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Os desafios de Carla Pereira Bertoloti: uma mineira atuando em Criciúma no combate ao coronavírus

Técnica de enfermagem está há 50 dias trabalhando no Centro de Triagem
Os desafios de Carla Pereira Bertoloti: uma mineira atuando em Criciúma no combate ao coronavírus
Foto: Rafaela Custódio / Portal Engeplus
Por Rafaela Custódio Em 08/05/2020 às 11:45

São milhares os profissionais de saúde atuando no combate ao coronavírus em Criciúma. Pessoas que estão trabalhando diariamente tentando oferecer conforto, saúde, dedicação e amor, abdicando das próprias famílias por pessoas desconhecidas e que muitas vezes não conseguem nem enxergar o rosto do trabalhador, já que estão com os Equipamentos de Proteção Individual (EPI).

Entre esses milhares de profissionais está Carla Pereira Bertoloti, de 40 anos. Ela mora em Criciúma há 16 anos e trabalha na Prefeitura da cidade há 13. Natural da cidade Três Corações (MG), ela morava em Juiz de Fora (MG), município com quase 500 mil habitantes, antes de chegar ao Sul do país. Veio para Santa Catarina em busca de oportunidades no mercado de trabalho, e conseguiu. 

Carla passou em um concurso público na Prefeitura de Criciúma e ainda cursou enfermagem nas Faculdades Esucri. Ela atua como técnica de enfermagem e, antes da pandemia do coronavírus, trabalhava no Centro de Especialidades em Saúde (CES), antes de ser convidada para trabalhar no Centro de Triagem da área central no dia 18 de março.

Carla é a filha mais velha de quatro irmãos. Seu pai, Carlos Roberto, morreu há 20 anos e sua mãe, Neusa dos Reis, de 65 anos, continua morando em Juiz de Fora. Quando veio para Criciúma morou na casa de tios, que também são mineiros e vieram para a Região Carbonífera também em busca de oportunidades. 

A técnica de enfermagem mora no bairro Pinheirinho com dois cachorros e dedica a vida à saúde pública. Defensora do Sistema Único de Saúde (SUS), ela ainda luta por melhorias para a classe, como o piso salarial e 30 horas semanais. “Minha mãe trabalhou no exército como atendente de enfermagem e cresci vendo ela na área militar e com a saúde. Isso fez com que me apaixonasse também pela profissão”, admite. 

“Sou defensora 100% do SUS. Vou defender até morrer. Você já parou para pensar se não existisse o Sistema Único de Saúde nesta pandemia? Acho que temos que refletir sobre isso”. 

A profissional do Centro de Triagem relata que sua família sempre a visita e a mãe geralmente vem no verão para Criciúma. “Meus irmãos já moraram aqui em Criciúma comigo e um se formou em psicologia também pela Esucri. Meus familiares conhecem a cidade e garanto que a Capital do Carvão é um dos melhores lugares do país. Moramos no paraíso e não sabemos, precisamos dar mais valor a essa terra”, comenta. 

Os desafios da profissão 

Carla relata que estava trabalhando normalmente no Centro de Especialidades em Saúde quando foi convidada para atuar no Centro de Triagem. No momento do convite, aceitou de primeira. “Quando será que vamos enfrentar uma nova pandemia? Quando nós, profissionais da saúde, vamos enfrentar um vírus tão poderoso novamente? Nunca saberemos. Vim pelo desafio e também porque moro sozinha. Se eu me contaminar, poderei me isolar com mais facilidade”, ressalta. “Pensei e vim. Obviamente, temos todos os cuidados necessários no dia a dia, mas são 50 dias trabalhando incansavelmente no combate ao coronavírus. Não é fácil”, completa. 

Desde que entrou no Centro de Triagem, Carla está atuando em diversas áreas do local. “Nunca tive uma função específica. Trabalhei com várias funções aqui e atualmente estou realizando a coleta, que é bastante difícil. Precisamos de muito cuidado com o paciente e também com a nossa saúde”, destaca. 

A técnica de enfermagem ainda explica que está mantendo contato com a família por telefone diariamente. “Falo com minha mãe todos os dias. Às vezes deixo ela falando sozinha e durmo sem querer, porque, convenhamos, o cansaço é gigante. Mas não me arrependo nenhum dia de ter aceitado o desafio. Sei que vamos sair todos juntos e ainda mais fortes dessa pandemia”, declara. 

50 dias na linha de frente ao combate do coronavírus 

Nenhum paciente que Carla atendeu conhece seu rosto. Isto porque os equipamentos que usa diariamente escondem completamente o rosto. Todos os cuidados são necessários. “Usamos máscaras, macacão, luvas, cabelo totalmente preso. É impossível, realmente, nos reconhecer, mas temos que nos cuidar e garantir nossa saúde para que possamos continuar trabalhando e ajudando a sociedade”, observa. 


No rosto de Carla, as marcas das máscaras utilizadas no Centro de Triagem.

“Tenho muita fé, muita. Acredito que vamos passar por tudo isso e venho todos os dias trabalhar com a minha fé, com a certeza de que vou vencer mais um dia. A equipe do dia 19 de março não está mais aqui no Centro de Triagem, mas eu continuo aqui, por mim, por eles e por todos os criciumenses que precisarão de atendimentos”, afirma. 

Futuro 

Carla não soube explicar como ela vê o futuro dos criciumenses e também do país e garante que não tem como prever o que está por vir. Apesar disso, ela entende que a cidade está preparada. “É um vírus altamente contagioso e isso é muito perigoso. Não sei dizer como Criciúma estará amanhã, imagina daqui um mês. Estou vivendo um dia de cada vez e não sei realmente como estaremos daqui um ano ou como as pessoas vão reagir após a pandemia. Estou tão focada no meu trabalho que não parei para pensar em tudo isso”, conta. 

A profissional do Centro de Triagem garantiu que, enquanto puder, continuará atuando na saúde pública e ajudando as pessoas que necessitam de cuidados. “Vou sempre dar o meu melhor para o SUS. Vou defender até o fim o sistema e não tenho vergonha de falar isso. Vamos sair dessa pandemia, pois o mundo inteiro está estudando o novo vírus e conseguiremos, sim, sair de tudo isso. Que tenhamos fé, pois a fé move montanhas”, finaliza.

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