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O negócio é causar!

O negócio é causar!
Por Lúcia Búrigo Em 15/01/2020 às 08:50

Polêmica rende. Dá mesmo o que falar, não é não? Uns ousados,  outros abusados, seguem pela vida, mandando beijinhos no ombro pras inimigas, e gerando buzz porque parece mesmo que o negócio é causar na busca pela a audiência, coração, mente e bolso do consumidor. Algumas organizações na tentativa de descobrir maneiras de se destacar em um mercado de alta competitividade, captar a atenção e ganhar a oportunidade de serem percebidas, tem feito muita  loucura, loucura, loucura...Nesse mundinho onde a escassez de tempo deixa a todos muito aflitos e propensos a passar batidos por marcas mais discretas, sair do convencional a qualquer preço parece ter virado um comando e tem gente que faz de forma incrível, outros, nem tanto. Afinal, muitos correm atrás de algo tremendamente inusitado, daquela ideia arrasadora que vai tirar o fôlego da concorrência de tanta perplexidade e, talvez, de inveja. Marcas? Elas que lutem, ora.

Mas, há limite na busca pelos segundos de captação de atenção, fama e conversão de clientes? Nesse cenário de incertezas, absolutamente volátil, fluido, onde tudo se dilui rapidamente, garantindo efemeridade para as atitudes, tudo parece ter virado oportunidade. A imprevisibilidade, a complexidade e a ambiguidade complementam a cena. Faz tempo. Seguimos a moda de Darwin: nos adaptando. Premissas reconhecidas e aclamadas parecem não fazer efeito e as marcas estão aí, imersas neste oceano de possibilidades, entre as quais precisam achar seu caminho.  A contradição é que mesmo com o chamado à ação, há também quem no meio do vuco-vuco prefira permanecer na zona de conforto, por  temor à crítica, ao julgamento e mesmo a ridicularização, inibindo iniciativas que poderiam oportunizar visibilidade, notoriedade e geração de negócios. Difícil encruzilhada?

Talvez coubesse aqui pensar em mudar o rumo da prosa e perguntar: afinal, o que o cliente espera das organizações? Como ele realmente gostaria que fosse a sua relação com uma empresa? Como deseja ser tratado por aqueles a quem entrega o fruto do seu trabalho? Ou melhor, pára tudinho! Quem sabe antes mesmo de pensar nestas questões, o ideal fosse realizar um grande estudo antropológico que pudesse dar pistas mais claras sobre o que para o ser humano é relevante, tem valor e significado. Quais as questões que merecem a sua atenção?  Alguém conhece algo a esse respeito, produção? Sim, porque de fato é de se estranhar que indelicadeza, falta de educação e posicionamento duvidoso possam ser apreciados, viralizando como se fossem vantagem competitiva, sendo aplaudido e reverenciado por muitos que consideram atitudes hostis uma maneira inteligente de marcar presença no mercado. É de surpreender como o ser humano aprecia e se diverte com a descortesia. A neurociência talvez possa explicar...O que surpreende é que se incluem no rol de admiradores de exemplos contraditórios, pessoas que estão a frente de negócios que prestigiam esses comportamentos.

Há marcas que se esforçam por um lugar ao sol, implementando alternativas criativas e narrativas diferenciadas que não ganham o mesmo espaço e repercussão que episódios de gosto equivocado  acabam tendo. Ressurge a questão: o realmente é valorizado nas relações comerciais? Sim, porque nós, como consumidores, que todos somos, temos a liberdade de escolha. Falamos tanto em mau atendimento, mas endossamos quem nos deprecia ou subestima nossa capacidade de discernimento, achando graça de maus tratos.  O que preocupa é pensar que existe uma caminhada em direção a naturalização do destrato e que no meio disso tudo a construção de reputação de marca seja banalizada.  O que realmente conta nesse momento de desconstrução de conceito e reaprendizagem? Chocar de modo negativo repercute e, insanamente, vende. Somos a contramão de nós mesmos, quando aplaudimos a hostilidade, cujo efeito abrandamos quando a definimos como zoeira, dando voz ao que nem de longe deveria ser apreciado.