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Durante a quarentena, o 'caminhão precisa andar'

Leia o relato de um caminhoneiro sobre as dificuldades enfrentadas durante a quarentena
Durante a quarentena, o 'caminhão precisa andar'
Foto: Divulgação
Por Thiago Hockmüller Em 30/03/2020 às 08:42

Desde o último dia 17, Santa Catarina vive dias de quarentena, um isolamento social como forma de combater o avanço do coronavírus no Estado. No entanto, existem categorias de trabalhadores que precisaram abdicar da segurança de seus lares para fazer a roda da economia girar. 

Uma categoria em especial, os caminhoneiros, funciona como parte providencial desta engrenagem, fazendo com que suprimentos hospitalares, alimentos e produtos essenciais cheguem ao destino.

Na última semana, por exemplo, uma carga com 15 milhões de luvas cirúrgicas, avaliada em R$ 2 milhões, foi transportada de Pinhais (PR) até Florianópolis. Os utensílios foram entregues à Secretaria de Saúde de Santa Catarina e serão distribuídos aos profissionais do sistema estadual de saúde e das forças de segurança.

Este é apenas um exemplo da importância destes profissionais. E durante a quarentena, muitos passam dias exaustivos, sem borracharias, restaurantes e suporte. "Acompanho os meninos que transportam alimento. Esse pessoal não parou mesmo, continuou trabalhando normal. O povo está acostumado a ter um lugar para tomar um banho, comer e não tem mais nada. Está tudo fechado", comenta o caminhoneiro Vânio Ferraz Pereira, 36 anos, de Araranguá.

 

Nestes 12 anos que estou aí, a gente passou por várias etapas, mas nunca foi tão forte, sempre teve vacina, medicação que previne e aí seguia trabalhando. Eu nunca convivi com isso aí. Há dois anos, quando teve a greve, ficamos 11 dias parado e foi uma caos porque já estava faltando tudo. Se parar 40 dias os caminhões aí dá uma revolução, não sabemos nem o que pode acontecer.

Caminhoneiro Vânio Ferraz Pereira, 36 anos, de Araranguá
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Com a ajuda do povo

Há 12 anos Vânio é motorista e atualmente dirige um caminhão cegonha, como é chamada as carretas que puxam cargas de veículos Brasil afora. Por não ser uma carga essencial, pôde ficar em casa. Mas não à toa. Na última viagem saiu de Araranguá no dia 23 de fevereiro. Andou por Curitiba (PR), Salvador (BA), Belém (PA) e retornou para casa no dia 18 de março. Gripado, foi recebido pelo irmão e encaminhado direto ao hospital. Precisou interromper a viagem para o Rio Grande do Sul.

"Fiz exames, mas graças a Deus era uma gripe normal. O médico me passou um tratamento durante sete dias. Um isolamento domiciliar, porque não tinha nada de vírus, graças a Deus", explica aliviado.

Com o tratamento finalizado, ele iniciou nesse domingo, dia 29, a conclusão do trabalho: levar os carros para os destinos solicitados. "Vou pro RS terminar a minha viagem da Bahia. Como cheguei gripado, meu patrão achou melhor ficar em casa fazendo o que o pessoal da saúde pediu", comenta.

Nessa viagem, passará por Porto Alegre, Santa Cruz do Sul, Uruguaiana e subirá até São Paulo. No entanto, em SP não há previsão de novo carregamento e de quando voltará para casa. Dos amigos, ele recebe informações e já sabe o que estará sujeito na estrada.

"Tem muitos pontos na beira das BRs que o povo tá distribuindo marmita para os caminhoneiros, o povo tá ajudando. Levando marmita e café da manhã. As borracharias estão fechadas, já teve motorista amigo meu que teve que ele mesmo trocar o pneu. Tem motorista com caminhão quebrado parado em pátio de posto e não tem como arrumar porque está tudo fechado", conta.

O kit está pronto

Com a ajuda da esposa Juliana Paula Nunes da Silva, 40 anos, e do filho Vinicius da Silva Pereira, 12 anos, Vânio já montou um kit de segurança para utilizar durante a viagem. Na bolsa, álcool em gel, luvas e máscara, além dos utensílios necessários para cozinhar no próprio caminhão e evitar refeitórios.

"Estava fazendo um kit para levar. Está tudo preparado para me prevenir quando estiver na rua. No pátio tem restaurante, mas desse jeito está tudo fechado. Então encomenda a marmita para comer no caminhão. Come quietinho, cada um no seu canto. O pessoal está consciente, estão se cuidando bastante. É lavar bem as mãos, usar a máscara para conversar, mesmo que não tenhamos nada", afirma.

Quarentena apoiada

Trabalhamos no transporte e precisamos de comissão. Fiquei 12 dias em casa. Agora sou obrigado a terminar essa viagem e adquirir algo para me resguardar mais um tempo. Minha ideia é voltar carregado para fazer um troco e ajudar nas contas de casa, para me manter neste tempo que vou ficar parado. Aí tem como me defender. Se voltar de carona me prejudica. Aí faço o restante da quarentena me preocupado.

Caminhoneiro Vânio Ferraz Pereira, 36 anos, de Araranguá
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Vânio é a favor da quarentena. Sabe que sua carga, no atual momento, não é essencial e as próprias lojas de veículos, fechadas, não possuem demandas. Todavia, precisa finalizar a viagem iniciada em fevereiro para ganhar  uns trocados. E se tudo certo, pretende voltar carregado de São Paulo para garantir uma quarentena tranquila. Do contrário, preocupação. 

Ele conta que a empresa para a qual puxa veículos definiu uma estratégia: cegonheiros de longe tem prioridade para pegar a carga e assim pode voltar para casa. É nesta estratégia que Vânio aposta.

“Eu sou a favor (da quarentena). Se tu precisa, como esse povo que transporta alimento, não tem como evitar. Se pode, tem condições, teu patrão pede para ficar em casa, te dá apoio, se não falta nada para a família... se ficar muito tempo pode faltar dinheiro, comida dentro de casa. Sou a favor, desde que o povo que possa ficar em casa fique e se cuide ao máximo”, reflete. 

Assim como ele, existe uma porção imensa de caminhoneiros que sobrevivem de comissões. Por isso, o araranguaense entende a necessidade do transporte de cargas valiosas para este período e também de manter o trabalho. Não condena quem precisa pegar a estrada e entende quem prefere se resguardar.

“Desejo que Deus abençoe a todos, peço para o pessoal se cuidar. Muitos querem parar, mas não podem. Tem gente contra e a favor, temos que desejar o bem. Entendo o lado de  todos, o que quer parar e aquele que prefere trabalhar. É pedir que se cuidem e enfrentam isso de cabeça erguida”, dá o recado.