InternetData CenterAssinante

No mundo ideal ou no real?

No mundo ideal ou no real?
Foto: Maria Fernanda Pissioli
Por Lúcia Búrigo Em 06/08/2020 às 11:38

 

Daqui a alguns dias famílias irão se encontrar virtualmente. Outras, vão burlar o protocolo da Covid-19, a despeito do que é correto fazer. “Se é pela família vale o risco”, dirão alguns. Até porque está no  imaginário de muita gente, que naquele ambiente seguro, absolutamente nada de mal poderá acontecer. Uma imprudência. Haverá risada, choro, reencontros, histórias, comida deliciosamente temperada com afeto, música, e, pasmem, muitos abraços quentes e acolhedores em slow motion, porque alguns não captaram que a imunidade precisa ser preservada. Por instantes as pessoas irão esquecer da ameaça, porque em família, teoricamente, tudo é perfeito. No mundo ideal, este será um domingo ensolarado e inesquecível. No real, não é assim que caminha a humanidade. No meio da pandemia, uma reviravolta comportamental evidencia o que há muito já estava anunciado. O espírito do tempo assusta aos distraídos, apontando sua mira para a necessidade de atitudes cada dia mais colaborativas. E você, tem ouvido o  chamado para repensar as suas atitudes e ampliar a sua consciência?

 

“Black lives matter”, estava escrito no asfalto em letras garrafais e a imagem replicou em todas as mídias. Depois da morte de um homem preto, nos EUA,  se amplificou a atenção e o interesse para uma pauta fundamental, a questão racial. Tem gente que acha que não existe racismo. A despeito dos desavisados, o movimento, não é de hoje, ganha corpo e equidade passa a ter mais significado. Palavras como denegrir passam a ser banidas do vocabulário. Difícil imaginar a sensação de ser barrado no baile, na escola, no emprego e até nos relacionamentos afetivos por conta da cor da pele. Tento entender o que deve passar na cabeça do garoto que vê pessoas trocarem de calçada, pela perspectiva de um assalto por conta de sua cor. Ou da proprietária negra de uma cobertura que foi direcionada ao elevador de serviço, porque alguém supôs que ali é o seu espaço...Você já cometeu, em algum momento nesta vida, uma atitude racista que considera inconfessável? É hora de analisar a branquitude. É bom que se diga, preconceito existe sim e mata.

 

Os obesos, por sua vez,  aparecem como um dos drivers do varejo. Apesar de seu tamanho não eram vistos e agora são mapeados para negócios prósperos, que vão desde a criação de um marketplace com tudo, até lojas luxuosas, dirigidas exclusivamente para gordos e têm marcas que fazem bonito. São próprias para obesos que querem arrasar, vestindo algo além do que a roupicha sem graça que teima em ser oferecida para seu excesso de gostosura, que é motivo de discursos de ódio. Apesar de vivermos num planeta onde a obesidade é considerada pandêmica, poucos são os que efetivamente se importam e percebem que gordo veste, calça, viaja, faz cursos e que para ele é necessária ergonomia e modelagem adequada para sua conveniência. Enquanto isso fazedores de “humor negro”, olha aí a necessidade da linguagem neutra, andam  destilando veneno no bullying virtual machucando pessoass, polarizando agressões e incitando violência. Influencers de todo país se mobilizaram e a web se dividiu, ostentado a gordofobia, num episódio bem recente. E só para lembrar, preconceito existe sim e mata.

 

Nestes tempos virais as manchetes denunciam que a violência doméstica aumenta, por outro lado, as separações também. Mulheres estão ficando mais atentas e se amparam umas nas outras para inibir toda sorte de agressões. A palavra aqui é sororidade. Empoderadas, assumem há tempos, a maioria dos bancos universitários na graduação e na pós, fazendo do conhecimento um trunfo no combate a cena de submissão que ainda é negligenciada por quem não enxerga discriminação nas atitudes masculinas hostis. Muitas marcas entendem a mensagem e se aliam a causa dessa mulher que emerge e se mostra tão dona de si. E pensar que logo ali, no século passado nem acesso ao voto havia. Misoginia, abuso sexual e assédio agora se discute abertamente...E é principalmente aqui que é necessário ratificar que preconceito existe sim e mata.

 

Alguém disse que o mundo está ficando chato. Que nada, está ficando como deveria. Mais consciência se reflete em novas atitudes. Pretos, mulheres, gordos, velhos e tantos outros grupos ganham voz e há uma perspectiva de que o planeta se torne mais justo porque mudanças estão ocorrendo de modo mais veloz, mais visível e muitas formas de preconceito vão dando lugar ao respeito pelas individualidades e escolhas de cada um.  Negligenciar o que estamos vivendo, em nome do prazer pessoal vai ser substituído por cooperação, em algum tempo da nossa história. E pais que estarão com suas famílias reunidas num domingo de sol, num futuro cada dia mais próximo, vão lembrar de 2020 e terão entendido que colaboração não é só uma palavra da moda, mas o manifesto para dias melhores. Feliz dia dos pais.

 

Lúcia Búrigo 

Sócia da Bossa Experiências Criativas - Profissional de Marketing & Comunicação - Produtora e apresentadora do Varejo em Pauta -  FCDL/SC - Professora da Graduação e Pós - Coordenadora de Marketing da CDL Criciúma.