InternetData CenterAssinante

Uma sessão de cinema voltada para o público autista

Sessão azul será realizada no próximo sábado, dia 6
Uma sessão de cinema voltada para o público autista
Foto: Divulgação
Por Redação Em 02/04/2019 às 19:28

Uma sessão de cinema adaptada para as crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), com luzes acesas, som mais baixo e liberdade para a plateia ficar bem à vontade. A sessão azul, organizada pelo Núcelo TEA (Terapias Especializadas em Autismo) e o Nações Shopping, vai ocorrer no próximo sábado, dia 6 de abril, tornando a experiência de ir ao cinema mais confortável, permitindo e encorajando que ao longo do tempo essas crianças e suas famílias continuem freqüentando, e se possível, sem a necessidade de adaptações. Intenção com isso é ainda inserir as atividades culturais na rotina das famílias, abrindo novos horizontes e possibilidades de lazer. Quem pagar a meia-entrada vai poder assistir ao filme, às 10h30.

Além disso, orientações voltadas ao autismo, estão sendo realizadas no Nações Shopping, nesta semana, para lembrar o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, comemorado nesta terça-feira, dia 2 de abril. A informação é do neuropediatra Eduardo Medeiros, um dos profissionais que estará no local, para passar todas as informações relativas ao autismo.

Conforme o neuropediatra, que trabalha há 12 anos com autistas e há nove anos em Criciúma, o autismo é caracterizado, principalmente, por falhas na comunicação e na interação com pessoas, e junto com essas falhas em se comunicar e interagir, existem - no maior ou menor grau - alguns comportamentos peculiares, característicos, como interesse por rodas, comportamentos repetitivos, e não corresponder aos chamados. Apesar do grande esforço e atenção, um entendimento definitivo sobre as possíveis causas do autismo ainda não foi alcançado.

Por outro lado, estatísticas confiáveis apontam que o transtorno do espectro autista em meninos é mais comum. Os últimos estudos apontam que, para cada 59 a 69 crianças nascidas, uma é autista, ou seja, é muito frequente. O neuropediatra explica que se chegou a essa conclusão porque em 2012 os critérios para poder dar o diagnóstico mudaram. Antes era dado só para aquela criança que possuía quadro mais grave. Crianças ou pessoas que tinham um quadro leve ficavam sem classificação, não eram diagnosticadas. Hoje, mudou-se a maneira de classificar as crianças. Com o auxílio do DSM-5 (nova classificação americana para transtornos mentais) colocou-se critérios novos incluindo as crianças com quadro leve - como autistas.

O médico ainda contou que a comunicação de um autista, para se entender melhor, foge dos padrões observados na maioria das crianças, ou seja, a criança por volta de um ano de idade já deve estar falando umas cinco palavras, apontando para os objetivos. Deve corresponder ao chamado, interagir com outras pessoas, olhar nos olhos. Um ano e meio deve ter vocabulário de 50 palavras. Já por volta de dois anos deve ter vocabulário que oscila entre 100, 150 palavras a 300. “Então uma criança de dois anos que não está falando, mesmo que não seja autista, deve procurar atendimento de um profissional da saúde, o seu pediatra, uma fonoaudióloga, ou até um neurologista infantil”, reforçou.

 

Familiares mais atentos

Além dos critérios de classificação do TEA, também se notou que 10 anos atrás, as crianças ou as famílias procuravam atendimento médico quando a criança tinha entre sete e nove anos. Mas, com a facilidade no acesso aos conteúdos, muitas famílias começaram a procurar o profissional mais cedo, levando a criança antes mesmo de completar dois anos.

Por falar em diagnóstico mais cedo, Medeiros informou que isso é muito importante porque quanto mais precoce se chegar ao diagnóstico, mais cedo se começa a intervenção e consequentemente o estímulo na comunicação e na socialização. “O tratamento no autismo é ensinar a criança a se comunicar, interagir com outras pessoas e diminuir os comportamentos que, às vezes, se tornam inadequados ou que deixam a criança muito frustrada ou intolerante a alguma coisa, como ruídos, ou mudanças de rotina”, exemplificou.

“A criança autista é um ser único. Não existe autismo, existem autismos porque cada criança tem suas características. Não existem duas crianças iguais, também não existem duas crianças autistas iguais. E o atendimento em equipe facilita porque a gente planeja e traça metas em conjunto para cada criança, e o tratamento principal que não se encontrava disseminado na região é a terapia comportamental baseada na análise do comportamento aplicada, conhecida como ABA”, apontou, destacando que isso tudo visa minimizar os comportamentos prejudiciais à criança e amplia o repertório de comunicação e integração.

 

A importância da terapia ABA

Crianças com Transtorno do Espectro Autista normalmente apresentam déficits no desenvolvimento de habilidades que são pré-requisitos para a aprendizagem, como atenção, compreensão da linguagem, imitação e agrupamento de estímulos. E, para trabalhar isso, a intervenção da terapia ABA é fundamental. Mas você sabe o que é a terapia ABA? Rosane de Freitas Glashorester, pedagoga, e pós-graduada em especialização em educação especial explica que ABA (análise comportamental), é um termo advindo do campo científico do Belvorismo e tem como objetivo, analisar e explicar associação entre o comportamento humano e a aprendizagem. Estudam mostram que 70% das crianças que passaram por terapias ABAs, de modo intensivo, conseguiram atingir melhora considerável no seu desenvolvimento global.

“As terapias são essenciais. Temos que fazer o melhor que pudermos para eles e nunca desistir” 

“As chances de ele ter no futuro uma independência, o mais perto da normalidade possível, será a consequência do que fizemos hoje”. Foi o que disse Bruna Vieira de Souza Patrício, 27 anos, mãe do pequeno Mateus Vieira de Souza Patrício, de quase 3 anos, e que foi diagnosticado com o Transtorno do Espectro Autista. Para ela, o sorriso no rosto, o abraço apertado e a interação com os amiguinhos da escola, são considerados uma verdadeira vitória. A moradora de Içara conta como iniciou a história e a busca para reverter alguns padrões de comportamento, em tão pouco tempo.

Desde pequeno, quando completaria dois anos, o menino começou a apresentar comportamentos peculiares. O principal deles e que chamou a atenção dos pais foi na linguagem. Ele não identificava os tios, os avós, não chamava mamãe e papai, não atendia aos pedidos, e gostava de mexer em potes de creme e controles de televisão, passando horas e horas nos mesmos movimentos. A mãe conta que começou a analisar detalhes de uma sobrinha - sete meses mais nova do que ele, e percebeu que Mateus tinha habilidades de comunicação prejudicadas.

Mas, o susto grande veio quando ele tinha um ano e nove meses, idade em que parou de falar. Foi aí, que de acordo com a mãe, começou a ficar mais difícil de conseguir ele interagir, e até as expressões mudaram. “Relatei isso ao pediatra, que mencionou que poderia ser autismo. O primeiro passo foi matriculá-lo na escola regular. Por mais que estejamos pesquisando sobre isso, não queremos aceitar. Deixei os professores a par da situação e nesse período de adaptação levamos ao neuropediatra, o Dr. Eduardo Borges de Medeiros que diagnosticou o autismo, quando ele estava com um ano e dez meses. Foi difícil e pensamos: o que vai ser do futuro? tudo vai depender da evolução”, contou.

 

Estímulo

O tratamento para o autismo é geralmente muito intenso e abrangente, por isso envolve toda a família da criança e uma equipe de profissionais. Pensando nisso, Bruna e o marido Daniel Vieira Patrício procuraram um local especializado, em Criciúma, o Núcleo TEA (Terapias Especializadas em Autismo). Lá, eles receberam toda a atenção necessária para garantir estímulo e mais qualidade de vida para o pequeno Mateus. Hoje ele faz terapia com fonoaudióloga, psicóloga, método ABA – análise do comportamento aplicada –, musicoterapia, terapia ocupacional, e psicomotricidade. A terapia ocupacional é com especialização em integração social.

“Quanto mais cedo for a intervenção e mais estímulo a criança tiver, principalmente, antes dos cinco anos onde produz mais neuroplasticidade, as chances do cérebro desenvolver e aprender algo que ele tem dificuldade é muito grande. O que tem comprovação cientifica que dá resultado, é a intervenção e os estímulos. Ir ao fonoaudiólogo, fazer terapia ocupacional, terapias comportamentais baseadas no ABA, são essenciais”, emendou.

 

Noites sem os sapatos

A mãe também conta que ele costumava dormir com uma colher e de sapatos. Não tinha interação social, hipersensibilidade no corpo todo, e não gostava de dar abraço. “A parte do pé é onde tem maior sensibilidade. Se o sapato caísse do pé ele entrava em desespero, então ele dormia de sapatos. Hoje deixou os sapatinhos, mas ainda dorme de meia. Não anda mais com colher, brinca com carinho e tenta estar no meio das crianças. Hoje ele abraça todos os colegas e faz as atividades escolares segurando o lápis, coisa que não fazia antes, além de conseguir se expressar. Isso para nós é uma vitória enorme”, ressaltou a mãe emocionada.

Escola regular

Mateus faz terapia e depois vai para a casa, toma banho, dorme, e a tarde vai para a escola regular. Ele é autista que tem muitas habilidades. Conta até 100, fala algumas palavras em inglês, sabe o alfabeto inteiro e já lê algumas palavras, aos 2 anos e 11 meses. O hiperfoco dele é letra e números, além de uma memória incrível, de acordo com a mãe.

Segundo ela, o ensino regular ajudou no seu desenvolvimento também e hoje ele consegue ficar perto de algumas crianças, e dividir as brincadeiras, que antes não conseguia.

“Não desistam, façam as terapias. Quando vê que a criança tem alguma dificuldade não esperem. Não deixe de procurar ajuda. As terapias são essenciais”, pediu Bruna. 

Colaboração: Dani Savi