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Muito mais do que palavras: um poema que mudou a vida de uma detenta

Ana Patrícia Januário, de 47 anos, participou do projeto “A poesia vai de ônibus”
Muito mais do que palavras: um poema que mudou a vida de uma detenta
Foto: Rafaela Custódio
Por Rafaela Custódio Em 14/03/2019 às 19:48

Mudar de vida, ter novas histórias, buscar ainda mais conhecimento por meio do estudo. Estes são alguns objetivos de Ana Patrícia Januário, de 47 anos. Ela é presidiária e completará um ano de detenção no dia 30 de março. Por meio dos livros, de textos e das poesias ela ultrapassou as grades da Penitenciária Sul Criciúma. 

Ana escreveu uma poesia sobre seu sorriso, mas de uma forma diferente, isto porque ela não possui alguns dentes. Por meio das palavras, contou sua angústia. Foram 180 poemas escritos no projeto “A poesia vai de ônibus”, promovido pela Associação Criciumense de Transporte Urbano (ACTU). Ao todo, 50 poemas foram escolhidos, entre eles, o da detenta. Além dela, mais cinco mulheres inscreveram versos para a ação. Apenas o dela foi escolhido entre as presidiárias. 

Mãe de oito filhos, sendo sete homens e uma mulher, Ana comenta que recentemente recebeu o regime semiaberto, que é um sistema mais leve do que o fechado, mas que também impõe uma série de restrições aos presos. De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), estes casos são destinados para condenações entre quatro e oito anos. Além disso, o detento tem o benefício de reduzir o tempo de pena por meio do trabalho: um dia é reduzido a cada três trabalhados. 

“Minha filha era casada com um traficante e escondeu drogas dentro da minha casa e a Polícia Militar (PM) encontrou os entorpecentes dentro da minha morada, mas não sabia que elas estavam lá”, lembra. 

Moradora do bairro Renascer, em Criciúma, Ana comenta que antes de ser presa ela ajudava a comunidade. “Fazia parte de uma assistência social. Ajudava as pessoas carentes, fazíamos festas no Natal com a ajuda de empresários e Organizações não Governamentais (ONGs). Quando sair daqui espero continuar trabalhando com isso e ajudando as pessoas”, estima. 

"Ao passar em cada esquina

Vislumbro uma paisagem diferente

Ouço um comentário sovina

E em uma risada mostro o dente 

Ausente"

Ana Patrícia Januário

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“Poemas são críticas sociais”

Cristiane Dias é professora da rede municipal e trouxe para Criciúma o projeto “A poesia vai de ônibus”. Ela se inspirou na ação realizada em Porto Alegre (RS). No estado vizinho, poesias da professora circularam por três anos nos ônibus e ela decidiu buscar instalar a ação no município. “Na primeira edição foram 150 poesias e na segunda 180. Foram escolhidos 50 poesias. Não tem classificação de primeiro ou segundo lugar. Todos os poemas estão circulando nos ônibus da ACTU desde dezembro de 2018, entre elas, a poesia da Ana”, comenta Cristiane. 

A professora ressalta que teve diversos poemas e com muitos temas. “São poemas falando do amor, de política, de saudades. São bem diversificados. Poemas são críticas sociais. Após ler um poema é preciso ficar incomodado. Após ler o poema da Ana, você fica em choque, é preciso interpretar”, observa. 

Todas as 50 poesias estão coladas em forma de adesivo nos ônibus que circulam em Criciúma. Atualmente, aproximadamente 40 mil pessoas utilizam transporte público diariamente no município. 

Muito além das palavras: a emoção de ter contribuído com o poema 

Ana descobriu o projeto por meio da professora Vanessa Zardin, que trabalha no sistema prisional há um ano e meio. “Vi o projeto nos ônibus e tive a ideia de conversar com a direção do presídio para as detentas participarem. Na época foi aceito”, conta. 

Vanessa ressalta que a Penitenciária Sul possui projetos voltados a educação. Atualmente, das 280 detentas, 240 participam de ações voltadas à leitura, produção de textos, entre outras atividades. 

“As seis participantes leram os livros de poesias e autores que elas gostavam e escreveram diversas poesias. Corrigimos e depois cada uma leu seus trabalhos. Aí realizamos uma votação e a melhor de cada presidiária foi participar do projeto. A maioria das poesias falam de saudades”, comenta. 

Hoje na Penitenciária Sul, amanhã na sociedade 

A diretora da Penitenciária Sul, Bárbara Santos de Souza ressalta que é necessária a ressocialização das presas. “Hoje, elas estão aqui dentro, mas amanhã estarão na sociedade. As pessoas precisam conhecer essas histórias. Dentro das regras, estamos abertos aos projetos sociais e vamos continuar buscando novas ações”, afirma. 

Bárbara está há um mês no comando da penitenciária, mas relata que outras cidades precisam atuar também nesses projetos. Além disso, outra detenta vai lançar um livro após um autor do Rio Grande do Sul se interessar em seus textos. Toda presidiária escreve um diário relatando seus dias dentro da cadeia. 

A professora Vanessa comenta que a educação traz uma expectativa de vida melhor. “Ficamos muito felizes de estar entre os 50 poemas escolhidos pela ACTU. A leitura pode mudar vidas e trazer bons hábitos”, ressalta. 

Muito mais que um poema: um futuro por meio dos estudos 

A detenta Ana acrescentou que dentro da Penitenciária Sul já realizou até mesmo a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). “Precisamos incentivar a leitura. Muitos ficam nos celulares e nos computadores e acabam não praticando a leitura. A educação enriquece”, afirma. 

A missão de contar para Ana que seu poema foi escolhido foi missão da coordenadora de educação da Penitenciária, Rita Rocha. “No primeiro momento ela não acreditou, ficou nervosa e até chorou. Ela custou acreditar”, lembra. 

A direção da ACTU também esteve na Penitenciária Sul e entregou um certificado e um banner com a poesia escrita por Ana. 

Por trás de palavras: sentimentos 

A poesia sobre sorrisos e dentes traz muito mais do que apenas palavras. Mostra a realidade de Ana, que tem medo de dentistas. “Nesse mundo só sobrevivemos se enfrentarmos nossos medos. Não posso deixar de sorrir”, afirma. 

“Não sei expressar o que estou sentindo. Muitos dizem que sou criativa”

Ana Patrícia Januário

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Ana ressalta que se as pessoas ficarem sem produzir conteúdo, poderão viver anos, mas não terão nada. Atualmente, a Penitenciária Sul conta com uma biblioteca e recebe doações de livros, sendo que todos são destinados às leituras das detentas. Já o projeto “A poesia vai de ônibus” terá sua terceira edição este ano. “Fiz o poema em cinco minutos. Resolvi criar o poema não só de incentivo, mas para a minha autoestima também”, finaliza Ana.