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Reeducandos do Presídio Regional de Criciúma são premiados no projeto 'A poesia vai de ônibus'

Eles foram selecionados entre mais de 400 inscritos no concurso
Reeducandos do Presídio Regional de Criciúma são premiados no projeto 'A poesia vai de ônibus'
Foto: Rafaela Custódio/Portal Engeplus
Por Lucas Renan Domingos Em 16/12/2019 às 19:48

A Associação de Transporte Urbano (ACTU) realizou neste ano a terceira edição do projeto “A poesia vai de ônibus”. O concurso tem como objetivo estimular a produção de poemas que são divulgados na frota de ônibus do transporte coletivo de Criciúma. Aberto para qualquer pessoa a partir dos dez anos, o projeto em 2019 obteve mais de 400 inscrições. Entre os 50 escolhidos para terem seus textos estampados nos veículos uma surpresa: dois deles eram reeducandos do Presídio Regional de Criciúma, localizado no bairro Santa Augusta.

Alan Leite de Rezende e Leandro Marques dos Santos, ambos de 34 anos, cumprem pena em regime fechado. Entre as atividades que realizam dentro da unidade prisional, participam do projeto “Despertar pela leitura”. A cada livro lido, os detentos ganham quatro dias de redução de penas, com limite máximo de até dez exemplares. Foi por meio da iniciativa que eles ficaram sabendo do concurso realizado pela ACTU.

Cumprindo pena por tráfico de drogas, Santos escolheu como tema da sua poesia a solidão, inspirado em um dos seus poetas favoritos, Friedrich Nietzsche. “Ele fala que a solidão nada mais é do que nos conhecermos. Às vezes perdemos nossa essência porque as pessoas que se aproximam de nós nos roubam esse pedaço. Por isso que falo em minha poesia que ‘companhias verdadeiras são para mim os pedaços da minha vida por inteira’. É isso que precisamos, que as pessoas venham para somar e não para nos roubar um pedaço”, disse.

Ele não esconde que o gosto pela leitura nunca foi sua maior aptidão. “Comecei a ter esse prazer aqui dentro”, comentou. Mas revela que encontrou na poesia uma liberdade, mesmo estando dia a dia vivendo em uma das grades do presídio. “É estar livre mesmo estando preso. Quando começo a escrever a minha imaginação me leva para fora daqui. Foi por meio da leitura que consegui fazer o Enem e ganhar uma bolsa 100% na Unesc em Educação Física, que devo cursar no ano que vem caso consiga progredir para o semiaberto. Tudo isso graças a ressocialização por meio dos livros”, comemorou.

O rompimento entre passado e futuro

Rezende, ainda que esperando a decisão de um recurso, está preso a um ano pelo crime de tentativa de homicídio. Uma briga de família, que quase resultou na morte do ex-sogro o colocou em um cenário que ele mesmo abominava quando estava em liberdade. Ao entrar no presídio precisou conviver com uma nova realidade, o que lhe causou dúvidas sobre a vida.

“Eu estava em um momento muito difícil, abalado emocionalmente. Eu precisava fazer uma ruptura entre o meu passado e a minha vida atual. Eu estava realmente ‘afogado’, sem esperanças nenhuma e precisei entender que não é porque eu estou aqui que eu não vou poder voltar a seguir a minha vida normal quando deixar a prisão”, afirmou. “E é justamente sobre isso que falo. Eu demonstro que entendi que cometi um erro, mas que preciso pensar da minha vida para daqui pra frente. Não tem mais como voltar atrás”, contou.

A família de Rezende mora no Estado do Paraná. Preso a mais de um ano viu sua mãe apenas três vezes desde que ingressou no presídio, mas tem a certeza de que ela estará orgulhosa de ver que seu filho venceu um concurso literário. “Mandei uma carta para ela faz duas semanas contando que ganhei o concurso. Agora estou esperando o retorno. A última vez que ela me escreveu pediu para aproveitar meu tempo aqui dentro para focar nas coisas boas e agora acho que ela vai ficar feliz em saber que estou fazendo isso”, sorriu.

Orgulho também das professoras

Duas professoras são as responsáveis por conduzir os trabalhos do “Despertar pela leitura”. Uma delas é Edna Peres. Foi ela quem assumiu a responsabilidade de auxiliar os dois reeducandos na escrita de suas poesias, uma tarefa não tão complicada. “Eles escreveram tudo sozinho. Eu só tive que realizar a inscrição”, declarou a professora.

Ao mesmo tempo, o sorriso estampado no rosto de Edna não escondia a satisfação em contribuir com a ressocialização de Santos e Rezende. “Ficamos com orgulho. Está mostrando que os nosso projeto tem gerado resultados. Estamos encontrando verdadeiros talentos aqui dentro”, analisou Edna.

Tanto que a própria administração da unidade prisional está pensando em ampliar a capacidade de atendimento do projeto. “Hoje são apenas duas professoras que atendem quase 300 presos dentro do programa. Temos uma fila de mais de 100 querendo participar. Vamos tentar colocar mais professoras para ampliar esse atendimento. Eles estão se dedicando para aprender a não só eles, mas os familiares ficam orgulhosos”, complementou Ana Claudia Zanelato, responsável pelo setor de Educação do Presídio Regional de Criciúma.

Na tarde desta segunda-feira, dia 16, os dois reeducandos receberam a premiação por vencerem o concurso. David Mário Tiscoski, diretor da ACTU, enalteceu a participação de Santos e Rezende no projeto. “As inscrições são feitas com um nome fictício. Então os jurados não sabem quem escreveu. Vocês foram selecionados por méritos de vocês e pelos belos textos”, destacou. O julgamento foi feito por uma comissão da Academia Criciumense de Letras, formada por cinco jurados, que definiram os 50 vencedores.

Uma das juradas foi Sandra Silvestre, vice-presidente da academia. "Ficamos impressionados com os trabalhos feitos por eles. Uma escrita impecável e que merecem realmente reconhecimento", apontou.