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Memória

Criciúma

Atrás dos sorrisos, a lembrança de uma tragédia histórica

Há 39 anos, Raul Oliveira explodia um prédio e matava 13 pessoas

29
MAR
2017
| 17h45
17h45
Denis Luciano
Jornalista | Portal Engeplus
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Divulgação

A foto feliz ao lado é da véspera do Natal de 2016. Nela, Roselei Chagas vibra com a visita do pai, Brasil, mais a sua segunda esposa. E pensar que por trás destes sorrisos estão as memórias do maior crime da história de Criciúma.

De camisola branca e toda empoeirada, a menina Roselei, de 11 anos, estava assustada. Eram 2h45min da madrugada de quarta-feira, 29 de março de 1978. Ela dormia sossegada quando uma explosão colocou tudo abaixo. “Não uma explosão seca, mas sim lenta, como em rápida cadeia”, definiu Albino Castelan, vizinho do prédio que acabava de ser detonado na rua Henrique Lage, Centro de Criciúma, em depoimento na época ao jornal Correio do Sudeste.

No dia dos 39 anos do chamado “crime do século” na cidade, Roselei, hoje com 50 anos, lembra de todos os detalhes. “Não gosto de recordar muito”, confidencia, em natural rejeição ao triste episódio que matou 13 pessoas. Entre os mortos, Elvira Maria Chagas, 44 anos, mãe de Roselei, e os irmãos Carlos César Chagas, 22 anos, e Rosângela da Silva Chagas, 19 anos.

Brasil escapou
da morte

Por uma coincidência, Roselei não perdeu seu pai na tragédia. O conhecido Brasil Chagas, então com 47 anos, estava em Blumenau. “Meu pai não conseguir vir e, assim, escapou de morrer na explosão”, relembrou Roselei. Chagas viria na noite que antecedeu o crime, com a intenção de dormir no apartamento, com a família. Porém, sofreu um acidente de trânsito que o fez só seguir viagem no dia seguinte. Além de Roselei, sobreviveram os irmãos Ademir e Jair Chagas, falecidos anos depois.

“Foram duas explosões. Na primeira, caiu tudo”, comentou ela, sem fazer muita força para as memórias virem à tona. “Fiquei só com o braço para fora de umas pedras e lajes que caíram, aí consegui me livrar”, disse. “Quando eu apareci entre as pedras, viva e de camisola, me chamaram de anjo”, recordou. “Minha mãe sofreu traumatismo craniano, meu irmão quebrou todos os ossos e minha irmã teve que ser identificada pela arcada dentária. Foi tudo muito violento”, lamentou. 

Como foi
o crime

O ocorrido ganhou ampla repercussão na mídia nacional. Não demorou para que os responsáveis fossem identificados. O proprietário do edifício, Raul de Oliveira, passou por seguradoras semanas antes de efetivar o crime formalizando apólices. Assim, colocou tudo o que tinha no prédio em seguro. Nele, havia ainda uma malharia e uma loja de camisas, além dos apartamentos alugados às famílias das vítimas. 

Em uma entrevista ao Correio do Sudeste e à Rádio Eldorado, dois dias depois da explosão, um participante contou detalhes do crime. Gilmar Francisco Aguiar, filho do incendiário Olívio Aguiar, comparsa de Raul no atentando, confessou, pouco antes de morrer, detalhes do pacto. Raul e Olívio conheceram-se no presídio Santa Augusta, onde cumpriram penas tempos antes de tramar a explosão. Feitos os seguros, uniram-se e, na noite do crime, espalharam dezenas de litros de gasolina e mais de doze botijões de gás no térreo do edifício. Olívio e os dois filhos envolvidos também morreram. Raul, o único dos autores do crime do século que sobreviveu, foi condenado a 251 anos de prisão. Cumpriu apenas 17. Morreu em 2014.

As saudades
de Roselei

No dia em que recorda os 39 anos da tragédia, Roselei ainda vive outra dor. Brasil Chagas, o pai que foi destaque no futebol nos anos 60 e depois ganhou a vida como representante comercial, morreu na última sexta-feira, aos 86 anos, de causas naturais em Blumenau. “É um luto duplo, estou triste”, confessou. 

Seu Brasil driblou os adversários do Metropol com maestria, driblou a morte em 78 mas não escapou dela na sala de casa, no dia 24 passado, enquanto conversava com um dos filhos do segundo casamento e suspirou pela última vez. Da poeira das memórias da maior tragédia da história criciumense, vidas que se cruzam e não deixam esquecer um crime a ser lembrado para sempre.

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