InternetData CenterAssinante

Título nacional, frustração em 2008 e anos que marcaram: as memórias de Cláudio Luiz pelo Criciúma

Em entrevista ao Entrando de Carrinho, ex-zagueiro relembra passagem pelo Tigre
Título nacional, frustração em 2008 e anos que marcaram: as memórias de Cláudio Luiz pelo Criciúma
Foto: Arquivo/Engeplus
Por Eduardo Madeira Em 04/04/2020 às 10:30

Os torcedores do Criciúma que estão na faixa dos 20 aos 30 anos certamente se lembram de Cláudio Luiz. Não era lá dos zagueiros mais técnicos, mas, do alto dos seus 2 metros de altura, esbanjou raça com a camisa carvoeira e passou três temporadas de pura identificação com o clube.

Entre 2006 e 2008, o defensor, hoje aposentado e vivendo na Bahia, disputou 128 partidas pelo Tigre e, aproveitando sua estatura, deixou 17 gols - mais do que muito centroavante que por aqui passaram. Neste ínterim, ergueu a taça do Campeonato Brasileiro da Série C, último título nacional do clube, e foi vice do Catarinense em duas oportunidades.

Ao Entrando de Carrinho, Cláudio Luiz resgata essas memórias. Ele enaltece a força e união do elenco campeão em 2006, relembra os títulos estaduais que escaparam do Tigre e conta detalhes do que ocorreu nas duas edições da Série B que disputou pelo carvoeiro, onde viu o então líder de 2007 despencar a ponto de ser rebaixado na temporada seguinte.

Confira:

Entrando de Carrinho: Você chegou ao clube em 2006, quando o Criciúma estava na Série C. O que lembra daquele período?

Cláudio Luiz: Cheguei em 2006, depois da saída do Vitória, em uma turbulência que tive lá, com uma queda para a Série C. O Vitória estava com muitos débitos, aí tive o convite do Edson Gaúcho de vir pro Criciúma. E, com certeza, foi uma época muito boa e marcante, já que minha filha nasceu em Criciúma. Ainda tivemos o êxito de ser campeões brasileiros da Série C, o que foi um marco muito grande. Foi a felicidade plena no segundo semestre: o nascimento da minha filha e a gente ser campeão brasileiro. Está marcado até hoje para mim e todos os torcedores.

Falando do título da Série C, ela ficou marcada pela vitória por 6 a 0 sobre o Vitória, que coincidentemente era o seu ex-time. Qual a principal lembrança daquele jogo?

Eu saí do Vitória na justiça e eles não queriam me liberar. Estava há quatro meses, quase cinco, sem receber salários. Entrei com uma ação para poder ser liberado e acontecer esse 6 a 0 foi um marco, principalmente pra gente aqui em Salvador. Até quando cheguei de viagem, tinha bastante imprensa no aeroporto falando daquele jogo. É uma lembrança que vai ficar na minha memória, não tem como apagar. Foi um jogo maravilhoso, principalmente pela situação que nosso amigo Paulo César estava passando com a filha dele. Na preleção, teve os vídeos da filha dele, que estava no hospital. Então, entramos muito focados, muito ligados, naquela ansiedade de fazer um grandíssimo jogo para agradecer pelo que ele estava passando. Transferimos a força que ele precisava e demos um marco na nossa história dentro do Criciúma.

Aquele Criciúma de 2006 foi o melhor time que você já jogou na carreira?

Não digo o melhor, mas um dos. Tive muitos momentos bons em outras equipes, mas em termos de qualidade, jogadores individuais, pode colocar, sim. Depois, muita gente saiu e foi para times maiores. Tinha um elenco muito bom. A gente tinha uma união tão grande que, daquele grupo, de 27 ou 28 jogadores, tenho contato com uns 20. Temos uma amizade muito boa, de mandar mensagem um pro outro. Isso é gratificante.

Já em 2007, o Criciúma chegou até a final do Campeonato Catarinense, mas perdeu a final em casa para a Chapecoense. O que faltou para conquistar o título naquele ano?

A gente lamenta quando perde um título, mas faltou um pouco de sorte. A gente estava com o jogo dominado. Se bem lembro, foi uma falta no fim do jogo onde a Chapecoense fez o gol. Foi falta de sorte porque fizemos um bom jogo. Na situação que estava, achávamos que seríamos campeões, estávamos melhores no jogo. Mas é questão de final, só acaba quando o juiz apita. Foi um apagão naquele momento, uma situação rápida e tomamos o gol.


Foto: Arquivo/Engeplus

E na Série B, o Criciúma teve um 1º turno incrível. Foram 11 vitórias, quatro empates e quatro derrotas. Mesmo assim, o time ficou distante de subir. O que aconteceu para o time dar aquela arrancada e depois cair tanto?

Com certeza foi a saída de alguns jogadores. Tínhamos um grupo maravilhoso, um grupo muito forte. Teve um jogo contra a Portuguesa no Canindé e lembro que [Vágner] Benazzi era técnico deles. Ele chegou ao vestiário e nos deu parabéns. Ele falou que na preleção dele tinha dito que uma vaga era do Criciúma, que não tinha como tirar. A gente sabe que o dinheiro no futebol permite muitas coisas. O presidente [Moacir Fernandes] começou a vender muitos jogadores e os que chegaram não se encaixaram e sofremos. E, na minha opinião, não poderia ter tirado o Gelson Silva. Ele tinha o grupo na mão e a troca de treinador prejudicou muito o Criciúma. Influenciou muito.

Como o elenco absorveu a saída do Gelson Silva? Foi determinante de que maneira pra não subir?

Os atletas que ficaram sentiram muito a saída dele. Queira ou não queira, perdemos alguns jogos por 1 a 0, não estávamos tomando goleadas, mas não estávamos conseguindo fazer os gols, e após a saída de jogadores como o Clodoaldo [negociado com o Corinthians], o próprio Fernandinho [vendido ao Cruzeiro], a gente sentiu muito. Era dar tempo ao tempo para o Gelson tentar arrumar de novo o time. Também não sei pela politicagem no clube, a gente não se metia, mas o que sentimos muito, principalmente os atletas que ficaram, prevaleceu um pouco.

Já em 2008, veio outro vice do Catarinense, num torneio de regulamento estranho. Derrota pro Figueirense por 1 a 0, vitória na volta por 3 a 1, mas o jogo foi para prorrogação e ali veio a derrota. Você, inclusive, fez dois gols na decisão. O que faltou também para a taça?

Pra mim, foi muito frustrante, ainda mais por fazer dois gols na final. Um campeonato que foi armado de forma errada. Você joga fora, perde por 1 a 0, em casa ganha por 3 a 1 e ainda não leva o título. Depois vem a prorrogação, com aquela chuva, aquela tensão. Nesse aspecto, fomos prejudicados pelo campeonato ser daquela forma. Foi frustrante, porque fizemos um grande jogo e, no final, tomamos aquele gol. Continuamos em cima e ainda tínhamos que empatar para ter os pênaltis, acho que o regulamento foi de forma equivocada. Foi um aprendizado que levei pra vida, mesmo que de forma triste.

Em 2008 também, você participou daquela marcante eliminatória contra o Vasco pela Copa do Brasil. Muita gente lembra, por exemplo, da atuação do Edmundo naquela noite, preponderante pra eliminação do Tigre. Que lembrança você carrega daquele jogo?

Foi mais um marco. Estávamos jogando contra o Vasco, que era Série A, tinha Edmundo, um elenco maravilhoso e a gente teria que bater o Vasco para ter uma ascensão ainda maior. Até onde lembro, fizemos um jogo muito bom. Edmundo, na fase que sempre teve, e a gente tentando neutralizar, fazendo o possível e o impossível. Sabíamos que a obrigação era do Vasco em ganhar o jogo. Mas fica a lembrança do bom jogo que fizemos.

Já olhando para a Série B, aquele time de 2008 provocou muita expectativa, com jogadores como Jardel, Luis Mário e outros. Por que a coisa não andou e o time foi rebaixado?

Aconteceram muitas coisas internas. Teve muita desunião, o grupo era muito desunido. Alguns gostavam de farra e tinham a união deles. Quem não gostava, estava fora. Começou por aí, com muita fofoquinha, muita coisa errada. Pra mim, foi muito frustrante porque, na época, tive uma proposta muito boa do Coritiba e Edson Gaúcho não quis me liberar. Também tive uma lesão muito grave e fiquei muito tempo parado. Quando voltei, teve muita coisa com o treinador Paulo Campos. Até hoje a gente não se fala. Já encontrei ele em alguns cursos e não nos falamos. Então, para ter sucesso, temos que ter unidade dentro de um clube. Era muita coisa errada, muita desavença, muitos jogadores que só queriam saber de balada. É esquecer as coisas ruins e ter as boas lembranças do Criciúma, porquê 2008, depois do Catarinense, não tenho tantas lembranças boas, não.

Ficou uma mágoa por sair do clube desta forma, com um rebaixamento?

Do clube, não, não tenho mágoa nenhuma. Mas, por algumas formas que foram colocadas, que chegaram pra mim, ficam alguns sentimentos. Sabia que não era hora para sair da forma que foi, pelo momento que o clube passava. Tinha mais obrigação de reerguer de novo, mas foi tranquilo. Tive coisas boas depois que saí, mas o sentimento do Criciúma sempre foi maravilhoso. Tenho uma gratidão muito grande, torço demais. Quando o Criciúma vem em Salvador, vou rever amigos e é isso que a gente leva, saber que por onde passou, deixou coisas boas.

Ping-pong: melhor parceiro de zaga no Tigre?

Melhor dupla de zaga que fiz na carreira foi o Sílvio Criciúma.

Melhor jogador no geral que teve como companheiro pelo Criciúma?

Pra mim, Douglas e Fernandinho, não tem comparação para eles, não.

E o melhor treinador?

Tenho dois: Edson Gaúcho e Gelson Silva. Tem o [Guilherme] Macuglia também, mas ele pegou o bonde andando de Edson Gaúcho.

E hoje, já aposentado do futebol, o que você faz da vida?

Faz três anos que parei de jogar. Hoje, tenho duas lojas de calçados, onde seguimos a vida com a minha esposa. E, agora, comecei a fazer os cursos. Jogo pela seleção baiana de futebol e muita gente diz que tenho perfil para ser treinador ou até diretor de base. Já tem alguns cursos e vou procurar depois fazer mais cursos para ingressar na carreira de treinador.