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Longe de Casa

Missão

Os acordes que levaram até Moçambique

23
MAI
2017
| 12h45
12h45
Denis Luciano
Jornalista | Portal Engeplus
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De um momento difícil, a motivação para a guinada que a vida pede. Desanimado pelo fim de um relacionamento, em busca de novos horizontes, o músico Márcio Barros, 39 anos, nem imaginava que estava diante de um desafio que o destino lhe reservava.

“Fazendo pesquisas, descobri um programa que a Igreja Adventista mantém, me inscrevi e dali um tempo tive a chance de viver uma experiência ímpar, que mudou minha vida”. Assim, Márcio resume a aventura de um ano que lhe fez ser missionário em Moçambique desde maio de 2016. De lá, retornou há duas semanas.

“É um país pobre, que sofre conseqüências de uma guerra civil sangrenta, onde falta estrutura, falta dinheiro, as pessoas passam fome, em muitos lugares não dispõe de água encanada, esgoto nem energia elétrica”, relata. Ainda assim, há alegria de viver, e daí veio a colheita de um dos grandes exemplos trazidos por Márcio. “Eles dançam sem ter música”, resume, apropriando-se da sua arte.

Música no meio do mato

Formado em Música, Márcio foi relacionado no programa para ensinar o manuseio de instrumentos para crianças e adolescentes de uma tribo do interior de Moçambique, castigado país de colonização portuguesa, independente desde os anos 70, no sudeste da África, na costa do Oceano Índico. Mas a primeira impressão não foi das mais animadoras.

“Fui para um distrito chamado Lugela. De lá, me levaram de carro até a aldeia onde eu deveria ficar chamada Mungulune. São 85 quilômetros de clareiras abertas na mata, picadas, não há estrada. É uma pequena aldeia no meio do mato. Fiquei preocupado no início”, reconhece. E a comunidade precisou ser preparada para a recepção do missionário. “Sou branco e de olhos claros. Sou o que eles chamam de muzungo. As crianças correm de brancos, tem medo, mas com o tempo e quando souberam que eu era músico ficou tudo bem, e me tornei bastante conhecido lá”, conta. A fama se espalhou pelas aldeias vizinhas e ele passou a ser convidado para consertos e apresentações musicais. “Sempre lotadas”, enfatiza.

Logo, Márcio montou um conservatório em uma das humildes instalações do vilarejo. “Eram jovens que nunca haviam visto uma guitarra, um violão. O projeto funcionou tão bem, eles gostaram tanto que hoje há duas ou três bandas que seguem tocando por lá”, revela o músico, com uma alegria incontida nos olhos. 

Só não falta alegria

No contato com a juventude de Mungulune, Márcio descobriu uma gente faminta e abatida pelas intempéries. “Falta comida. E eles sofrem muito com a seca mas quando a chuva vem, de vez em quando, destrói tudo, as lavouras, as casas, devasta tudo”, comenta. Sobre as moradias, são as mais humildes possíveis. “Todas são de pau e palha. O prédio de alvenaria que existe ali é a nossa igreja e as casas vizinhas que servem como apoio”, destaca o missionário.

A despeito das dificuldades, além de ser um povo que dança sem música, os moçambicanos são de uma receptividade encantadora. “São muito simpáticos. O bom dia dele não é protocolar, como muitas vezes é o nosso. E o abraço deles é caloroso. Eles perguntam mesmo como estamos com interesse”, observa Márcio, relembrando as boas amizades que por lá fez. Uma delas, o jovem Júlio Serafim, um nativo que revelou-se cantor. “Ele se espelhava muito no meu trabalho, e era alguém em busca de uma oportunidade na música”, recorda.

Malária é como gripe

Se a estrutura urbana é precária – como em Maputo, na capital –, ou inexistente, como em Mungulune ou no resto do interior do país, a saúde e educação são mais problemáticas ainda. “As crianças vivem com malária”, conta Márcio, referindo a mais comum doença tropical para os africanos. “A malária para eles está como a gripe para nós”, reforça. E o músico lembra com saudades de George, um dos amigos moçambicanos que fez e acabou vencido pela malária. “Era um missionário de lá mesmo, morreu”, lamenta. Quando contagiado pela primeira vez, Márcio foi internado em um hospital. “Chamam de hospital, mas é algo muito ruim o atendimento, é muita dificuldade”, observa. A doença traz fortes dores nas articulações, de cabeça e febre de até 42 graus. “E ficamos desacordados. Adoeci quatro vezes em um ano”, enfatiza.

Na educação, a força de vontade faz superar as limitações. As crianças são simpáticas e dóceis, e sedentas de conhecimento. Vassouras improvisadas são feitas para que elas aprendam o valor do zelo pela limpeza, e varrem o chão e o que podem com aqueles arbustos transformados em item de asseio.

Não se surpreenda, ao andar por Moçambique de carro, que de repente você esteja cercado de crianças batendo no vidro, com olhares alegres e pedintes, oferecendo maçaroca. “Maçaroca, maçaroca boy”, repetem os pequenos. “É milho. A criançada vende milho por toda a parte nas ruas. É o ganha pão deles”, sublinha Márcio. 

Com telefone, sem energia

Mas e como abrir mão da vida conectada de hoje em um ambiente sem estrutura e, portanto, sem tecnologia? “Chineses descobriram aquele mercado e instalaram várias torres de telefonia, então o celular conseguimos usar. Levei o meu”, detalha, lembrando porém que a energia é de fato escassa. “Lá se depende de um gerador que é ligado poucas horas por dia. Na maior parte do tempo, não há luz”, refere. Água? Não poucas vezes, Márcio atravessou a aldeia com um grande balde cheio na cabeça, colhido de alguma fonte próxima. “A natureza dá”, afirma.

Embora a paz aparente, há uma ameaça sempre à espreita em Moçambique. “É a guerra. Ela é silenciosa, mas ainda existe”, analisa o músico. Por muitos anos, os dois principais partidos políticos do país, Frelimo e Renamo, lutaram pelo poder em uma guerra civil. “Ela espalhou ódio e armas pelo país. Às vezes acontece algum atentado”, diz.

De tudo isso, uma conclusão. “Quero voltar um dia”, garante Márcio. Enquanto isso, ele rememora e compartilha as lembranças deste ano especial com os amigos e vizinhos de Içara, onde reside. Natural de Curitiba, veio há muito tempo para o sul de Santa Catarina, e aqui semeia sonhos de próximas aventuras pelo mundo. “Se Deus lhe der um chamado, obedeça. Uma missão não se recusa”, conclui. Até a próxima então, Márcio.

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