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Vitamina D em dose de ataque no manejo da Covid-19, sugere revista cientifica

Revista Nature, publica artigo defendendo uso maciço de vitamina D contra coronavírus
Por Aderbal Machado Em 18/05/2020 às 16:42

Artigo publicado dia 12/05/2020 na revista Nature, uma das revistas científicas mais respeitadas do mundo, defende o uso de doses de ataque de Vitamina D no manejo da COVID-19.1 Uma dose de ataque (bolus) de um medicamento é realizada quando um médico prescreve uma dose maior do que o normal no início de um tratamento visando um efeito mais rápido e eficiente dessa medicação. Segundo a visão dos autores do artigo, “a atual lacuna de conhecimento sobre a resposta imune humana ao Sars-COV-2 (novo coronavírus) é uma barreira crítica para o tratamento da doença; no entanto, potenciais imunomoduladores podem ajudar a aliviar a gravidade e melhorar os resultados do tratamento dessa nova doença.” Imunomoduladores são substâncias que ajudam a regular o sistema imune, nome dado ao sistema de defesa do organismo.

É importante explicar que devido a um processo inflamatório fora do controle que ocorre no decorrer da doença causada pelo coronavírus, conhecido como “tempestade de citocinas”, o sistema respiratório entra em falência e não consegue mais fornecer o oxigênio necessário para o funcionamento adequado do organismo. Uma das hipóteses que explicam esse fenômeno é que o vírus se liga à enzima conversora de angiotensina 2 (ECA2) para entrar nas células humanas e as destrói. Imagine que o processo inflamatório no corpo funciona como se fosse um incêndio. Um dos efeitos da ECA2 é de funcionar no organismo como um dos extintores de incêndio naturais, ajudando a reduzir incêndio em condições normais. Porém na vigência dessa infecção, a perda desses extintores faz o incêndio sair do controle e levando o indivíduo doente a complicações sistêmicas. Outra substância que funciona como um extintor de incêndio é a Vitamina D.
Os autores se referem à vitamina D como um hormônio secosteróide (substância produzida a partir de uma modificação do colesterol) que possui um amplo espectro de ações imunomoduladoras, anti-inflamatórias, antifibróticas (quando impede que o tecido doente seja substituído por uma espécie de tecido cicatricial) e antioxidantes (reduz a circulação de radicais livres, que funcionam como combustível para o incêndio). Além do mais, é um dos poucos fatores conhecidos até o momento que podem ser medidos, controlados e modificados nessa pandemia.
Revisando a literatura médica, os autores mostram que estudos anteriores observaram que a deficiência de vitamina D está associada a maior chance de contrair infecções respiratórias de origem viral e lesão pulmonar aguda induzida por infecções. Um estudo prévio realizado com a forma ativa da vitamina D, chamada de calcitriol, observou que a substância exibiu efeitos protetores contra lesão pulmonar aguda induzida por infecções, regulando a expressão de componentes do sistema renina-angiotensina (sistema relacionado ao controle da pressão arterial e inflamação), sendo um deles a ECA2, apoiando o papel da deficiência de vitamina D como fator importante envolvido no desenvolvimento da COVID-19. Para que as células do sistema respiratório e do sistema de defesa funcionem adequadamente é essencial níveis adequados de Vitamina D.
Os autores defendem que estudos anteriores com doses de ataque de Vitamina D para outras doenças já mostraram a segurança necessária para essa medida, mesmo em pacientes em estado crítico ou em ventilação mecânica. Portanto, a medida de se utilizar uma dose de ataque de Vitamina D respeita um dos príncipio básicos da medicina, conhecido como primum non nocere (primeiro, não prejudicar). O artigo sugere um plano de ação que envolvam pesquisas que possam identificar se a deficiência de Vitamina D está ou não associada à maior gravidade da COVID-19. Além disso, recomendam 2 doses de 50 mil UI de Vitamina D na primeira semana do tratamento para COVID-19, logo após o diagnóstico da doença ser confirmado. Eles consideram que doses entre 6 mil ui por dia e 15 mil ui ao dia podem ser necessárias para atingir níveis adequados de Vitamina D (doses consideradas seguras). Apontam ainda a necessidade de investigar se a suplementação com Vitamina D é capaz de modificar o desfecho da doença. Após a dose inicial de 100.000 UI, defendem o uso semanal de doses de 50 mil Ui até normalização dos níveis de 25-hidroxivitamina D. Os pacientes suplementados devem ser monitorados para garantir que seus níveis de vitamina D circulantes sejam normalizados e mantidos adequados durante todo período da pandemia de COVID-19.
Os autores da revisão concluem que levando em consideração os inúmeros benefícios relacionados à vitamina D, como a sua segurança, facilidade de administração, bem como os efeitos diretos da vitamina D na formação e atividade das células do sistema de defesa, além do efeito protetor pulmonar já conhecidos, deve-se considerar que a suplementação de vitamina D pode auxiliar no tratamento dessa doença com um possível significado clínico e econômico substancial. O uso empírico da vitamina D é uma decisão clínica (a cargo do médico que assiste o paciente) que pode ser justificada por conta da deficiência de Vitamina D ser muito comum na população e pelo risco da deficiência dessa vitamina estar associada ao comprometimento do sistema imune. É importante ressaltar que a melhora nos níveis circulantes de Vitamina D abre possibilidades para diminuir a progressão da doença e aumentar a chance de sobrevivência dos pacientes, concluem os autores. No entanto, estudos clínicos controlados são necessários para confirmar essa hipótese e superar os obstáculos no atual entendimento do papel da vitamina D como terapia adjuvante em pacientes com COVID-19.1
Um ensaio clínico randomizado (estudo em que um grupo recebe Vitamina D e o outro um placebo) com doses de ataque de Vitamina D está sendo realizado na França, por um grupo de pesquisas da Universidade de Angers. Esse estudo pode ser acompanhado no site Clinicaltrials.gov e deve ser publicado no mês de julho/2020.2

O intuito da página do Facebook “Falando em nutrientes” não é promover automedicação e sim trazer informações relevantes para as pessoas que se interessam pelo assunto. Caso necessário, procure o médico da sua confiança para verificar e corrigir os níveis de vitamina D, se esse for o seu caso.

Dr. Cláudio Urbano

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Falando em nutrientes

1- Ebadi, M., Montano-Loza, A.J. Perspective: improving vitamin D status in the management of COVID-19. Eur J Clin Nutr (2020). https://doi.org/10.1038/s41430-020-0661-0
https://www.nature.com/articles/s41430-020-0661-0

2- https://www.clinicaltrials.gov/ct2/show/NCT04344041…

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