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Nossa Senhora da Salete: a união de uma comunidade que faz do bairro um bom lugar para se viver

Luta e trabalho escreveram a história do local onde hoje vivem 4 mil pessoas
Nossa Senhora da Salete: a união de uma comunidade que faz do bairro um bom lugar para se viver
Foto: Lucas Renan Domingos/Portal Engeplus
Por Lucas Renan Domingos Em 31/01/2021 às 16:30

No dia 20 de janeiro, o Portal Engeplus iniciou uma série de reportagens para contar as histórias, as particularidades e apresentar as necessidades dos bairros de Criciúma. A primeira visita foi ao bairro Ana Maria. Agora chegou a vez do bairro Nossa Senhora da Salete, localizado na região da Próspera e onde moram aproximadamente 4 mil pessoas.

A proximidade com o bairro Próspera, inclusive, explica o nome da comunidade. Engana-se quem pensa que Nossa Senhora da Salete é a padroeira da igreja católica do bairro. O templo religioso, na verdade, tem como padroeira Nossa Senhora Aparecida. “A Igreja Nossa Senhora da Salete (paróquia do bairro Próspera) comprou terras aqui no bairro. Depois acabou tornando o espaço em loteamento e, em homenagem a igreja, ficou Nossa Senhora da Salete”, conta a professora e ex-diretora Valdina Alexandre, que trabalhou na escola do bairro, a José Cesário da Silva, durante 32 anos. A escolha da padroeira veio depois, em um plebiscito, em votação dos moradores.



Mas nem sempre a comunidade teve este nome. As memórias remetem à mineração como a primeira batizar o bairro. “Esta área aqui havia bocas de minas. Tinha o poço sete, oito, nove. Aqui onde era é o Nossa Senhora da Salete, ficava o poço sete. Quando veio as linhas de ônibus, precisavam colocar no letreiro algo para identificar o bairro e colocaram sete. Até hoje algumas pessoas conhecem assim a nossa região”, recorda a presidente do Sociedade Amigos do Bairro Nossa Senhora da Salete (SABNSS), Andréia Zomer.

A união pelo desenvolvimento

Hoje, o bairro Nossa Senhora da Salete está bem diferente de quando os primeiros moradores por lá começaram a chegar. A história aponta que ainda nos anos de 1800 chegaram na localidade as famílias Casagrande, Scott, Neto, Milioli, Pizzett, Comim e outras, todas descendentes de italianos. Mais tarde, do Rio Grande do Sul, veio a família Cesário, liderada por José Cesário da Silva (foto), que mudou a realidade do bairro. Construíram aqui em Criciúma um engenho, o pontapé para o desenvolvimento.

Logo em seguida, vieram a mineração, as olarias, a indústria e o comércio, responsáveis pela geração de empregos. Assim foram crescendo famílias. Desembarcaram na comunidade os familiares de Dionízio Milioli, Paulo Valvassori, José Cipriano. Entre eles também Higino Manoel Alves, pai de Neide Albertina Alves, de 58 anos, e que desde os sete anos mora no bairro Nossa Senhora da Salete. “Meu pai, sempre quis um lugar mais tranquilo para criar os filhos. A gente morava perto da Cecrisa. E ele tirou a casa de lá e trouxe pra cá. Quando cheguei aqui, boa parte do bairro era plantação de eucaliptos. Eu mesmo não queria morar aqui. Agora não quero mais sair do meu bairro”, brinca.

O mesmo orgulho tem a filha de Neide, Larissa Beltrame, hoje tesoureira da SABNSS. “Toda a comunidade é bastante unida. Hoje não só as pessoas mais antigas do bairro são ativas. Os jovens formam grande parte da nossa associação, todos pensando no bem do bairro”, enaltece Larissa.

E não há outra palavra para definir a união dos moradores do bairro do que comunidade. “Eu tenho o cargo hoje de presidente do SABNSS, mas eu sempre falo que somos mais de 4 mil presidentes, porque temos um grupo de moradores colaborativos. Todos contribuem e pensam no bairro como um todo”, destaca Andréia.

Foi com o esforço de vários moradores que o bairro conquistou uma igreja, a revitalizaçã do centro comunitário, a instalação de câmeras de segurança compartilhadas. “Hoje a gente não tem muitas necessidades. Nosso bairro está muito bom. Estamos apenas com um projeto em andamento para construir uma praça de lazer”, acrescenta a presidente.


Dá esquerda para a direita, Larissa, Andreia e Neide, representantes da SABNSS 


Na figura de dona Kidinha o exemplo de um povo trabalhador

No bairro Nossa Senhora da Salete estão instaladas empresas, indústrias e, principalmente, estabelecimentos de comerciantes. O comércio, inclusive, é a principal atividade econômica da comunidade e que representa o perfil trabalhador e empreendedor do povo do bairro. São exemplos de pessoas como Edeclides Felizardo, mais conhecida como Kidinha, empreendedora do ramo de distribuição de balas e doces e de serviços funerários.

Kidinha é proprietária da Distribuidora Ebenézer e da Funerária Príncipe da Paz. Estudou até somente até quarta série, o que não lhe impediu de ser um exemplo de empreendedorismo. Passou dificuldades, não nega. Mas nunca desistiu de viver da sua paixão, trabalhar com comércio. Hoje a vida da empresária é mais confortável. Vive em uma grande residência. Da força do trabalho construiu seu patrimônio e fala com orgulho dos desafios enfrentados para conseguir criar os quatro filhos (Raquel, Samuel, Schirlei e Sheyla), fruto do relacionamento com Antônio Felizardo.

“Eu não sou rica. Eu sou trabalhadora. Sempre falei para meus filhos que quando se tem uma empresa você pode ser pobre, mas precisa que o seu negócio seja rico, com as contas em dia e recebendo investimentos”, fala com propriedade a empreendedora. A vida de Kidinha sempre foi ligada ao comércio trabalhou por cinco anos como vendedora de uma loja de vestuário em Criciúma. Há 34 anos viu seu marido, o qual chama carinhosamente de Toninho, ficar desempregado e enxergou a oportunidade de ser empresária.


Kidinha, um dos exemplos moradores do bairro Nossa Senhora da Salete que trabalham com orgulho

“Eu conheci uma empresa que vendia doces e trouxe esta ideia pra cá. Nos primeiros quatro meses eu e meu marido fazíamos as entregas nos estabelecimentos do bairro e da região. Era difícil. Eu andava de um lado para o outro com um carrinho de mão. Depois meus filhos começaram a fazer as entregas de bicicleta e assim, com muita dedicação, a gente foi crescendo”, aponta.

O impulso no comércio de doces da dona Kidinha veio da própria comunidade. “Lembro da primeira venda que fiz. A compradora foi a dona Mariquita, que tinha uma mercearia aqui no bairro. As pessoas me recepcionaram muito bem a comunidade sempre me ajudou. Tive momentos difíceis não só como empresária. Meu filho se curou de um câncer e a comunidade me ajudou muito neste momento. Sou muito grata ao povo do nosso bairro”, evidencia.

Atualmente uma das filhas continua tocando a distribuidora de doces da família. Kidinha, por sua vez, passou a se dedicar exclusivamente para a sua funerária. “É um trabalho que gosto de fazer. Virei sócia de uma funerária e depois abri a minha. A gente sabe que é um momento difícil para os familiares. Mas eu sempre peço a Deus para ungir a minha mão para preparar os mortos. Sei da responsabilidade arrumar um corpo. E me dedico no que faço, porque sabemos que será a última vez que alguém verá seu ente querido e a imagem que fica deve ser boa. Tudo eu faço com amor. Minha vida é guidada pelo amor. Aprendi com meus pais que precisamos fazer nosso trabalho com paixão. Eu sou assim. Cuido de todos, desde os mais ricos aos mais humildes, tratando eles com indiferença”, frisa.

Os cidadãos formados no bairro

Comerciantes, professores, médicos, empresários, advogados e tantas outras profissões se misturam entre os moradores do bairro Nossa Senhora da Salete. Muitos deles aprenderam ali mesmo a como ser um cidadão. Eles foram alunos da primeira escola do bairro, a escola Nossa Senhora da Salete, que mais tarde viria a se transformar na E.M.E.I.F. José Cesário da Silva.

Rosinha Maria Mota Rocha (foto) foi a primeira professora da escola e membro da primeira unidade de ensino. “A gente tinha apenas duas turmas de 1ª série. A escola era pequena, tínhamos apenas duas salas. E assim começamos a educação no bairro. Era uma tempo muito bom. A gente criava as atividades, os teatros, as apresentações dos alunos. Os pais sempre foram muito colaborativos. Tenho a certeza que formamos bons cidadãos, pessoas que respeitavam o professor e que hoje se tornaram grandes profissionais. Até hoje quando meus alunos de anos atrás me vêem na rua, eles me cumprimentam, porque fica marcado na memória as boas experiências vividas na escola", diz Rosinha.

Dos 32 anos que Valdina Alexandre (foto) trabalhou na escola, oito foram em sala de aula. O restante como diretora. Ao lado de Rosinha e outras lideranças, ela foi uma das que lutou pela educação do bairro e a construção de uma nova escola. As mais de três décadas de atividade fazem a professora aposentada refletir. "Muita coisa eu faria diferente. A gente passou muito trabalho. Tinhamos contratos de quatro horas de trabalho, mas a gente vivia dentro da escola. Se eu pudesse voltar para a escola eu cuidaria mais de mim, é verdade, mas isso não apaga todos os ensinamentos que a gente conseguiu passar para muitas crianças do bairro", completa. 

O Nossa Senhora da Salete é assim. Formado de Josés, Andréias, Neides, Larissas, Kitinhas. Povoado por Dionízios, Higinos, Paulo e Rosinhas. Endereço de lojas, padarias, mercados, barbearias. Comunidade do Cerquinho do Revirado, do jogador Vilmar, autor do gol que deu ao Criciúma o título da Copa do Brasil de 1991 e também do zagueiro Lúcio Frasson, que jogou pelo Internacional (RS). Um local de um povo unido, trabalhador e dedicado em fazer daquele pedaço de terra sempre um bom lugar para se morar.