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Todos velhos, inclusive você!

Todos velhos, inclusive você!
Foto: Eye for Ebony
Por Lúcia Búrigo Em 02/07/2020 às 02:49

Um facho de luz se acendeu sobre o idoso, nestes tempos de pandemia e não foi para celebrá-lo. Assustados, com mais tempo em casa, nós todos passamos a olhar mais de pertinho para nossos espelhos. Observa daqui e dali e muitos, que se achavam totalmente xóvens, descobriram que embora mantenham sua alma saltitante, suas bocas estão literalmente começando a cair. E não há nada de mal nisso, bebê. É só um sinal de que o tempo não pára e esculpe suas marcas com a gravidade. Mais do que uma lei, ela é um estado de alerta que define que é urgente prestar atenção que já há lugares  onde a população de avós é maior do que a de netos. E, sim, estamos falando de um segmento crescente, no qual todos os viventes se incluirão. Toda a diversidade de seres humanos será idosa um dia. E a pergunta que não quer calar é: você, como futuro velho,  está fazendo algo para tornar essa experiência melhor no planeta? Porque, acredite, se tudo correr bem, você vai chegar lá.

“A coisa mais moderna que existe na vida é envelhecer”, canta Arnaldo Antunes. A expressão maravilhosa e “moderninha” ageless é o que define velhos com tesão pela vida. Eles são os sem idade que não perdem a paixão por realizar. Nesse grupo estão um zilhão de pessoas incríveis como Fernandona Montenegro, Jane Fonda, Caetano, Gil, que celebrou seus 78 anos há poucos dias numa live cuja renda se destinava aos artistas inativos na pandemia. Já viu algo mais contemporâneo?  Emociona lembrar a quantidade de celebridades que passaram pelo seu telão, ratificando sua importância para a cena da cultura mundial. Até Stevie Wonder foi levar um happy birthday ao amigo. Gil foi abraçado virtualmente também por uma galera de famosos que já, já, serão os futuros velhos desta nação...é só piscar. Você deve estar pensando aí que essa turminha citada não é parâmetro. É bom lembrar que há uma profunda mudança de comportamento ocorrendo e o velho de hoje não quer mais ficar na invisibilidade e não se parece nem de longe com seus antepassados. A potente @helenaschargel, com seus mais de 20 mil seguidores no Insta, que o diga e #ficadica: confiram o TEDx dessa garota de apenas 80.

“Ser eternamente jovem nada mais demodê” segue cantando Antunes em sua indefectível “Envelhecer.” A filósofa Anne Lambert declara que “velhice confessada é menos velhice”. Essa afirmação deveria ser um mantra para aceitar a inevitável transformação do corpo. Mas, não é bem assim. Ganhamos 20 anos de vida nas últimas 6 décadas e o desejo de valorizar a aparência virou praticamente uma ditadura do botox, que coloca o Brasil no topo do ranking do consumo estético, sedimentado no argumento de que ter um lifestyle jovem é o que conta para preservar espaços. Noutros continentes não é assim que a banda toca. A questão fundamental é garantir qualidade de vida, sobretudo, oportunidade para a inclusão e para poder realizar projetos, o que é fundamental para manutenção do seu bem estar.

O que surpreende é que apesar de falarmos de um contingente significativo de pessoas, com uma representatividade econômica importante - quantos idosos no Brasil sustentam lares com a sua aposentadoria – seguem estigmatizados, sufocados e passam a viver a chamada velhofobia, expressão usada pela antropóloga Miriam Goldenberg, que há mais de 20 pesquisa o assunto compartilhando seus estudos em livros, lives, TEDx, entrevistas e Cafés Filosóficos que valem ser acompanhados. Ela detectou que a pandemia intensificou o fenômeno e com ele fez emergir a desvalorização do idoso  pela nossa sociedade, que proporciona a ele uma “morte simbólica”, uma vez que seu valor é quase nulo socialmente e dentro de casa. A vulnerabilidade se ampliou ainda mais com a pandemia e vem reforçada por discursos de ódio e memes que os colocam como crianças teimosas que não querem obedecer. E isso só faz aumentar o preconceito, tornando a jornada complexa, quando o que deveria haver é mais compaixão. Resta saber, se todos serão velhos um dia, por que não começamos a mudar o rumo desta prosa já?