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Superação todos os dias: a história de João Paulo Gregorine

Nadador de 18 tem como meta chegar a uma Paraolimpíada
Superação todos os dias: a história de João Paulo Gregorine
Foto: Rafaela Custódio
Por Rafaela Custódio Em 09/08/2018 às 10:25

Superar limites, vencer barreiras e conquistar o mundo. Este tem sido o foco e, principalmente, o sonho do criciumense João Paulo Gregorine, de 18 anos. O nadador iniciou no esporte há sete anos e, desde então, já conquistou mais de 70 medalhas.

Gregorine nasceu com mielomeningocele, também conhecida como espinha bífida aberta, que é uma malformação congênita da coluna vertebral da criança em que as meninges, a medula e as raízes nervosas estão expostas. Além disso, o nadador possui hidrocefalia, que é o acúmulo excessivo de líquido cefalorraquidiano dentro do crânio, que leva ao inchaço cerebral.

A família nunca deixou de lutar pelo filho, com isso, ele chegou ao esporte aos 12 anos. O criciumense jogou handebol por dois anos e já treinou tênis, mas foi na natação que se encontrou. “A Solange Lima, conhecida da associação em que ele participava, nos trouxe a natação. Foi ela que conseguiu técnico, o primeiro patrocinador e nos trouxe luz”, revelou a mãe de nadador, Maria José Gregorine.

Ela contou que o filho entrou na natação, mas não sabia nadar. “O técnico Jaderson entrava com ele e ajudou no começo, porém, o João se mostrou capaz desde o começo e não precisou de muito tempo para adaptação”, lembrou.

A mãe do nadador citou que o filho realizou 15 cirurgias ao longo de seus 18 anos. “A vida nunca foi fácil e ninguém disse que seria, mas sempre lutamos. Nunca deixei de acreditar em meu filho. Em uma das consultas no hospital de reabilitação em Brasília, o médico me disse que ele era capaz e tinha espírito competitivo, e eu nunca duvidei disso”, ressaltou.

Competições

João Paulo estava treinando normalmente, quando foi para sua primeira competição em 2012. O intuito era participar das provas e adquirir experiência. Ele competiu nos Jogos Escolares e disputou três provas, todas nos 50 metros peito, costas e livre. “Fui para buscar aprendizado e voltei com três ouros. Foi algo inacreditável e, ao mesmo tempo, satisfatório. Eu vi que tinha potencial e poderia ir mais longe do que eu pensava”, comentou.

Nos dois primeiros anos de carreira, Gregorine disputou os Jogos Escolares Paradesportivos de Santa Catarina (Parajesc) e Paralimpíadas Escolares. As disputas lhe trouxeram diversas medalhas. “Nessas competições me destaquei muito e consegui índice para chegar à seleção brasileira”, recordou.

Sua última competição foi os Jogos Parapan-Americanos Universitários, que aconteceu em São Paulo, de 25 a 29 de julho. O criciumense disputou três provas e trouxe um ouro na prova 100 metros costas, prata nos 100 metros livre e bronze nos 100 metros peito - esta última conquista foi a melhor marca da carreira. Com os resultados, Gregorine alcançou o índice para disputar a segunda fase do Circuito Caixa Nacional. A competição acontecerá em outubro, também em São Paulo.

“Todas essas provas conquistadas me trazem índices para eu conquistar meu maior objetivo, que é chegar a uma Paralimpíada. Talvez em Tóquio 2020 seja algo ousado, mas não impossível, mas Paris 2024 pode se tornar uma realidade”, ressaltou.

Para chegar a Paralimpíada em Tóquio 2020, o criciumense precisa desbancar três campeões mundiais. “É algo difícil, mas nada é impossível. Minha equipe, minha família e eu, claro, estamos muito dispostos e lutando todos os dias para que isso se torne uma realidade”, destacou.

Treinos

Recentemente, Gregorine se mudou para Florianópolis para conseguir aperfeiçoar ainda mais seus trabalhos dentro das piscinas. “Esperava melhorar os tempos por conta do que estava acontecendo nos treinos”, justificou.

O nadador fica com sua mãe a semana toda na capital do estado e os fins de semana passa na região sul. “São adaptações e fases que são necessárias passar para conseguir alcançar voos maiores. Todo sacrifício pela natação vale a pena”, alegou.

Gregorine treina cinco vezes por semana e tem média de duas horas por dia dentro da piscina. Mas, por muitas vezes, a natação foi dividida com os estudos. “Até ano passado, eu estudava pela manhã e treinava à tarde. No primeiro semestre desse ano fiz faculdade de Informática, mas tranquei, isso porque quero buscar o curso de Direito na Universidade Federal de Santa Catarina”, contou.

A mãe, Maria lembra que o esporte mudou a vida do filho, mas que o estudo é importante. “O próprio técnico dele sempre afirma que o estudo tem que estar aliado a natação. Não sabemos o dia de amanhã”, relatou.

“A natação mudou minha vida, era um jovem que estudava e passava à tarde em casa, apenas. O esporte me trouxe responsabilidades, e é algo normal. Me cobro muito, quero sempre mais. O estudo estará ao meu lado sempre, caminhando junto comigo e com a natação”, reforçou.

Atualmente, Gregorine tem tempos bons, como os 100 metros peito, que está em 2:02, e os 100 metros costas, que está em 1:35. “Já diminui muito meus tempos, mas posso melhorar, meus treinos dizem isso”.

Família

João Paulo é o filho mais novo da família. Além dele, a mãe Maria e o pai Constante possuem Felipe, de 30 anos.  Há dez anos o filho mais velho sofreu um acidente de carro e também ficou de cadeiras de rodas. “Meu filho mais velho precisou se readaptar, mas a vida é o mais importante. João pratica natação e o Felipe handebol, os dois são campeões”, festejou Maria.

A mãe comentou que os filhos lutam todos os dias pelas suas conquistas. “Felipe está na faculdade cursando Direito e o João também está buscando o curso, eles me enchem de orgulho”, relatou.

Como Maria e João ficam durante a semana em Florianópolis. O pai Constante e Felipe moram em Criciúma. Os quatro se reúnem nos fins de semana.

Apoiadores

O nadador tem o apoio das Tintas Farben há sete anos e também da Vitalis - Farmácia de Manipulação. Além deles, a Hammerhead ajuda com materiais de natação. “Uso os mesmos óculos de natação há quatro anos, pois é caro. Muitas vezes, o patrocínio serve para pagar as despesas de viagens, por exemplo”, comentou Gregorine.

Gregorine explica que atualmente no Brasil é complicado pensar em só viver com o dinheiro ganho da natação. “Não dá para viver de esporte. O governo só ajuda os primeiros três do ranking, estou em quarto”, explicou.

Professores

“O João é muito esforçado, não tem cansaço. Toda hora é hora”, comentou a educadora física, Bruna Souza.

Bruna acompanha João desde os 13 anos na parte física na academia e ajudou o nadador a ter fortalecimento na parte física. “Tudo foi adaptação. Ele conseguiu evoluir em casa treino. Sempre me surpreendeu. Não importa onde ou como, ele sempre dá o máximo dele”, relatou.

“O João é sensacional. Ele começou com um quilo em uma elevação lateral e hoje já faz com seis quilos, por exemplo. Ele evoluiu muito. Hoje, não atendo mais ele, porque está morando em Florianópolis, mas aprendi muito com a superação dele”, afirmou.

O atual professor de Gregorine, Fladimir Klein, explica que o nadador foi treinar em Florianópolis há três meses para aperfeiçoar e visando o calendário do circuito brasileiro.

“Ele tem uma disciplina de treinamentos e ele cumpre sempre os objetivos que a gente traça para ele, isso é a diferença dele”, ressaltou.

Klein comenta que a equipe está focada em buscar competições grandes e trazer bons resultados ao país. “Representar o Brasil é o nosso objetivo é onde a gente almeja chegar. Isso sempre estará em nossos planos”, finalizou.