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Pontos & Escamas: a arte que faz escamas virarem peças de decoração e biojóias

Técnica açoriana desenvolvida em Balneário Rincão é comercializada em todo o Brasil
Pontos & Escamas: a arte que faz escamas virarem peças de decoração e biojóias
Foto: Lucas Renan Domingos/Portal Engeplus
Por Lucas Renan Domingos Em 06/03/2020 às 19:35

Morando em Balneário Rincão desde 2004, Alzira de Assis Pereira encontrou em uma das atividades principais do setor econômico do município, a pesca, a matéria-prima para empreender e alcançar o sustento familiar. Habilidosa com artesanatos e usando a criatividade, há 15 anos atrás ela criou a Pontos & Escamas, marca de biojóias feitas com escamas de peixe, uma arte única somente vista no litoral Sul de Santa Catarina.

Na mão da artesã, a camada de proteção da pele do peixe, descartada nos frigoríficos e peixarias, vira pétalas de flores para formar brincos, pulseiras, colares, chaveiros e até lustres. “Também trabalhamos sob encomenda de peças exclusivas. Recentemente uma noiva do Rio de Janeiro nos contratou para o casamento. Fizemos acessórios para o cabelo dela, das daminhas e até o buquê”, conta Alzira.

Para a confecção das peças, a Pontos & Escamas recorre ao resgate histórico e cultural açoriano. “E é isso que valoriza nosso produto. Penso que artesanato é pegar um material bruto e transformar em uma peça que tenha referência cultural”, diz a empreendedora. E para que tudo fique do jeito que a exigente artesã pensa, é preciso paciência.

Para que as escamas fiquem prontas para serem coladas umas as outras, leva-se aproximadamente um mês e meio. “São 30 dias só para limpeza e higienização, mais uma semana para tingimento e depois tem o recorte de cada uma das escamas, até chegar na montagem”, detalha.

Até 3 mil escamas

Entre os artesanatos elaborados por Alzira o mais elaborado deles e também os que demoram mais dias para ficarem prontos são os lustres. Uma única peça pode conter até 3 mil escamas. “Tem toda uma proporção que deve ser obedecida para fazer o caimento das pétalas da forma correta”, explica a artesã. Os materiais ainda são estrategicamente pensados antes de começarem a ganhar forma. “Contamos com a assessoria do Sebrae. Temos um professor de Design que nos dá consultoria e temos uma parceria muito sincera. Porque às vezes, até por ser artesanato, a teoria acaba não dando certo na prática”, brinca.

O apoio do Sebrae rendeu ainda um reconhecimento para o trabalho feito por Alzira, que toca a empresa com o apoio de mais seis pessoas, entre elas os dois filhos e o marido. “Ficamos entre as 150 melhores artesanatos do Brasil em um concurso nacional”, lembra. Em 2019, a Pontos & Escamas também foi homenageada com o troféu de primeiro lugar do Estado de Santa Catarina no Salão de Artesanato de Brasília, na galeria Mestres Artesãos, no Programa de Artesanato Brasileiro (PAB).

As peças já ganharam o mundo. Uma rosa criada por Alzira está exposta no Museu de Botões da Patagônia. “Infelizmente a nossa região ainda não dá o valor necessário para os artesãos. Ainda precisamos evoluir muito em termo de apoio, principalmente por parte das prefeituras e órgãos públicos. Esse reconhecimento da nossa marca pelo Brasil, principalmente, em cidades como Brasília, mostram que é possível fazer dinheiro com artesanato”, analisa.


Produção do vídeo: Celo Pereira

Começo difícil

Mas a realidade não foi sempre positiva para Alzira. Tanto que a empresa iniciou em um momento difícil familiar. Ela e o marido estavam desempregados até encontrar na arte o caminho para ter renda. “Iniciamos com conhas encontradas no mar. Depois tive o conhecimento de umas pessoas que trabalhavam com escamas no Rio Grande do Sul. Fizemos curso e começamos a aprimorar o conhecimento para criar as peças”, recorda.

E ela garante que não há no Brasil produto em qualidade ao feito por ela. “Com a técnica que usamos? Creio que nenhum. Somos ecologicamente corretos, até o sabão para lavar as escamas é ecológico, para tingir usamos outros materiais da natureza, como chás e ervas. Também os únicos que cortam as escamas. Toda isso impacta na qualidade das nossas peças”, afirma.

Os materiais são vendidos em feiras pelo território brasileiro, na Casa da Alfandega, em Florianópolis, e na Rota Açoriana, além das encomendas particulares. O faturamento é variável, podendo chegar em até dez salários mínimos nos meses de vendas em alta e os valores dos produtos vão de R$ 10 a R$ 1.250. “Fim do ano, com o verão, como aumenta a quantidade de turistas, ao mesmo tempo crescem as nossas vendas”, diz Alzira.



A maioria das peças são feitas com escamas selecionadas. Todo qualquer tipo de peixe serve, mas há aquelas que dão um toque especial nos produtos. “Tainha, corvina e miraguaia são os peixes que mais trabalhamos. A miraguaia é comum no litoral do Uruguai, pegamos em Laguna em barcos que vão lá pescar. E a corvina é mais especial, porque depois de limpa, a escama dela parece uma madrepérola”, destaca.

Repassar conhecimento

A aceitação tem sido tão positiva, que Alzira, auxiliada pelos filhos, já tem planejado os próximos passos da Pontos & Escamas. “Queremos dar cursos online”, resume. “Não vou morrer cortando escamas e o conhecimento precisa ser repassado. Então é o que pretendemos fazer”, complementa.

Mas ela sabe das dificuldades que irá encontrar. “O artesanato é trabalho. É possível fazer renda com a arte, mas é preciso trabalhar. Para conseguir fazer as peças que fazemos, é preciso ter identificação com a técnica. Eu, por exemplo, corto 300 escamas em 15 minutos”, acrescenta. Por mês, a marca chega a fabricar aproximadamente 1,5 mil peças. O trabalho da Pontos & Escamas pode ser conhecido também no Instagram e Facebook da marca. Pedidos podem ser feitos pelas redes socias, com entregas para todo o Brasil.