InternetData CenterAssinante

O desabafo de Dal Farra após o rompimento anunciado para dezembro; três nomes serão indicados

Presidente não escondeu mágoa com a classe empresarial: 'toquei um gigante sozinho'
O desabafo de Dal Farra após o rompimento anunciado para dezembro; três nomes serão indicados
Foto: Thiago Hockmüller/Arquivo Engeplus
Por Thiago Hockmüller Em 15/05/2020 às 07:32

Jaime Dal Farra desabafou. Em uma longa entrevista exclusiva ao Portal Engeplus, concedida na noite dessa quinta-feira, dia 14, o ainda presidente do Criciúma - permanecerá no cargo até dezembro - não escondeu a insatisfação com a falta de apoio financeiro de empresários da cidade, lamentou os resultados ruins dentro de campo e mandou um recado para quem deixou de investir no clube: “se o problema era eu, agora venham e assumam o Criciúma”.

A decisão de entregar a presidência não foi fácil. Dal Farra revelou para a reportagem que passou o dia aos prantos, chorando. A quarta-feira também já havia sido pesada, a exemplo do que foram os últimos anos da gestão, sobretudo a temporada passada que terminou com o rebaixamento do Tigre para a Série C. Com a decisão tomada, buscou o Conselho Deliberativo para anunciá-la. E assim o fez.

“Fui muito trucidado. Eu estou decepcionado, muito decepcionado. Envergonhado pelos empresário de Criciúma. Eu toquei o Criciúma sozinho durante cinco anos. É difícil carregar sozinho o Criciúma, que é uma coisa gigante, extraordinária. Estou abandonado há cinco anos, não teve um cara que me ajudou. Vou dar liberdade para quem quiser vir e tocar porque eu não dei conta. Todos abandonaram, só pode ser por minha causa, então eu saio, me retiro de campo e vamos ver se alguém assume”, lamenta.

A mágoa com os empresários foi exemplificada pelo presidente. Segundo ele, uma empresa milionária da região abriu mão de um camarote, ao custo de R$ 4 mil/mês, justificando corte de gastos. Para Dal Farra, uma iniciativa inexplicável levando em conta a dimensão do Tigre e a receita da empresa. “Se foi abandonado por minha causa, estou saindo e gostaria que voltassem. Economizar R$ 4 mil de camarote? tem muita gente, com muito dinheiro em Criciúma. Agora venham, assumam”, disse.

Dal Farra ainda elogiou a força de mobilização gerada pelo seu antecessor, Antenor Angeloni, que conseguiu unir a cidade e captar recursos. Em 2010, ele disse que foram captados US$ 3 milhões, divididos em 30 cotas. 

“É o único time do Brasil que tenho conhecimento que não deve um centavo, me orgulho disso, dos conselheiros, dos sócios, os sócios patrimoniais. Entrei sem dívida e vou deixar sem dívida. Eu botei US$ 200 mil dólares em 2010. O Antenor Angeloni teve essa capacidade. Botaram US$ 3 milhões de dólares. Por isso que subiu. Se eu vou pedir R$ 50, não dão. Eu botei 200 mil dólares, duas cotas de 100 mil. Hoje é só pancada. Se pedir R$ 100 mil, tá difícil. Banco sozinho, querem milagre? sou ser humano”, refletiu. 

Três substitutos serão recomendados 

O rompimento com a Gestão de Ativos (GA), que administra o clube desde 2012, foi comunicado por meio de uma carta de renúncia. Como presidente, Dal Farra teria contrato a cumprir até dezembro de 2021, mas garante que a decisão está tomada, é definitiva, e já poderia se concretizar nesta sexta-feira, dia 15, caso houvesse um sucessor.

Como possivelmente não haverá um substituto de primeira hora, seguirá no comando até o final do ano. E já sabe que terá contas a pagar. Somente como efeito da pandemia do novo coronavírus, que parou o futebol no mundo inteiro, a estimativa é que o clube deixe de arrecadar cerca de R$ 6 milhões em receitas. Somado a isto, está um aporte habitual de algo em torno de R$ 1 milhão, ou seja, para não entregar o clube no vermelho, o dirigente terá que injetar cerca de R$ 7 milhões no cofre tricolor.

“Se tiver alguém que assuma nesta sexta-feira, sai GA e sai Jaime Dal Farra. Peço ajuda, se querem um clube da história que é o Criciúma, botem dinheiro. Rasguei dinheiro? rasguei, mas paguei sozinho. Futebol não tem milagre. Investi R$ 42 milhões e recebi de volta R$ 32 milhões. Estou entregando porque parece que o problema sou eu. Eu ficaria mais 10 anos, mas estou saindo porque ninguém quer ajudar. Lutei muito para dar o resultado dentro de campo e pelo apoio destes empresários de Criciúma ”, declarou.

Com a saída projetada, ele revelou três nomes que indicará para o comando do clube: os empresários Alexandro Delupo, Beto Colombo e Ricardo Brandão. A sugestão será entregue ao Conselho Deliberativo e qualquer um deles é tratado por Dal Farra como “sonho de consumo”.

“Seriam caras fortes, que gostam de futebol, e eu gostaria que um deles viesse para me substituir. Vou falar com eles, os conheço e gostaria porque são responsáveis, altamente competentes, que tem dinheiro. E o Criciúma precisa de muito dinheiro. Eles sempre ajudaram o Criciúma, também são pessoas decentes e competentes. Seria meu desejo de consumo”, revelou. 

O futebol não funcionou


Temporada 2019 foi desastrosa e o Tigre terminou rebaixado para a Série C. (foto: Thiago Hockmüller/Portal Engeplus)

Dal Farra não se esquivou quando questionado sobre os resultados ruins que o Tigre teve durante a sua gestão. Reconheceu os erros com as constantes trocas de treinadores - foram 11 - e de comando do departamento de futebol. Aliás, ele reconhece que este ciclo de mudanças precisa ser quebrado para que o clube restabeleça os bons resultados.  

"Eu dei 24 horas por dia para fazer o melhor pelo clube, fiz tudo, dei tudo pelo Criciúma e não consegui no futebol. No resto, o Criciúma está equilibrado e organizado. Chorei ontem (quarta-feira), hoje (quinta-feira) chorei o dia inteiro. Tenho amor ao Criciúma, fiz tudo, botei dinheiro, dei a minha vida, tudo o que eu podia e não consegui. Por isso vou deixar que alguém venha agora. Sou torcedor fanático para aguentar cinco anos como aguentei, com a torcida me destratando o tempo inteiro. Então entrego o clube em dezembro para a torcida, para os sócios, para o conselho, para todos”, ponderou.

A ideia inicial, projetada em 2015, era fazer do Tigre um time de Série A em três anos. Após salvar do descenso na reta final daquela temporada, teve um 2016 razoável no Brasileirão da Série B, terminou em 8°, com 56 pontos e Roberto Cavalo no comando da equipe. 

"Salvei em 2015, quando tinha uma estrutura poderosa, mas iria cair para a Série C. Nós levantamos de novo, eu, o  Vanderlei (Mior), o Cavalo… o pessoal só fala de futebol. O futebol foi uma frustração total. Entrei para levar à Série A. Mas como projeto estou satisfeito porque não deve um centavo. É o único time que não deve. A torcida quer resultado, eu também quero. Sou torcedor fanático pelo Criciúma. Espero que venha alguém (competente), tem gente com muito dinheiro, mas dinheiro não resolve. Dinheiro não faltou”, argumentou. 

A partir de 2017, ano após ano, Dal Farra viu o Tigre acumular maus resultados. As contratações não surtiram o efeito desejado nas três esferas: comando do departamento de futebol, comando técnico e no campo. Constantes trocas, rotatividade alta de jogadores, cobrança da torcida e muitos protestos.

Os maus resultados da equipe em 2018 também provocaram tumultos. Em um deles, após o empate sem gols com o Juventude, torcedores atingiram o carro do atacante Zé Carlos com pedradas enquanto ele deixava o estádio. Com a família no veículo, ele desceu para cobrar os torcedores e os ânimos se acalmaram somente depois de intervenção da Polícia Militar. Naquela mesma noite os torcedores também pediram a saída do presidente. E isto se agravou a cada rodada até chegar o fatídico 2019.

"Era para o time subir (em 2019). Botei R$ 5 milhões do meu bolso para subir. E caiu. O time que caiu foi do Gilson Kleina e do “seu Maringá”. Falam que eu sou o bandido, mas paguei uma fortuna para trazê-los. Sou o responsável, por isso a minha carta (de renúncia). Vou sair”, disse.

Após dezembro, um período de descanso

Tenho saído muito pouco. Vou ficar mais 30 dias dentro de casa porque não quero ser contaminado e contaminar alguém. É um período difícil, mas estou preservando a minha vida e a de outras pessoas. 

Jaime Dal Farra, presidente do Criciúma
_________

Dal Farra cumpre uma rígida quarentena. Não quer se contaminar com o coronavírus e muito menos transmitir a doença. Por isso evita sair de casa. Dono da Resicolor, ele explica que a empresa está sob controle, mesmo diante da crise econômica provocada pela pandemia.

Durante o período em casa, ele conta que ganhou uns “quilinhos”. Embora esta seja uma quarentena forçada, e necessária, ele pretende tirar um período de descanso após se desligar do Criciúma. Pelo menos seis meses sem estádio, sem futebol. Um período para recarregar as baterias e recompor o emocional.  

"Vai ser uma quarentena boa. Vou ficar seis meses longe de tudo. Minha empresa vai bem, apesar da pandemia. Vou ficar longe tudo. Descansar muito, perdi 15 anos de vida nestes cinco anos. Não sei se chego aos 70”, brincou. “Mas vou descansar para me recuperar”, disse Dal Farra. 

Como ficará no cargo até o final do ano, seguem as mesmas perspectivas para a temporada. A primeira é chegar na decisão do Campeonato Catarinense. A segunda é conquistar o acesso para a Série B. “O planejamento está traçado. É ir para a final do Estadual, mostramos isso contra o Joinville, e voltar para a Série B. Vou trabalhar incansavelmente e peço que a comunidade e os empresários ajudem. O Criciúma é um dos grandes do futebol brasileiro e só aqui não dão bola. Toquei o Criciúma sozinho. Uma coisa louca. Tocar um gigante, um fenômeno, me sinto honrado”, explicou. 

Segundo Dal Farra, ainda não houve uma conversa específica com o Departamento de Futebol sobre o caso, nem com o técnico Roberto Cavalo. Nesta sexta-feira, às 11 horas, o presidente do Conselho Deliberativo, Carlos Henrique Alamini, concederá entrevista coletiva para prestar esclarecimentos sobre a situação. E entre hoje e amanhã o presidente deve se posicionar por meio de uma live nas redes sociais onde fará um pronunciamento e responderá questionamentos da imprensa.