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Dia Internacional da Mulher: a busca pela igualdade de gênero

Em SC, as mulheres são 2.657.949 eleitoras, o que representa 51,62% do eleitorado
Dia Internacional da Mulher: a busca pela igualdade de gênero
Foto: Thiago Hockmüller / Portal Engeplus
Por Rafaela Custódio Em 08/03/2020 às 07:00

O que leva uma mulher a gostar de política? Em ano de eleições municipais, essa pergunta é realizada por diversas pessoas. As mulheres se veem questionadas em todos os âmbitos da sociedade, porém na política -  um mundo com predomínio de homens - essas questões continuam sendo levantadas em 2020. Mas o lado feminino tem adquirido espaços e conquistado lugares que sempre foram tidos como masculinos. Hoje, 8 de março, quando é celebrado o Dia Internacional da Mulher, a reportagem do Portal Engeplus traz uma matéria especial com mulheres que atuam na política.

Segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-SC), em Santa Catarina, as mulheres são 2.657.949 eleitoras, o que representa 51,62% do eleitorado no Estado - números atualizados até janeiro deste ano. Essa maioria é fruto de uma intensa campanha nacional pelo direito das mulheres ao voto, luta conquistada em 24 de fevereiro de 1932, quando elas passaram a ter o direito de votar e serem votadas para cargos no Executivo e Legislativo. 

Se no Estado a maioria das pessoas que votam são mulheres, porque temos apenas seis deputadas ocupando parte das 40 cadeiras na Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina (Alesc)? Se falarmos do Sul do Estado, em Criciúma, por exemplo, são duas mulheres na Câmara de Vereadores  - entre 15 homens. Na Região Carbonífera, apenas a cidade de Treviso tem uma mulher como presidente do Legislativo. 

A reportagem do Portal Engeplus conversou com diversas mulheres que atuaram e atuam na política catarinense para tentar entender o motivo de o lado feminino não ser ainda mais representado no mundo político. Conheça abaixo a história da política no país e também em Santa Catarina.

História da mulher na política 

Apesar da legalização estabelecida em fevereiro de 1932, apenas as mulheres casadas e com autorização do marido, viúvas e solteiras com renda própria estavam previstas no Código Eleitoral e autorizadas a exercer o direito ao voto. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aponta a professora Celina Guimarães Viana como a primeira eleitora do Brasil. Em 1927, aos 29 anos de idade, ela conseguiu incluir seu nome entre os eleitores do município de Mossoró (RN). Em 1928, 15 mulheres votaram e o município potiguar de Lajes elegeu a primeira prefeita da América Latina: Luiza Alzira Soriano de Souza, aos 32 anos. Meses depois de tomar posse, a pedido de uma comissão do Senado, ela teve o mandato anulado, assim como o voto das outras mulheres.

Até que todas as restrições ao voto feminino fossem retiradas, se passaram alguns anos. Apenas em 1934, as ressalvas ao pleno exercício do voto das mulheres foram eliminadas no Código Eleitoral e, em 1946, a obrigatoriedade do voto foi estendida às mulheres. O Código Eleitoral foi aplicado nas eleições de 3 de maio de 1933, em que os Estados escolheram seus representantes à Assembleia Nacional Constituinte (responsável pela Constituição de 1934). Apenas São Paulo daria posse a uma mulher: a médica, escritora e pedagoga Carlota Pereira de Queirós.
*As informações são do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina.

Santa Catarina: a história de Antonieta de Barros

A catarinense Antonieta de Barros faz parte da conquista do voto feminino no Brasil. Ela foi a primeira deputada estadual de Santa Catarina. Além da militância política, ela foi professora, participou ativamente da vida cultural do Estado e atuou ainda como jornalista e escritora. Foi eleita deputada estadual por duas vezes: em 1937 e em 1947, sempre lutando pela valorização do magistério, onde entre os pontos, defendeu a concessão de bolsas para cursos superiores a alunos carentes.

Nascida em Florianópolis, em 11 de julho de 1901, de origem pobre e órfã de pai, ela ingressou com 17 anos na Escola Normal Catarinense, concluindo o curso em 1921. Em 1922, a normalista fundou o Curso Particular Antonieta de Barros, voltado para alfabetização da população carente. O curso foi dirigido por ela até sua morte em dia 18 de março de 1952, e fechado em 1964.

Fundou e dirigiu o jornal A Semana entre os anos de 1922 e 1927, onde publicava crônicas opinativas. Dirigiu também a revista quinzenal Vida Ilhoa, em 1930, e escreveu vários artigos para jornais locais. Com o pseudônimo de Maria da Ilha, ela escreveria o livro Farrapos de Ideias, em 1937.
*As informações são do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina.

Criciúma: apenas uma mulher presidiu a Câmara de Vereadores até hoje

Em Criciúma, a primeira mulher inserida na política foi Dizelda Coral Benedet. Ela foi a primeira mulher eleita vereadora no município para a legislatura de 1983 a 1988. Hoje, em 2020, das 17 cadeiras na Câmara de Vereadores de Criciúma, apenas duas são ocupadas por mulheres que são Camila Nascimento (PSD) e Geovana Benedet Zanette (PSDB). 

Atualmente, o presidente da Câmara de Vereadores de Criciúma é Tita Beloli (MDB). Antes dele, mais de 20 homens passaram pelo cargo, mas apenas Tati Teixeira ocupou o posto representando o lado feminino. 

Tati tem uma longa história na política catarinense. Ela começou a se envolver ainda quando criança, com seu pai Nei Teixeira. Os capítulos continuaram sendo escritos durante a vida escolar com os movimentos estudantis ainda na década de 90. Ela foi a mais jovem mulher vereadora eleita e primeira mulher reeleita vereadora no município de Criciúma e também foi a primeira mulher presidente da Câmara de Vereadores, em 2014. 

A criciumense ainda foi candidata em duas eleições para deputada estadual, mas em ambas não conquistou lugar na Alesc. Ainda em 2016, ela seria candidata a vice-prefeita, mas o candidato a prefeito, Cleiton Salvaro (PSB), desistiu da disputa após o período onde era possível mudança de candidatos.

“Minha vida política sempre foi um desafio e busquei quebrar paradigmas. Ser presidente da Câmara de Vereadores de Criciúma foi algo muito importante, é um cargo a ser respeitado, principalmente pela cidade ser um polo no Sul de Santa Catarina e também do país”, conta. 

Tati comenta que nos bastidores havia, sim, certo preconceito por ela ser mulher, porém sempre tentou atuar de forma mais correta e justa pelo povo criciumense. “Em todos os momentos difíceis você cresce, e cresce muito. Sempre tentei manter o máximo de respeito para que as pessoas vissem a Tati como vereadora, presidente da Câmara. Lutei e trabalhei muito durante todos esses anos e, por isso, acredito que tenho o carinho e o respeito dos criciumenses”, afirma. 

Momentos difíceis

A derrota também faz parte da história política de Tati Teixeira. Ela perdeu duas eleições para deputada estadual, mas garante que também aprendeu com os dois momentos. “Na última eleição, em 2018, fiz quase 12 mil votos, ou seja, foram 12 mil pessoas que acreditaram em mim. Parece um número pequeno, mas não é. São 12 mil corações que viram um potencial, um projeto e votaram em mim. Por isso, sou muito feliz e grata a cada um. Foi uma eleição atípica, mas que com certeza me ensinou muito”, garante. 

Tati relata que atualmente está focada em seu trabalho como psicopedagoga e, neste momento, não está pensando nas eleições municipais. “É um momento em que estou bastante ligada ao meu trabalho. Estou me dedicando aos idosos, pois temos que pensar nesse público também que é, sim, política pública”, declara.

“Trabalhei muito por Criciúma durante todos os meus mandatos e sou feliz por isso. Hoje, estou focada no meu trabalho e nas minhas atividades. Mas não quer dizer que eu não possa concorrer novamente em uma eleição. O futuro dirá”. 
Tati Teixeira 

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Tati é casada há 22 anos com Daniel Ferreira e tem dois filhos: Victor, de 21 anos e Clara, de 10. “Minha família sempre esteve ao meu lado e trabalhou muito comigo nas últimas campanhas. Meu marido sempre esteve na Câmara comigo, por exemplo. Tudo que fiz também foi por eles”, conclui.

Na Amrec, apenas uma mulher comanda a Câmara de Vereadores atualmente

A vereadora Crisleide Cimolin (MDB) é a única mulher a presidir uma Câmara de Vereadores neste ano na Associação dos Municípios da Região Carbonífera (Amrec). Vereadora pelo município de Treviso, ela ocupa o cargo de presidente desde dezembro de 2019. 

“É gratificante estar ocupando a presidência da Câmara por representar as mulheres, que são a maioria da população e ainda com pouca representação política. Mas, ao mesmo tempo, sou consciente que a nossa luta por direitos e igualdade continua”, comenta. 

Crisleide explica que sempre gostou de ajudar as pessoas e por isso entrou na política. “Sempre gostei de servir a comunidade e busquei ajudar os mais vulneráveis e foi quando percebi que por meio da política poderia contribuir muito mais para o bem estar de toda uma sociedade”, conta. 

A vereadora de Treviso relata que nunca sofreu preconceito no meio político. “Sempre tive apoio dos familiares, amigos e do meu partido (MDB). Na eleição de 2012 fui a mais votada e na de 2016 fui a primeira mulher reeleita no município”, explica. 

Em seu segundo mandato como vereadora, Crisleide quer ainda disputar uma eleição para tentar assumir a Prefeitura do município. “Futuramente, tenho intenções de me candidatar à prefeitura de Treviso. Neste ano, tenho o nome a disposição para o cargo que o partido e as pessoas me solicitarem”, garante. 

“O vereador tem um papel muito importante porque lidamos dia a dia com demandas que recebemos da população e o vereador tem um dos compromissos mais lindos que é fazer as pessoas felizes e também elaborar leis e fiscalizar a aplicação correta dos recursos públicos”. 

Professora da rede municipal, ela garante que sua principal bandeira é a educação. “Busco trabalhar para melhorias na educação, pois sou professora na rede municipal e sei da importância de uma educação de qualidade para o futuro de uma nação. Quero ainda atuar junto às esferas Estadual e Federal, buscando recursos para a solução de demandas do município e contribuir com o chefe do executivo fiscalizando o cumprimento do Plano de Governo, buscando o desenvolvimento da cidade”, afirma. 

“Devemos lutar por tudo o que acreditamos para que, com a representatividade feminina, possamos fortalecer a nossa democracia e contribuir para uma sociedade mais igualitária, democrática e justa”.
Crisleide Cimolin
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Muito mais que uma deputada federal: a história de Geovania de Sá

Em 2018, Geovania de Sá (PSDB) foi reeleita com quase 102 mil votos para representar Santa Catarina na Câmara dos Deputados. Mas esta não foi a primeira vez que ela fez história na política. Em 2008, ela obteve 5.676 votos e foi eleita como vereadora em Criciúma, atingindo a maior votação da história do município. Antes de chegar à Câmara de Vereadores, Geovania foi secretária do Sistema Social.

Geovania trabalhou cerca de 20 anos no Grupo Zanatta, além de ser filha do sindicalista Itaci de Sá, que já atuou como vereador em Criciúma. Atualmente, ela é a presidente de seu partido em Santa Catarina e é a primeira mulher a comandar a sigla no Estado - posição que ocupa até maio de 2021. 

A criciumense está entre os 11 deputados que atuam na mesa diretora da Câmara dos Deputados. Atualmente, são 513 deputados federais no Brasil. “A mesa diretora possui 11 deputados e apenas duas são mulheres, somos minoria. Sempre tem que lutar por atender seus objetivos”, comenta. 

“Quando decidi ir para a política e sair da iniciativa privada, sabia que era para fazer a diferença. Caso contrário, eu nem iria. Em 2014, participei da eleição com dificuldades para deputada federal, mas sabia onde eu queria chegar. A mulher tem o perfil determinado, focado e, por isso, conquistamos nossos objetivos”, garante. 

“Nós, mulheres, devemos lutar por esse direito de estarmos na política. Nossa participação ainda é pequena, mas tenho muita expectativa de que, em 2020, vai melhorar a representatividade feminina”.
Geovania de Sá
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Geovania analisa que o homem também cumpre papéis fundamentais em casa, mas ainda, na maioria dos casos, são as mulheres que estão com os filhos em consultas, para levar à escola e que cuidam das tarefas de casa. Tudo isso além da vida profissional. “Começamos a ver a realidade mudando, mas a passos lentos”. 

Momentos marcantes na trajetória política 

Geovania é a atual presidente do PSDB em Santa Catarina, mas ela garante que os desafios são gigantes. “Os partidos sempre foram presididos por homens. Mas o momento do país é pedido algo diferente. Pensei em voltar atrás, porém percebi que tenho energia para rodar Santa Catarina e conversar com os cidadãos. Em 2019, presidi por mais de 100 horas a Câmara”, comenta. 

Sobre preconceito na Câmara dos deputados, Geovania é enfática. “Muitas vezes somos desrespeitadas, mas pela minoria. Porém, são coisas que nos fortalecem, pois somos capazes e determinadas para vencer esses obstáculos”, analisa.

Ser prefeita de Criciúma? Com certeza!

Já foi vereadora, atualmente é deputada federal, mas e comandar a Prefeitura de Criciúma? Geovania não descarta a possibilidade. Entretanto, garante que hoje o foco é na Câmara dos Deputados. “O futuro a Deus pertence. Quando fui secretária de assistência social, não imaginava chegar à Câmara dos Deputados. Hoje, foco no trabalho e fortalecer o meu partido e também Santa Catarina. Estou pronta para aceitar o desafio de assumir a Prefeitura, porém, hoje o meu candidato é o Clésio Salvaro”, declara. 

“Nunca desista dos sonhos. Persistam nos objetivos e, se tiver um desafio, tem que enfrentá-lo. Nada foi fácil para nós mulheres. A luta sempre foi intensa. Quando se tem foco é buscar a determinação. Hoje, é uma data para ser refletida e esperamos que tenhamos cada vez mais espaço na sociedade como um todo”. 
Geovania de Sá
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O que esperar do futuro das mulheres na política? 

É difícil falar em futuro, não é mesmo? Talvez não. O discurso muitas vezes precisará ser reescrito. Criciúma, por exemplo, conta há cinco anos com o projeto Câmara Mirim, que busca promover a integração entre a Câmara de Vereadores e a escola, além de estimular o espírito de liderança, contribuindo para a participação política de estudantes. 

O objetivo do projeto destinado a alunos do 4º ao 7º ano do Ensino Fundamental, com no máximo 15 anos na data designada para a eleição, é permitir aos estudantes entender o papel do Legislativo Municipal. 

Atualmente, a Câmara Mirim tem 17 participantes que iniciaram as atividades na última quinta-feira, dia 5 de março. Dos 17 vereadores mirins, oito são meninas. Em cinco anos de projeto, este será o primeiro que a Câmara será presidida por uma menina. Beatriz Damian Fieira, de 12 anos, é estudante da Satc e recebeu 372 votos na escola. 

Ela já havia concorrido nas eleições em 2018, porém, não conseguiu a candidatura. Já em 2019, conquistou uma cadeira na Câmara Mirim de Criciúma. “Sempre gostei de liderança e isso me chama a atenção. Por isso, decidi concorrer a duas eleições e na última alcancei meu objetivo. Fizemos campanha na escola, montei minha chapa e, com o apoio dos estudantes, estou aqui na Câmara”, conta. 

Beatriz relata que teve interesse em presidir a Câmara e que ligou para cada vereador para conversar. “Peguei o telefone dos vereadores e conversei com eles. Falei das minhas propostas e também dos meus objetivos para 2020. Quero agir com responsabilidade e melhorar o bairro Santa Augusta, onde moro, e ajudar as pessoas”, declara. 

“É necessário acreditar que nós, mulheres, podemos, sim. Nós podemos. Igualdade de gênero precisa ser debatida e precisamos que isso vire realidade”.
Beatriz Damian Fieira
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Beatriz conta que está buscando mais experiências na Câmara Mirim. “Em 2020, quero apresentar boas propostas e ajudar Criciúma. Quero sair com mais responsabilidades e aprendizados”, finaliza.