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Criciúma de todas as raças, as misturas pacíficas da década de 1960

O must eram os passeios na praça aos domingos, pra muita conversa vis-à-vis
Criciúma de todas as raças, as misturas pacíficas da década de 1960
Por Aderbal Machado Em 21/02/2020 às 17:00

Esta crônica é apenas o registro de fatos vividos pelo autor, ao mesmo tempo na qualidade de personagem, protagonista e coadjuvante. Os da época vão lembrar e sentir saudades:

Década de 60, na primeira metade, até quase ao final. O footing das noites de domingo (e era sempre aos domingos, coisa nunca explicada) acontecia na Praça Etelvina Lins e redondezas. O aglomero tinha algo singular: a separação de castas. No Carlitos Bar, defronte à pracinha, os riquinhos e intelectuais e a juventude metida a independente. Circulando ao redor da praça e amontoada no jardim da Praça Nereu, a maior e ao lado, a “plebe” dos bairros. O local tinha isso – quase um sacrário, num tempo sem televisão, sem celulares e sem muitas atrações, exceto os cinemas (primeiro o Rovaris, depois mais um – o Milanez e finalmente outro, o Ópera, moderno e cheio de metodologias de exibir só filmes mais famosos). O detalhe mais marcante, entretanto, era a separação racial – sem nada de agressividade nem de competição, muito natural: a população negra permanecia aglomerada sob a marquise do Clube Mampituba, na confluência da parte fronteira da Praça Etelvina Lins, a Rua Seis de Janeiro e a Conselheiro João Zanette.

Tinha mais: as “fatiotas”. Todos muito bem vestidos, desfilando ternos bem cortados e roupas “chiques”. E namorando. A elegância tinha uma conotação quase obrigatória. Ninguém mal vestido, ainda que com roupas modestas.

Tudo fluía em paz, cada um na sua, sem impeditivos se uns fossem pra cá e outros pra lá. Existia um divisor natural e automático. Toda noite de domingo era assim e jamais alguém reclamou ou questionou. Era porque era e pronto.