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Centenário do empreendedor Martinho Acácio Gomes

Texto Biografia Nilton Gomes Paz, edição autorizada Willi Backes
Centenário do empreendedor Martinho Acácio Gomes
Foto: Martinho “Zacarias” Acácio Gomes, Pedro Fuchter e respectivas Esposas. (Arquivo/Nilton Gomes Paz).
Por Willi Backes Em 13/06/2021 às 16:31

Em 22 de junho de 2021, se vivo fosse, Martinho “Zacarias” Acácio Gomes estaria comemorando 100 Anos de existência. Entretanto, a sua intensa vida empreendedora foi interrompida prematuramente aos 45 anos de idade, em 1º de outubro de 1967. Fica para a história econômica do Sul Catarinense o espírito exemplar, arrojado e empreendedor do empresário Martinho Acácio Gomes.

Martinho Acácio Gomes, mais tarde conhecido por Martinho Zacarias, nasceu em 22 de junho de 1921, na localidade de Soares, no município de Araranguá (SC), era o primogênito de uma prole de 15 filhos de Zacarias Acácio Gomes e Helena Ezerciana Gomes.  

Visão para os negócios propositivos

Até seu casamento com Lavina Machado Gomes, em janeiro de 1944, com quem teve cinco filhos - Maria Helena, Neri, Vantenor, Lenir e Maria Salete - dividia seu trabalho como lavrador e no pequeno comércio de propriedade de seu pai.  Após seu casamento mudou-se para Capivari, então município de Tubarão, onde estava sendo construída as instalações do lavador da CSN - Companhia Siderúrgica Nacional, criada em 1943. Lá iniciou sua primeira atividade no transporte, sendo proprietário de duas carroças e quatro cavalos, que eram utilizados na movimentação e transporte de terra para os aterros, necessários a construção do lavador. Nesta tarefa contava com a participação de seu irmão Aníbal, o que facilitava também ele desenvolver uma banca de jogo conhecido como Suspandi, uma espécie de roleta, desenhada em uma lona, com o lançamento de dados, conhecidos como dadinhos. Naqueles tempos os jogos eram legalmente autorizados. Em Capivari nasceu sua primeira filha Maria Helena.

Em 1945, resolveu então vender o contrato de transporte de terras que detinha na CSN, o que incluía carroças e cavalos, e retornou para Araranguá, e em seguida mudar-se para Criciúma, onde já residia seu pai, começando com ele em 1946 sua atividade no transporte interestadual de mercadorias, utilizando caminhão.

Empreendedorismo sobre rodas

Constituída a parceria entre pai e filho, adquiram inicialmente um caminhão Ford ano 1941 e começaram a desenvolver o transporte para o Sul, onde levavam farinha e retornavam com trigo. Nessa função, era o próprio Sr. Martinho quem era o motorista das viagens. Ainda em 1946, compraram um caminhão também Ford, porém, novo, com os quais trabalharam até 1947. Neste intervalo adquiram novo caminhão também Ford F8.  Entretanto, a parceria com o pai acabou aí, e em 1948 o Sr. Martinho buscou novos horizontes dentro da modalidade e fundou neste mesmo ano, em sociedade com o Sr. Pedro Fuchter, também motorista, a Transportadora Cresciumense, empresa voltada para o transporte de cargas fracionadas, de São Paulo ao Rio Grande do Sul.  Rapidamente expandiu suas atividades, instalando filiais ao longo do litoral brasileiro do Rio de Janeiro até Porto Alegre.

Constituída a sociedade, a sede foi instalada onde hoje é a Praça dos Imigrantes, no Centro de Criciúma, e a primeira filial na cidade São Paulo, para onde se deslocou o Sr. Pedro Fuchter. Rapidamente expandiu as atividades da empresa, instalando filiais ao longo do litoral brasileiro do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul, assim distribuídas: Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Joinville, Itajaí, Florianópolis, Tubarão, Criciúma, Araranguá e Porto Alegre. A partir de 1949 em diante, a frota foi composta por caminhões “internacional”, que eram os mais potentes da época, até o início da fabricação dos caminhões FNM, que em fins da década de 50 substitui todas as unidades de longo percurso.

A primeira carga de banha para São Paulo via terrestre foi efetuada pela Transportadora Cresciumense, tendo como motorista o Sr. Marcos Zanette, com duração de três dias. Antes esta mercadoria era enviada por via marítima, por meio do porto de Laguna.

Em 1951, iniciou a construção da sede na rua Marcos Rováris esquina com a rua Itajaí, com modernas plataformas de movimentação das cargas e amplas instalações administrativas. Até 1963 foi um período de significativo desenvolvimento da empresa a colocando entre as maiores do sul brasileiro, com frota moderna, composta na quase totalidade pelos caminhões fenemês.

Hospedagem com excelência

Em meados da segunda metade da década de 50, o Sr. Martinho investiu também em aviários de grande produtividade de ovos, localizados em Mãe Luzia, em área de sua propriedade, investimento este que foi trocado pelo terreno com frente para as ruas Coronel Pedro Benedet e Marcos Rováris, onde seria inaugurado em 1966, o Ouro Preto Hotel, o mais luxuoso hotel de Criciúma na época, contando com mais de 100 apartamentos, todos equipados com banheiros, telefone, ar condicionado, ampla sala de estar e moderna cozinha e lavanderia, o que na época só eram encontrados nos grandes centros. A partir de sua inauguração, o Ouro Preto Hotel passou a fazer parte como marco importante no Centro de Criciúma.

Volkswagen, o carro do povo. Antevisão do empreendedor

Em 1959 começou a revenda dos automóveis Volkswagen fabricados no Brasil, e buscando entendimentos com a fábrica alemã diversificou os objetivos da transportadora instalando a primeira revenda VW da região, em 1960, aproveitando no início as instalações de manutenção dos caminhões para revisão dos automóveis, dando seguimento à construção de modernas instalações na rua Itajaí, ao lado do setor de transportes.

Logo após, em 1961 e 62, fundou também a Comat – Comercio de Automóveis Tubarão, e para gerencia-la trouxe seu sócio de São Paulo, Sr. Pedro Fuchter, e também a Dimasa – Distribuidora de Máquinas Agrícolas SA., no município de Araranguá. Essas revendas, além dos veículos da linha Volkswagen, também distribuíram por um longo período os tratores agrícolas da marca Fendt Farmer, principalmente em Araranguá e Criciúma.

Após instalação das revendas no Sul Catarinense o Sr. Martinho, a convite da fábrica VW, visitou na Alemanha todo o complexo fabril da empresa em sua sede na cidade de Wolfsburg, o que lhe deu uma nova dimensão do que seria o desenvolvimento automobilístico no Brasil.

Em 1963, o setor de transporte com todos os direitos operacionais, não a razão social que continuou na revenda VW, foi vendida para os Sr. Lila Casagrande e Clélio Crippa, que continuaram na atividade com a razão social de Expresso Criciumense SA, mudando a sede para a rua Henrique Lage, iniciando ali operações internacionais no cone sul. O setor de cargas fracionadas foi posteriormente (1981) vendida pela Expresso à Transportadora Manique, restando à Expresso Criciumense o transportes de cerâmica e o internacional.

Neste período de 1962 até 1966, o Sr. Martinho se dedicou a construção do prédio do hotel que era composto por dois blocos, um de seis andares para a Rua Cel. Pedro Benedet, e fazendo parte do mesmo prédio 4 andares para a Rua Marcos Rovaris. Na época foi o edifício com maior área construída da cidade, excluindo-se Hospital São José. Hoje o edifício leva o nome de Martinho Acácio Gomes.

Enquanto concluía o Ouro Preto Hotel, em 1965, fundou em sociedade paritária com empresários de Porto Alegre na Av. São Pedro próximo à Farrapos, a Guaíba Car, também revenda autorizada dos veículos VW.

Em começo de 1967 tinha como projeto instalar na cidade de Araranguá, um engenho de arroz, de grande porte, o que já estava em negociações quando em março de 1967 descobriu um câncer na bexiga em estado bastante avançado, do qual foi operado na Beneficência Portuguesa de Porto Alegre sem nenhum sucesso ou possibilidade de sobrevida ativa. Após continuada e intensiva hospitalização faleceu às 3h do dia 1º/10/1967 no Hospital São José, aos 45 anos, sem a possibilidade de formar a sucessão.

Martinho Acácio Gomes, foi cidadão extremamente gentil, fala mansa e calma, de personalidade positiva e memória invejável, o que atraia muitos amigos.  Ao falecer deixou esposa, filhos, genro e dois netos.