InternetData CenterAssinante

Madeira: um material do futuro

Exemplos de projetos com madeira laminada cruzada
Madeira: um material do futuro
Foto: Architects Journal/ Arch Daily / Kivi Sotamaa
Por João Rieth Em 04/05/2020 às 11:49

Com muita frequência, o desenvolvimento de novas tecnologias e o surgimento de novos materiais faz com que o mundo da arquitetura e do design se renove completamente. O concreto foi a força motriz do Império Romano, o aço por sua vez, permitiu densificar nossas cidades e construir edifícios muito altos. Ainda que a madeira nos acompanhe desde os primórdios da história da humanidade, as novas tecnologias estão nos ajudando a transformá-la em um material cada vez mais versátil, resistente e sustentável. Apesar de ser um material naturalmente heterogêneo e que demanda um processo de montagem bastante elementar, a madeira como um material de alta durabilidade é um recurso renovável com capacidade de fixar carbono - ao invés de liberá-lo – e tem inspirado a indústria da construção civil a investir fortemente em seu futuro.

A madeira laminada cruzada (CLT cross laminated timber), um sistema construtivo altamente resistente composto por inúmeras camadas de madeira serrada e colada, foi desenvolvido pela primeira vez na Europa no início dos anos 90, passando despercebido até os anos 2000 e só foi introduzido no Código Internacional da Construção Civil em 2015. Vários profissionais independentes e pesquisadores têm se dedicado ao desenvolvimento e aplicação de novos métodos de fabricação, técnicas de projeto e softwares de análise e visualização.

 

Em 2018, os alunos da Universidade de British Columbia, no Canadá, sob orientação da professora  AnnalIsa Meyboom, se uniram  a David Correa da Universidade de Waterloo, Oliver David Krieg da Intelligent City e outras 22 empresas para projetar e construir a terceira versão do Wander Wood Pavilion, uma estrutura treliçada de madeira composta apenas de elementos únicos e não repetíveis.Aproveitando os recursos tecnológicos avançados de fabricação disponíveis no Centro de Processamento Avançado de Madeira, da UBC, incluindo uma fresadora CNC e outros equipamentos automatizados para a fabricação de peças de madeira, o projeto foi tanto uma oportunidade de aprendizado para os alunos quanto uma demonstração de que a madeira é um material viável e comparável – se não superior – ao concreto e ao aço, o qual combinado com o uso de novas tecnologias está provando ser um material cada vez mais relevante . Enquanto a estrutura do pavilhão foi pré-fabricada e montada no local em apenas três dias, o processo de projeto demandou mais  tempo. Para o desenvolvimento da proposta do pavilhão, a equipe de projeto estabeleceu um fluxo de trabalho bastante rigoroso, mesclando processos interativos de análise computadorizada e testes físicos, além de uma linha de fabricação. Cada peça do pavilhão era única e foi fabricada para depois ser encaixada ao restante da estrutura. O projeto do Wander Wood Pavilion foi concebido como parte do programa de formação da UBC, uma estratégia que pretende aproximar os alunos à indústria da construção civi, estabelecendo uma relação direta entre os processos de projeto e construção baseados em tecnologia.

Já Gilles Retsin, arquiteto e professor da Bartlett School of Architecture, de Londres, tem se dedicado, há um bom tempo, a estudar sistemas inteligentes de projeto de arquitetura assim como novos processos de construção. Recentemente, uma mudança de foco para a pesquisa e o desenvolvimento de projetos em madeira laminada colada provocou uma mudança decisiva em seu trabalho. Em 2019, Retsin fabricou e construiu uma estrutura monumental de madeira na Royal Academy de Londres. A instalação foi o primeiro projeto de arquitetura fabricado utilizando  a  realidade aumentada na construção modular em madeira. Como o próprio arquiteto disse, a realidade aumentada foi “utilizada para enviar instruções a partir do modelo digital diretamente para a equipe de montagem no local. Esta tecnologia, portanto, nos auxilia a  melhor entender como seria um processo de construção totalmente automatizado, onde um modelo digital se comunica diretamente com as pessoas ou os robôs que trabalham na construção in loco.”

Kivi Sotamaa, arquiteto finlandês,  é  o principal responsável em desenvolver e aplicar novas soluções construtivas em projetos de madeira em pequena escala, reinventando a maneira como o material está sendo utilizado na construção de casas unifamiliares, no seu país e no mundo.Chamada de ‘Meteorito, a casa de três pavimentos que o arquiteto projetou nos arredores de Helsinque, foi completamente construída em madeira CLT. Neste projeto, utilizou uma estratégia organizacional que ele mesmo apelidou de “desajuste”. O sistema de desajuste cria duas soluções formais distintas, de forma a criar espaços intersticiais do tamanho de uma sala que atuam simultaneamente como uma caixa de isolamento, espaços de armazenamento e área técnica da casa. Ao todo, estima o arquiteto, a estrutura de CLT da casa é capaz de sozinha, fixar cerca de 60 toneladas de dióxido de carbono da atmosfera.O projeto do Meteorito foi desenvolvido e apresentado ao cliente utilizando o que há de mais novo em tecnologias de realidade virtual, e Sotamaa espera incorporar ainda mais novidades ao seu processo de projeto e fabricação de edifícios em madeira, incluindo a realidade aumentada, que permitirá ao arquiteto se comunicar com a equipe de montagem em tempo real através do modelo virtual do edifício, em seu escritório. “Quando as peças chegam na obra, já separadas em ordem de montagem e com instruções claras”, explica Sotamaa, “a montagem do quebra-cabeça se transforma em algo extremamente simples e rápido; um processo que economiza tanto energia quanto recursos naturais, principalmente quando comparada aos processos mais convencionais de construção.”

No Brasil ainda não existem normas específicas para o cálculo estrutural dos painéis em CLT. Portanto, recomenda-se o uso da norma Européia ou Canadense.