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Livro narra a trajetória da imigração alemã em Criciúma e Araranguá

Assunto é pouco relatado na história das cidades
Por Amanda Garcia Ludwig Em 15/01/2019 às 15:41

Um livro que conta a história da imigração alemã em Criciúma e Araranguá. Esta é a proposta de Aqui Descansam em Deus, escrito por Arse Griebeler e Nei Manique. Uma história pouco relatada na região, mas que merece seu registro.

Arse e Nei inovam no formato do livro: impresso, mas que traz aos ouvidos de quem lê a voz real dos descendentes de  imigrantes entrevistados em 1995. Nenhuma das pessoas citadas no livro está viva. Mas é possível ouvir suas vozes – literalmente! As entrevistas gravadas há 23 anos foram disponibilizadas – através de QR Codes – e quem estiver as lendo, poderá também ouvir a voz de quem está falando.

O Portal Engeplus conversou com os autores sobre a história de “Aqui Descansam em Deus”. Confira a entrevista completa:

 

Portal Engeplus - De onde surgiu a ideia de lançar este livro?

Nei Manique - É preciso lembrar a origem da pesquisa, que foi feita em 1995. Arse e eu nos conhecemos fazendo um curso de Estudos Sociais, e ao final fizemos o trabalho de conclusão de curso. Ela tinha muita vontade de trabalhar a etnia alemã, por ser alemã, e a ideia me agradava também.

Em 1990 eu descobri que a história da imigração alemã aqui em Criciúma estava muito mal contada. Na época, eu ajudei a Associação de Tradição Arte e Cultura Alemã de Criciúma a fazer um resgate de algumas famílias alemãs que vieram para cá como parte do processo de colonização. Então quando se fala na história de Criciúma, tem-se a história dos italianos, dos poloneses, dos afros e espanhóis que estão ligados à história do carvão, mas não se menciona muito a história alemã.

Os livros que mencionam essas alemãs, dão uma página ou duas dessa história, pois eles ficaram por pouco tempo no núcleo onde se estabeleceram, que é a Linha Anta atualmente.

 

Portal Engeplus - E o que vocês descobriram nesta comunidade?

Nei Manique - É uma história muito interessante. Essa comunidade nasceu junto com o assentamento dos imigrantes alemães. Eles foram embora, e a comunidade foi se reciclando. Não há mais nem sombra dos alemães hoje. E a questão que nunca foi contada, é que ninguém foi atrás deles. Em 1995, quando começamos a nossa pesquisa em conjunto, descobrimos uma série de famílias espalhadas pelo Sul. E foi aí que a pesquisa tornou-se uma riqueza.

Entrevistamos muitos imigrantes e familiares de alemães, até chegarmos no cemitério alemão Barra do Jundiá, em Araranguá. Quando pisamos lá, em 1995, nos sentimos em uma biblioteca. Em cada túmulo, havia uma história a ser contada. Eu passei dias no cartório pesquisando nos livros sobre essas famílias. Quem casou com quem, quem nasceu, quem morreu, etc. Já a Arse conversava com as famílias, enquanto coletávamos essas histórias. No ano passado, em 2018, decidimos dar vida a este livro.

Portal Engeplus - Como foi conversar com essas famílias, Arse?

Arse Griebeler - Fui criada em família alemã, onde se falava o dialeto alemão. Durante as entrevistas, percebíamos que as pessoas ficavam travadas na frente do gravador. Eu buscava conversar em alemão com elas, pois as pessoas – principalmente as mulheres – acabavam se soltando mais conversando na língua mãe deles.

Não tinha como não me envolver com essas famílias. Então, eles conversavam muito comigo. E eu me envolvia com o lado pessoal deles, mas isso fugia do foco do livro, apesar de emocionar muito. O objetivo era contar a história deles, e não a vida pessoal de cada um. O Nei me chamava de volta ao foco.

Quando chegamos ao cemitério, que na época não era tão bem preservado quanto hoje, percebemos toda a história ali presente. Datas, fotos, depoimentos. E depois você conversa com as famílias, e tudo é muito parecido com o que imaginávamos. Então o cemitério foi um ponto de partida para o livro.

 

Portal Engeplus - Em que momento uma pesquisa virou um livro?

Nei Manique – O meu TCC foi uma radiografia cartorial. Tentei fazer uma radiografia de Criciúma entre 1898 e 1908. E por essa pesquisa percebemos que Criciúma era uma cidade trilíngue. Falava-se italiano, alemão e polonês. O português era língua oficial, para documentos, mas não era a língua falava. E o TCC da Arse era de campo, indo atrás destas pessoas. A sorte dela é que haviam filhos vivos destes imigrantes.

Arse Griebeler – E o nosso orientador, professor Nivaldo Goularte, nos fez prometer que faríamos um livro, unindo as duas pesquisas. Pois isso era um documento que precisava ser registrado, uma história que nunca havia sido contada. E com a pesquisa, o nosso documento tinha uma “voz”.

 

Portal Engeplus - Pois é. É possível notar quem existem Códigos QR espalhados pelas páginas do livro...

Nei Manique – Neste momento, da entrevista, você está gravando nossa entrevista para depois ter certeza que não vai confundir uma palavra escrevendo essa reportagem. Isso é um hábito jornalístico. Quando íamos às visitas a essas famílias, eu levava o gravador e registrava todas as entrevistas.

Então ficou tudo guardado durante 23 anos. No inverno passado, quando pensamos no livro, eu disse: ok. Mas esse livro não será como qualquer outro. Vamos agregar esses códigos às páginas, e quem baixar o aplicativo, poderá ouvir as vozes dessas pessoas. E é isso. Cada um dos personagens deste livro teve sua voz preservada.

Arse Griebeler – Uma das vozes mais interessantes é uma alemã que cantou comigo. Ela estava sem graça, e aí pedi para o Nei sair da sala. Quando estávamos sozinhas, eu pedi que ela cantasse comigo, e ela cantou. Isso está registrado no livro.

 

Portal Engeplus - E o nome? Veio de onde?

Arse Griebeler – O nome do livro surgiu agora, no final do processo. Não tínhamos pensado neste título. Em 2018 voltamos ao cemitério para ver como estavam as coisas. O Nei parou para ver as questões administrativas, e eu segui direto a um túmulo de um dos nossos entrevistados. Parecia que estava me chamando para ele.

E usava-se muito nos túmulos a frase “Aqui descansa em Deus”, mas em alemão: Hier ruht in Gott. Passamos uma tarde lá, tirando fotos dos túmulos, e percebemos que essa frase deveria ser o título do nosso livro.

Venda

A primeira tiragem desta edição já está quase esgotada. Restam, ainda, exemplares sendo vendidos na Livraria Fátima, em Criciúma e Araranguá.

Edição: Editora Carbo, Florianópolis.