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O seu churrasco pode ficar mais barato; entenda os motivos

Embargo chinês tem afetado o mercado trazendo boas notícias para os consumidores
O seu churrasco pode ficar mais barato; entenda os motivos
Foto: Mapa/Divulgação
Por Thiago Hockmüller Em 27/10/2021 às 15:39

Ainda que timidamente, o preço da carne bovina está caindo para os consumidores. Estima-se que nas últimas duas semanas, a redução tenha alcançado cerca de 2% nos mercados e açougues, queda associada ao embargo da China à importação da carne brasileira, iniciada em setembro e motivada pelo registro de dois casos de vaca louca em frigoríficos de Minas Gerais (MG) e Mato Grosso (MT).

A conta é simples: com as exportações para a China paralisadas, aumenta a oferta de carne para o mercado interno e o preço cai. Mas a redução poderia ser ainda maior, conforme avalia a regional Sul da Associação Catarinense dos Supermercados (Acats). Por outro lado, caso o embargo continue, os consumidores podem esperar uma carne bovina mais em conta nos freezers dos mercados.

“(A queda) está chegando de forma lenta. O preço tende a dar uma reduzida, mas não sabemos se voltará ao padrão de dois anos atrás. Pelo embargo esperávamos que a redução tivesse sido maior e mais rápida. Percebemos uma queda de mais ou menos 2% e acreditamos que deveria cair mais 3% se permanecer o embargo chinês”, explica o vice-presidente regional Sul da Acats, Ricardo Althoff.

O embargo chinês afetou diretamente a exportação da carne produzida em estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul (MS) e São Paulo (SP). Para Santa Catarina (SC), a influência é menor, já que a carne bovina produzida aqui não abastece o mercado chinês embargado, apenas Hong Kong que não está sob suspenção. Mas como SC compra de outros estados da federação mais da metade da carne consumida no estado, o reflexo passa a ser indireto, só que mais demorado.

Tendência de queda

Segundo dados do analista de socioeconomia da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural (Epagri) de Santa Catarina, Alexandre Giehl, entre setembro e outubro o preço do boi gordo caiu entre 4% e 5% no estado, enquanto em MT, MS e SP a queda chegou aos 7%. Ele também explica que o percentual repassado ao consumidor não alcançou sua totalidade, já que os frigoríficos ainda possuem estoques com o preço anterior e também reduziram a produção justamente para não desfavorecer bruscamente o preço. Com a manutenção do embargo, a produção também tende a normalizar e o preço cair.

“Os frigoríficos, de forma geral, tentam segurar o preço de atacado reduzindo a escala de abate e estocando a produção abatida até início de setembro para exportação. Eles podem manter estocados, pois não são obrigados a colocar a carne no mercado. Fazem isso para segurar os preços, mas a tendência é que quanto mais o embargo continue, mais o preço cairá acentuadamente”, pondera.


Acats diz que preço já caiu cerca de 2% para os consumidores. (Foto: Governo de Rondônia/Divulgação)

Outro fator que contribuirá para a redução do preço da carne bovina é o necessário estímulo para aumentar o consumo deste produto. Desde o início do ano passado, o preço da carne subiu bruscamente e afetou o consumo no mercado interno, ou seja, o tradicional churrasco passou a ser feito com carne suína e de frango. Agora, com a carne estocada nos frigoríficos e com o criador de gado, sobretudo de confinamento, onde o custo de produção também subiu expressivamente nos últimos anos em função do preço do milho e da soja, precisando levar a produção adiante para evitar prejuízos, o preço necessariamente precisa reduzir.   

“O consumo de carne bovina está baixo e a tendência é que se repasse para estimular. Os comerciantes sabem que com aumento da oferta, os preços caem ainda mais, então precisam estimular o consumo para evitar que a carne encalhe nos açougues. O cenário é de queda no preço”, avalia.

Para o consumidor é uma boa notícia. Para o produtor não, principalmente para os que trabalham com confinamento. O de pasto o custo de produção não subiu tanto. O produtor que engorda o gado em confinamento depende do milho e da soja para alimentação. Como o milho e a soja subiram muito nos últimos anos, o custo de produção aumentou expressivamente, então ficam com margens apertadas. A tendência é que daqui algumas semanas veremos de forma mais efetiva os preços caindo, isso se o embargo seguir.

Alexandre Giehl, analista de socioeconomia da Epagri
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Consumo de carne bovina no mercado brasileiro deve crescer nas próximas semanas. (Foto: Abiec/Divulgação)

Embargo até quando?

O resumo da ópera é que quanto mais o governo chinês demorar para retomar a importação da carne bovina brasileira, mais o preço cairá para o consumidor no mercado interno. Giehl explica que o governo brasileiro já apresentou as devidas explicações e soluções para o problema e que naturalmente a China já deveria ter liberado o comércio, todavia, outros motivos podem explicar a manutenção do embargo. Para o analista da Epagri, a China pode estar pressionando a negociação de contratos e também se utilizando de estoque para manter a oferta interna e evitar a elevação de preços. 

“São hipóteses. É difícil prever até quando vai se manter o embargo. Tivemos situação semelhante quando houve outro caso atípico de vaca louca e naquela oportunidade durou 13 dias. Já estamos com cerca de 50 dias e não há sinal de reabertura. A China tem o principal fornecedor que é o Brasil, mas não sabemos o volume de estoque que eles tem, que é usado para superar períodos de escassez. Possivelmente vão utilizar estoques para manter a oferta interna e evitar a elevação de preços, mas em algum momento vão recorrer às importações”, argumenta.

Para onde vai a produção catarinense?

Segundo dados da Epagri, Santa Catarina produziu no ano passado 165 mil toneladas de carne bovina. Como o estado é deficitário na equação produção x consumo, grande parte é comercializada aqui mesmo em solo catarinense. A conta é mais ou menos essa: produz apenas metade do que consome.

“Para que tenhas uma ideia, cerca de 80% da nossa produção de carne provém de frigoríficos com inspeção municipal e estadual. Ou seja, sequer podem ser comercializados com outras unidades da federação. Mesmo da produção oriunda de frigoríficos com inspeção federal, a maioria absoluta é consumida em Santa Catarina”, explica o analista de socioeconomia da Epagri, Alexandre Giehl.

Já as exportações representam uma parcela pequena do mercado da carne bovina catarinense. Ainda conforme dados da Epagri, em 2020 o estado exportou 3,06 mil toneladas de carne bovina, menos de 2% da produção. E cerca de 50% dessas exportações são destinadas à Hong Kong. “Embora Hong Kong seja uma região administrativa especial da China, até o momento as exportações para esse destino não foram afetadas pelo embargo”, justifica.

Estima-se que a mesorregião Sul Catarinense, que reúne as microrregiões de Tubarão, Criciúma e Araranguá, produziu 23,5 mil toneladas de carne bovina em 2020.