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Nova Estação Comandante Ferraz

Arquitetura para o frio
Nova Estação Comandante Ferraz
Foto: Estúdio 41
Por João Rieth Em 17/01/2020 às 16:36

Qual a solução que você daria se tivesse que  projetar um espaço que resistisse a ação de ventos de mais de 100km/hora, temperaturas de até 50 graus negativos e a possibilidade de abalos sísmicos?  Este foi o desafio que o escritório de arquitetura, Estúdio 41, de Curitiba, venceu no concurso organizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), em 2013, para a instalação  da nova base brasileira na Antártida e que será a nova casa de pesquisadores e oficiais da Marinha, após o incêndio que destruiu as instalações da Estação Comandante Ferraz, ocorrido em 2012.

 

O projeto

Pensar em um projeto para ser construído em condições inóspitas e completamente desconhecidas poderia ser considerado uma loucura ou uma oportunidade para se desafiar a ir além. E foi este segundo caminho o escolhido pelos arquitetos do Estúdio 41,  para a nova Estação Comandante Ferraz.

O formato dos dois volumes da estação contribuiu para a eficiência energética da edificação e foi uma solução para que a área de 5 mil m² não ultrapassasse o limite relacionado às restrições dos ambientes destacadas pelo edital. A divisão do programa linearmente possibilitou ainda que os módulos tivessem largura que permitisse o transporte deles em navio e a implantação em dois níveis de altura. Desta forma, todos os ambientes dispõem de janelas com vista para o exterior, o que promove conforto psicológico aos pesquisadores e marinheiros que passam temporadas na estação.

As soluções e materiais utilizados na construção da estação diferem das utilizadas em edifícios comuns. Para compreender as características do local e especificar aqueles mais eficientes para garantir a segurança, conforto e eficiência da edificação, os arquitetos contaram com a participação de consultores especializados e informações compartilhadas por pesquisadores, empresas e integrantes da Marinha que conheciam a área ou regiões com características climáticas extremas, assim como os materiais capazes de resistir a elas. Isso fez com que portugueses, argentinos, chilenos, italianos, espanhóis, alemães e canadenses contribuíssem, direta ou indiretamente, com a proposta. A envoltória dos módulos (fachada, cobertura e parte inferior), por exemplo, é feita a partir de um painel sanduíche de poliuretano, material isolante térmico comumente utilizado pela indústria frigorífica.

As esquadrias foram outro ponto que receberam destaque no projeto. Para que se garantisse a eficiência térmica a partir da redução das trocas de calor entre os ambientes interno e externo pelas aberturas. Elas são compostas por uma camada quíntupla de vidro: duas internas e três externas, entre as quais há, ainda, uma camada de ar (excelente isolante térmico).

A montagem da estação foi toda realizada em solo Antártico a partir da conexão dos módulos pré-fabricados, que já traziam revestimentos, esquadrias, pontos hidráulicos e elétricos instalados, recebendo apenas ajustes de acabamentos. A construção comporta 17 laboratórios da estação brasileira, alojamentos, áreas técnicas, cozinha e espaços sociais – como biblioteca, academia, sala de vídeo e área para refeições , além de uma ala médica, um depósito de alimentos e da garagem. Nela, além dos veículos, estão acondicionados caldeiras, geradores e estação para incineração do lixo orgânico e separação, compactação e depósito do material reciclado (que é enviado de navio para o Brasil, uma vez que não se pode deixar resíduos em solo Antártico).

Com 70% das reservas de água doce do planeta e devido ao impacto que as alterações em sua composição podem causar ao restante do globo, seria natural imaginar que soluções de sustentabilidade fossem contempladas em um projeto que tem a Antártida como local de implantação. Entre elas estão, por exemplo, fontes eólicas e solares de energia. As placas são instaladas com uma inclinação de 90° (e não dos habituais 45°) pelo fato de o sol correr no horizonte. Estima-se que as estruturas sejam capazes de gerar 30% da energia necessária às operações da base. À chaminé do gerador possui uma serpentina para aquecer a água, uma forma de não desperdiçar a fonte de calor. O mesmo ocorre com a água do banho que, ao escorrer pela tubulação do ralo, também contribui para aquecer a água limpa que sobe para o chuveiro.

Eron Costin, Fabio Henrique Faria, Martin Kaufer Goic, João Gabriel e Emerson Vidigal, são os arquitetos responsáveis .