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Banco Central identifica raízes do crédito caro no Brasil

A concentração bancária e a competição no sistema financeiro são as variáveis analisadas
Banco Central identifica raízes do crédito caro no Brasil
Por Redação Engeplus Em 18/10/2019 às 14:06

Um novo estudo especial divulgado pelo Banco Central investiga a origem dos altos spreads bancários no Brasil. A concentração bancária e a competição no sistema financeiro são as variáveis analisadas no estudo “Concorrência bancária e custo do crédito”.

O spread é a diferença entre o que o banco paga ao tomar um empréstimo e o que ele cobra para conceder o empréstimo – uma espécie de ágio bancário. O spread brasileiro é um dos mais altos do mundo, e isso torna o empréstimo extremamente caro. Sem um empréstimo fácil, empresas e cidadãos em geral têm mais obstáculos para fazer investimentos produtivos.

O ovo ou a galinha

A concentração bancária é identificada por muitos economistas como a principal causa de altas taxas de juros, que encarecem o preço do empréstimo – e, portanto, o spread. Uma análise financeira do Brasil feita pelo Fundo Monetário Internacional do ano passado conclui que a concentração em certos contextos leva a essa alta.

Por outro lado, o Banco Central refutou essa tese, indicando que não há prova de causa e consequência entre os dois fatores.

Uma grande causa de incerteza do diagnóstico sobre o crédito nacional é que, por um lado, a concentração bancária pode levar a juros maiores. Por outro lado, juros altos podem levar a menos concentração de mercado.

O estudo do Banco Central parte de dados sobre fusões e aquisições entre bancos dos últimos anos para chegar à conclusão de que a diminuição da competição entre bancos no nível dos municípios reduz a oferta de crédito e aumenta os spreads, mas apenas em situações em que o município já conta com grau baixo de competição.

Entretanto, em situações em que existe boa competição local, a concentração bancária (como fusões entre bancos) pode levar a ganhos de escala e de eficiência produtiva. Esses ganhos podem compensar a diminuição da concorrência nos custos ao consumidor e baratear os empréstimos.

Esse cenário da competição não atrapalhada pela concentração bancárias tende acontecer em mercados que contam com maior número de bancos. No entanto, a maioria dos municípios brasileiros tem dois bancos ou menos – ou seja, baixa competição no mercado financeiro.

O estudo também aponta as tecnologias digitais como atores que podem contribuir para a ampliação e o barateamento de crédito. O motivo para isso é a possibilidade de aumentar a concorrência sem obrigar as empresas e estabelecer presença física em cada município.

Esse último tópico já se observa nos últimos anos, com grande profusão de bancos digitais e correspondentes bancários virtuais. Hoje, um empréstimo pessoal para negativado é algo fácil de se obter sem sair de casa, com pesquisa, comparação de preço e contratação de serviços financeiros pela internet.

Contra o senso comum

Um dos aspectos mais interessantes do estudo é afirmar que alta concentração no mercado financeiro não necessariamente significa baixa competitividade. Como exemplo, são citados o setor de aviação comercial nos Estados Unidos (concentrada, mas com baixos retornos, devido à alta concorrência) e cartéis em mercados desconcentrados (como os de provisões de serviços ao poder público).

Essas não são afirmações inédita na teoria econômica, mas contradizem muitas ideias veiculadas a respeito do sistema financeiro brasileiro e o custo do crédito.

O novo estudo ajunta-se a outros esforços analíticos recentes do Banco Central, que identificam a inadimplência e os altos custos administrativos como fatores relevantes sobre o spread bancário – o que não significa que a entidade é a favor da concentração bancária, tendo manifestado em mais de uma ocasião que fusões e aquisições bancárias no Brasil atual devem seguir critérios restritos.