive muita experiência com médicos legistas, consegui ser escolhido na concorrência", conta.

O chamado ao voluntariado

"O pronto-socorro me fez enxergar o quanto é breve nossa vida". Essa foi a resposta quando questionei Almir sobre o que o levou ao caminho de ser voluntário. Depois de trabalhar no pronto-socorro do Hospital São José, o profissional sentiu a necessidade de se envolver em ações e projetos sociais. "Eu comecei a trabalhar no projeto Eucarijo, da irmã Joana, entregando comida e roupas. Era algo com que eu me identificava", destaca.

Em seguida, iniciou os primeiros passos na Cruz Vermelha, com o convite do delegado Adauto de Souza. "Eu ainda era solteiro nesta época, e quando um paciente tinha alta do hospital, eu pegava o endereço dele e levava até sua casa soro fisiológico e gaze, para fazer os curativos que eles precisavam. Também tive a ajuda de Adolfo Colcilio Cardoso nesta época."

Almir atribui o fato de estar ativo em muitas frentes simultaneamente a ser muito ansioso. "Penso sempre em não perder tempo, por conta de ver gente morrendo de forma súbita e inesperada. Eu penso: logo é a gente. E por isso tento fazer tudo isso", relata.

Muitas frentes de trabalho; muitas pessoas sendo ajudadas

Durante toda a entrevista ao Portal Engeplus, Almir fez questão de reforçar todas as frentes de trabalho em que atua - de forma a não deixar nenhuma ser esquecida. Outra coisa que fez questão de reforçar: a ajuda que recebe de muitas pessoas e entidades. "Sozinho não faço nada. É importante valorizar todos os voluntários. Eu acabo aparecendo mais, mas temos muitos outros que fazem tudo acontecer."

E nada é feito sem muito planejamento envolvido. "Não fazemos nada sem ter o apoio logístico pensado. Por exemplo, nunca faremos uma campanha de doação de sangue e medula óssea sem envolver o Hemosc para suporte. Ou uma campanha de alimentos sem o Cras e Secretaria Social juntos", explica Almir.

A menina dos olhos do voluntário é a Equipe Multi-Institucional. Um grupo formado em Criciúma por diversas instituições como a Cruz Vermelha, Exército Brasileiro, Polícias Civil e Militar, Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, e mais recentemente Marinha do Brasil e Sindacta - ligado à Aeronáutica. Estes são apenas alguns dos 41 componentes deste grupo que tem um só objetivo: ajudar quem precisa. 

 

"Na época em que tivemos o Furacão Catarina e as enchentes, ainda não existia uma coordenadoria de Defesa Civil. Eram as outras instituições que trabalhavam em catástrofes. Com o delegado Adauto sendo delegado regional na época, começamos a arrecadar donativos e formou-se uma grande campanha, que desencadearam outras ações posteriores. Foi aí que nasceu, também, a Campanha do Agasalho para acontecer em momentos de paz, quando não tínhamos catástrofes. Com isso, a equipe foi criando corpo, e hoje conta com 41 instituições."
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Almir Fernandes, presidente da Cruz Vermelha de Criciúma e coordenador da Equipe Multi-Institucional

 

A Equipe Multi-Institucional é motivo de orgulho, por ser um caso raro no Brasil. "Acreditamos que esta é uma característica que não existe em outro local. Todos com quem conversamos ficam surpresos com o fato de tantas instituições colaborarem juntas de forma social. Chama a atenção. Muitos inclusive pedem para usar nosso exemplo e slogan, para promover campanhas parecidas em seus estados", relata o presidente da Cruz Vermelha.

Em números, não é possível saber a totalidade de pessoas ajudadas nos últimos anos. Mas Almir tenta:

- Cada Campanha do Agasalho ajuda cerca de oito mil famílias. Se contarmos que cada família tem a média de quatro pessoas, isso significa que são mais de 30 mil pessoas atingidas pela campanha.

- A Farmácia Solidária, que nasceu na Cruz Vermelha e tem a Unesc como atual mantenedora,  já ganhou prêmios estaduais e ajuda uma média de 35 mil pessoas por ano, com distribuição de medicação gratuita.

- O programa Educando para o Trânsito, da Polícia Civil/6ª Ciretran e IML, já teve mais de 20 mil alunos - sem contabilizar as empresas onde os voluntários já repassaram dicas de segurança no trânsito.

- Inúmeras pessoas foram ajudadas pela Rede de Proteção à Vida após o IML perceber, cinco anos atrás, que Criciúma e região contabilizou 50 mortes por suicídio em um único ano. "Começamos a buscar ajuda para isso e conseguimos", destaca.

- Em 2018, último ano em que Almir teve tempo para fazer a estimativa, 80 mil pessoas foram beneficiadas por ações que envolvessem a Equipe Multi-Institucional. "Só perdemos o Banco de Olhos, que já foi referência de captação de córneas, atualmente não podendo fazer captação no IML, apesar das novas instalações no Hospital Santa Catarina do Banco de Tecido Ocular da Região Sul", lamentou o voluntário.

Atualmente, Almir também participa do Vida Ativa São José, que cuida de pessoas que possuem traumas por conta de acidentes. "Tivemos recentemente um desfile inclusivo e os cadeirantes ganharam look completo, para aumentar sua autoestima", relata. Ele também faz questão de lembrar do projeto Praia Acessível, projetado pelo grupo Ação Mais, e que há alguns anos torna possível que cadeirantes aproveitem piscinas e o mar em uma cadeira anfíbia.

"Temos muitos projetos na cabeça e no papel, mas não sai dali do nada. Precisa engatinhar. Tem que pensar e encontrar os parceiros certos. Não podemos ser irresponsáveis. Sempre colocar em prática e depois deixar que o projeto caminhe sozinho, com o apoio de uma gestão correta", conclui Almir.

E o futuro, Almir? Entre todos os projetos, está o desejo de ter um galpão para um Centro de Triagens de doações. "Pensamos em fazer funcionar em forma de rodízio. Muita gente tem o que doar, mas não faz isso, porque não conhece a necessidade do outro. Queremos ser a ponte entre quem precisa e quem quer doar", avisa.

Começou na família, e continua assim...

Quem está mais próximo do Almir sabe que ele tem um apoio muito importante bem pertinho. Esse apoio se chama Bia, com quem é casado. E se você achou que ele já faz muita coisa, nem imagina o que ainda promove dentro de casa. "Nós não temos filhos, mas temos a família Bia Almir. Temos 33 filhos de outras pessoas que a gente acabou adotando, para ajudar a cuidar", conta.

Os dois moraram por muitos anos na associação da polícia, no bairro São Defende, em Criciúma. "Muitos passavam o dia conosco, e fomos ajudando a educar e dar um norte. Praticamente todos estão casados e com filhos. Conosco, conseguiram um ambiente familiar, e a Bia monitora todos eles. Qualquer um que tem dor de barriga, ela cuida", conta Almir.

A projeção é que o futuro siga nesta trilha... começou com a família, e termina com a família. "A única herança que podemos deixar é isso. O legado. Não é deixar bens... é deixar saudade com aquilo que trouxemos de valores e situações de ajuda ao próximo."