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O que mudou no jeito de jogar do Criciúma?

Bom começo de Série C faz torcida do Criciúma alimentar uma breve empolgação com o time
O que mudou no jeito de jogar do Criciúma?
Foto: Celso da Luz / Criciúma EC
Por Eduardo Madeira Em 02/09/2020 às 17:30

A boa largada do Criciúma na Série C do Campeonato Brasileiro já faz os mais empolgados torcedores sonharem com dias melhores, mesmo que seja tudo muito precoce. Afinal de contas, são 7 pontos de 9 possíveis e uma invencibilidade que deixa o Tigre nas cabeças do Grupo B tendo um jogo por fazer. Mas, afinal de contas, o que mudou no time que se arrastava no Campeonato Catarinense para a equipe que encara o Volta Redonda no próximo domingo, dia 6, podendo assumir a liderança da chave?

A maioria vai apontar diretamente para o sistema tático adotado por Roberto Cavalo. O treinador abriu mão do 4-2-3-1, que variava para o 4-3-3, e passou a adotar um 4-4-2 com um meio-campo em losango. Parece ser a justificativa mais simples a ser creditada, mas é preciso sempre mencionar que o esquema tático é apenas o ponto de partida e que na prática diz pouca coisa sobre a forma de jogar. As ideias aplicadas em campo, a maneira como os jogadores se movimentam e como isso é coordenado faz muito mais sentido do que simplesmente apontar o dedo para a troca do esquema.

No fundo, a mudança do sistema tático talvez seja a menor das razões para a evolução do Criciúma em poucos jogos. Por isso, separei alguns lances de jogos recentes, como forma de comparação, para entendermos coisas que mudaram em questão de posicionamento e que ajudaram a fazer o time jogar mais.

O primeiro jogo que vamos observar alguns frames é a derrota por 1 a 0 para a Chapecoense, na ida da semifinal do Estadual. Cavalo mandou o Criciúma no 4-2-3-1, com Eduardo e Foguinho a frente da zaga, Alisson Taddei na articulação e Léo Ceará e Jean Dias pelos flancos. Thiago Henrique foi o homem mais adiantado na formação, como mostra a imagem abaixo.


Foto: Reprodução/Futebol Catarinense.tv - Criciúma enfrentou a Chapecoense no 4-2-3-1, com Foguinho e Eduardo na primeira linha do meio-campo e Jean Dias, Taddei e Léo Ceará atrás do centroavante Thiago Henrique

Aquela partida, em si, foi muito ruim por parte do Criciúma. Muito preocupado em defender, o Tigre criou pouco e João Ricardo, goleiro adversário, praticamente nem sujou o uniforme. Uma das razões apontadas para isso pode ser a falta de aproximação no ataque.

No frame abaixo, você pode notar pelo menos cinco jogadores do Criciúma no setor - há ainda Léo Ceará, o sexto, que não aparece na imagem - e todos estão distantes um do outro. Uma das opções, Adenilson, está de costas para o detentor da posse da bola. A Chape, organizada, estava em maioria e tinha nove jogadores posicionados, forçando Jean Dias a buscar uma jogada individual para tentar alguma coisa.


Foto: FutebolCatarinense.tv - Com o time distante, Jean Dias é forçado a fazer uma jogada individual

No 2º tempo, começamos a observar um esboço do que viria na Série C. Cavalo sacou Taddei, colocou Christofer, que passou a atuar a frente da zaga, soltou Foguinho e Eduardo e fez com que Jean Dias e Léo Ceará se alternassem como meia, atrás do centroavante. Sem tanto sucesso, já que Christofer se eximia na saída de bola e forçava Foguinho a retornar para cumprir essa função, Cavalo deslocou o volante para a lateral direita e puxou Adenilson para o meio, como nota-se na imagem abaixo.


Foto: FutebolCatarinense.tv - Neste frame, Léo Ceará se aproxima do tripé de meio-campistas centrais para tentar fazer a bola circular

Agora, reveja a primeira imagem e compare abaixo como o desenho do time mudou na vitória por 3 a 1 sobre o São Bento, na 3ª rodada da Série C. Já era visível um 4-3-1-2, com Eduardo na base, Foguinho e Jean Lucas fazendo o balanço pelos lados e Taddei mais a frente, municiando os homens de frente. Na prática o que mudou? Time mais agrupado, Foguinho e Jean Lucas por dentro abrem caminho para as subidas dos laterais - Victor Guilherme foi um dos que subiu muito de produção - e há muito mais gente no ataque pronto para finalizar.


Foto: Reprodução/MyCujoo - Contra o São Bento, Cavalo já adotou um losango no meio-campo, desenho adotado também contra o Boa Esporte

Até mesmo sem a bola foi notada uma diferença importante. Perceba que Foguinho já não fica mais à frente da defesa, como ocorria antes. Quem fez essa função ao lado de Eduardo é Jean Lucas, que veste a camisa 10, mas atua quase como um 8, diriam os antigos.


Foto: Reprodução/MyCujoo - Sem a bola, Criciúma tem se fechado com duas linhas de quatro

O fator Foguinho

Foguinho, aliás, é um personagem a ser citado neste novo momento do Criciúma. Em meus primeiros espaços no Entrando de Carrinho, falei abertamente que enxergava nele potencial para atuar pela beirada, explorando suas virtudes ofensivas, especialmente infiltrando na grande área pela direita.

Cavalo, porém, parecia pensar diferente. Foguinho chegou a ser o primeiro homem do meio-campo, aquele a frente da zaga, fazendo a saída de bola. Parecia ser uma função que limitava muito o jogador, que não conseguia chegar ao ataque, tampouco agregava muito na saída de bola. Perceba neste breve momento contra a Chapecoense. O Criciúma teve a bola nos pés por quase dois minutos, Foguinho chega junto dos zagueiros algumas vezes, mas a pelota não sai da defesa e a jogada não dá em absolutamente nada.

Atuando com mais liberdade na Série C, Foguinho tem sido muito mais útil. Contra o Londrina, sofreu o pênalti desperdiçado em seguida por Michel. Contra o Boa Esporte, chegou a perder um gol na pequena área. Diante do São Bento não chegou a ter participação tão efetiva no ataque, mas sempre deu opção de infiltração, como nota-se nesse registro abaixo, onde Michel sai da área e o camisa 8 preenche o espaço deixado pelo centroavante.


Foto: MyCujoo - Michel deixa a área, abre brecha na área e Foguinho infiltra entre os zagueiros

A leitura de Foguinho junto de Jean Lucas, aliás, é a ação chave para que esse novo sistema dê certo até aqui. Os dois se alternam sobre quem sobe e raramente deixam Eduardo sozinho na marcação. Além disso, são dois atletas de perfis diferentes e que se complementam. Foguinho é a velocidade na condução de bola, de jogo mais intenso. Já Jean Lucas é mais técnico, trabalha com a bola no pé, passando e auxiliando na armação.

Por isso que é importante dizer que a chegada dos novos reforços também foi fundamental nessa virada de chave do Criciúma. O perfil técnico de Jean Lucas e o senso de posicionamento na área de finalização de Michel se encaixaram muito bem no time de Cavalo e os dois têm considerável dose de responsabilidade na mudança no jeito de jogar do Criciúma.

São pontos a serem valorizados de um início empolgante de uma equipe que não vinha dando nenhum motivo para suspiros elogiosos pouco tempo atrás.