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E depois da Pandemia?

Mudanças previstas
E depois da Pandemia?
Foto: João Rieth novas soluções após a pandemia
Por João Rieth Em 14/05/2020 às 11:23

O isolamento social e a quarentena nos levou a refletir sobre diversos aspectos da nossa vida, incluindo consumo, sustentabilidade, vida social e espaço construído.  Por isso, a arquitetura e o design têm um papel fundamental em reformular a moradia para se adaptar a essa nova realidade.

 

Logo nos primeiros dias de confinamento, as pessoas perceberam que o local de trabalho em casa (home office) precisava de uma organização correta para ser funcional e confortável, afinal, nem todo mundo estava vivendo essa tendência de trabalhar em casa. “Muito dos projetos residenciais, ultimamente, não contemplavam o home office, pois a maioria trabalha com um notebook, então qualquer mesa servia. Mas agora, depois de passar mais de 60 dias em isolamento social, trabalhando em casa, tenho certeza que os home offices serão lembrados novamente! E, por causa dessa quarentena, que tivemos que nos reconectar com nossos lares e nos adaptar dentro de nossas necessidades, a ‘nossa casa’ virou uma grande aliada!”, explica a arquiteta Renata Selmi Herrmann.

Com as academias fechadas e sem poder correr ou praticar exercícios nas ruas, outro item que será incorporado à residência é o espaço para realização de atividades físicas. As próprias academias disponibilizaram aulas gratuitas online e muitos profissionais deram dicas de como ambientar um espaço para se tornar um local de prática de exercícios. Determinação e tecnologia são os fatores principais para levar a uma  rotina de exercícios. Lembrando que, é recomendado manter essa prática para ter uma vida saudável e ficar imune a doenças. Segundo um estudo da UERJ, e publicado no The Lancet,  foi levantado que os casos de ansiedade e estresse mais do que dobraram, enquanto os de depressão tiveram um aumento de 90%. Em tempos de incerteza, insegurança e medo, os problemas psicológicos vieram a tona.

Outra mudança que haverá com a casa após a pandemia é o autocuidado e a conexão com a natureza, que promove momentos de relaxamento e conforto. “Senti um interesse das pessoas em áreas que se integrem ao mundo exterior, como varandas, sacadas, jardins e hortas. A Urban Jungle, ou floresta urbana, nunca fez tanto sentido como agora”, explica a arquiteta curitibana Ana Johns. Cantinhos de meditação, pequenos altares e lugares onde se possa estabelecer uma conexão espiritual também estão cada vez mais requisitados.

Logo no começo do surto da Covid-19, vimos pessoas desesperadas atrás de álcool em gel e papel higiênico, e algumas delas, estocando comida. Os hábitos de compras e de segurança para não trazer vírus para dentro de casa também serão afetados. Nunca vimos tantos entregadores da Rappi e do iFood fazendo compras, e com tanta segurança. Também nunca vimos tanta gente de máscara nos mercados e nas farmácias. Por isso, essa é mais uma das mudanças que já estão ocorrendo. Nos ambientes mais funcionais da casa como a cozinha, espaços de armazenamento, principalmente despensas e geladeiras, estão recebendo mais atenção e organização. Desta forma, no futuro, serão priorizados armários para estoque de alimentos, esquecidos diante de uma rotina de alimentação fora de casa.

Já muito comum  em  residências em países asiáticos, a presença de uma sapateira ou móvel para guardar os sapatos dos visitantes antes de entrarem em casa pode ser uma das tendências no pós-Coronavírus. Além de higiênico, é uma forma de deixar as energias ruins fora do lar, segundo a tradição oriental. Outra possível grande mudança é a maior presença de lavabos, que facilitam a higienização das mãos logo quando as pessoas entram em casa. A arquitetura também deve se preocupar com a incidência de luminosidade natural nos lares, mais do que nunca. Pois, como comprovado, é necessário ventilação e áreas arejadas para evitar a proliferação de vírus e de bactérias.

Pesquisas apontam que, neste ano, cerca de 50 bilhões de aparelhos eletrônicos estão conectados na internet, entre smartphones, computadores e, até mesmo, geladeiras. São mais que seis vezes a população mundial. Segundo o professor e arquiteto Norimar Ferraro, “o trabalho e ensino a distância estão sendo colocados à prova nesse momento, porém muitas pessoas e empresas vão perceber que isso é viável e vantajoso”. Aparentemente, a tecnologia que já estava disponível, não era vista como solução, e sim burocracia. Mas, se temos algo para tiver de benefício dessa crise, é a migração de serviços e possibilidade do offline para o online. A tecnologia tem sido usada também para matar a saudade, unir quem está longe, e mais do que nunca, manter-se atualizado. São diversas ferramentas online e diversas possibilidades para manter a vida o mais perto do comum possível. “Podemos imaginar também que, por meio do monitoramento por sensores e reuniões à distância, faremos consultas médicas sem sair de nossos lares, em um sistema de saúde mais econômico ao usuário e com mais abrangência. Remédios, assim como qualquer tipo de produto, serão entregues por drones, sem a necessidade do contato físico”, complementa o professor Norimar Ferraro. Como falado anteriormente, muitos hábitos de consumo mudarão. As pessoas estão comprando menos itens supérfluos e vivendo apenas com o necessário (até mesmo por uma questão de economia). A diminuição de carros na rua tem contribuído para a minimização da poluição no ar.  Seria o caminho para uma vida mais equilibrada? “Uma coisa é certa: essa pandemia fez (e ainda está fazendo) todos nós repensarmos os nossos hábitos e a forma como enxergamos muitas coisas. Passamos a valorizar pequenas atitudes, refletir os nossos comportamentos e até mesmo a nossa relação com o lugar onde vivemos. Rever a forma como nos conectamos com a nossa casa passou a ser prioridade. Mais do que nunca, tudo precisa fazer sentido e não somente haver beleza. Por isso, acredito que tudo o que for considerado excesso perderá espaço, cedendo lugar ao minimalismo e à praticidade no dia a dia. Principalmente quando o assunto é organização e limpeza”, relata a arquiteta Julliany Rocha, de Belo Horizonte (MG).

Segundo Pedro Lira, da Natureza Urbana, as tendências pós-pandemia apontam para uma oportunidade de diminuir definitivamente os impactos do homem sobre o planeta, “e indicam que parte das soluções já estão presentes no nosso dia a dia há muito tempo, desde repensar o modelo de ocupação do território ao tipo de comida que é colocada em nossos pratos, mas nunca houve a coragem de implantá-las”.

“A pandemia é resultado do excesso de pressões que exercemos sobre o ecossistema. Se não mudarmos a nossa relação com o planeta, outras virão com maior impacto. Devolver espaço à natureza em nossas vidas é a grande solução”, reforça Lira. Após todas essas tendências, já presentes no nosso dia a dia, cabe a nós refletirmos sobre o futuro que queremos ter e como a nossa casa vai representar o planeta lá fora. O que sabemos é que nada será como era antes e a pandemia acelerou diversas pautas que estavam caminhando, de forma um pouco mais lenta, para algo imediato. A sustentabilidade será essencial, a tecnologia imprescindível e a conexão humana mais forte do que nunca. Cabe então à arquitetura e ao design adaptar essa nova realidade às tendências do morar, trazendo casas mais saudáveis, sustentáveis e  conectadas,  promovendo o bem-estar humano e do meio ambiente.

 

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