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Como vamos viver juntos?

As novas cidades do Amanhã
Como vamos viver juntos?
Foto: Projeto Bosco Verticale/Milão Arq. Stefano Boeri, imagem de João Rieth
Por João Rieth Em 28/05/2020 às 11:25

Quem poderia imaginar que o tema da Bienal de Arquitetura de Veneza de 2020 ganharia tamanha repercussão: “Como vamos viver  juntos?”, ironicamente pensado antes que a pandemia acontecesse.  Cidades esvaziadas por medidas de isolamento e confinamento, que tão cedo não deixarão de existir, evidenciam as desigualdades sociais e multiplicam-se os debates sobre como serão os espaços urbanos no futuro pós coronavírus.

"Temos que repensar a vida em nossas cidades. É preciso coragem e também equilíbrio", diz o arquiteto italiano Stefano Boeri, promotor dos edifícios denominados  florestas verticais. A reflexão não pode ser adiada. Atualmente, 55% da população mundial vive em áreas urbanas. Em 2050, o número subirá para 70%, mais de 6.500 milhões de pessoas. Independente do choque provocado pelo novo coronavírus , já se sabia que o risco de contágio de possíveis doenças se multiplicaria exponencialmente. "Seria um grande erro voltar à normalidade que essa pandemia permitiu. Uma normalidade em que continuamos a punir a natureza, criando situações de desequilíbrio", afirna Boeri.

Já as cidades latino-americanas começam a criar ciclovias, alargar calçadas e colocar placas de distância para superar a pandemia em espaços urbanos superlotados, transporte caótico e muita poluição. A doença acentuou as dualidades na América Latina: "Muitas soluções pensadas para a cidade formal não funcionam para a cidade informal", diz Verónica Adler, coordenadora de cidades emergentes e sustentáveis do BID para o Cone Sul.

Em bairros ricos de Bogotá, Buenos Aires, Lima e Santiago, o conceito de "cidade dos 15 minutos", com abastecimento e trabalho a curtas distâncias, ganha força diante da crise da saúde. Mas nos locais onde a população vive amontoada, a subsistência é a norma. Com o coronavírus, diz Adler, as cidades ficaram expostas a um fenômeno que dá destaque aos governos locais, forçando-os a "testar e recalcular". Buenos Aires considerou "medidas de reconfiguração dos espaços públicos temporárias, econômicas, de instalação rápida e replicáveis"  para favorecer o distanciamento social e promover centralidades que evitam deslocamentos, explica Clara Muzzio, ministra do Espaço Público e Higiene de Buenos Aires.

Na capital peruana, predominam carros coletivos informais, que agora são fontes potenciais de contágio, alerta Enrique Bonilla, diretor do Curso de Arquitetura da Universidade de Lima. Para combater isso, a ideia é integrar 250 km de ciclovias e possibilitar novas faixas. "A cidade já estava doente antes da pandemia; essa deve ser uma oportunidade para procurar soluções", sentencia Bonilla, referindo-se à monocentralidade de Lima e, mais literalmente, à tuberculose. Depois do Brasil, o país tem o maior número de casos desta doença associada à pobreza nas Américas, de acordo com a Opas.

Mesmo em meio a uma pandemia, organizações como o Greenpeace exigem medidas contra a poluição na Cidade do México, conhecida por seu caos veicular. Entre vários argumentos, destacam que a exposição prolongada à poluição aumenta a letalidade do coronavírus, de acordo com pesquisadores de Harvard. Com o vírus à espreita, a densidade das cidades se torna dramática nas periferias. Essas populações incluem migrantes, cujo fluxo tem sido outro dos recentes desafios regionais. Javier Vergara, diretor da fundação Ciudad Emergente, do Chile, destaca que "devido à brutal desigualdade na distribuição de renda e às grandes áreas com moradias precárias sem equipamento básico, o impacto não é o mesmo para todos e isso exige uma abordagem diferente".

As cidades brasileiras são modelos infelizes, com suas favelas com casas precárias e estreitas vielas nos morros. "Há uma população que vive menos, viaja mais em transporte público, trabalha mais horas, come mal e, portanto, é mais vulnerável. Este é o produto de cidades com um modelo historicamente perverso", descreve Patrick Carvalho, secretário de políticas públicas da Federação Nacional de Arquitetos e Urbanistas Brasileiros.

No entanto, na Argentina e no Uruguai, estão sendo feitos esforços para fortalecer a comunicação por meio de líderes comunitários, promover dispositivos para teleducação  e criar oportunidades de emprego para promover um isolamento positivo, lista Adler. Assim como uma epidemia no século XIX originou o sistema de saneamento em Londres, a América Latina aspira à transformação. Horacio Terraza, especialista em desenvolvimento urbano e cidades do Banco Mundial, diz que "a pandemia deve gerar a revolução da urbanização de bairros vulneráveis da América Latina como uma agenda para os próximos 20 anos"."Esse fenômeno tem potencial, depende de nós manter a memória".

Infelizmente a transformação esperada terá um custo desagradável, com a perda de tantas vidas. ."Muitos tem que lidar com o adaptar-se ao dia a dia e, ao mesmo tempo, pensar em cidades baseadas em conceitos utópicos," explica Alain Grimard, chefe da ONU-Habitat para a América Latina, “a saída , é a integração.” E certamente a solução para a melhoria da qualidade de vida dependerá de ações inteligentes e conjuntas do poder público, iniciativa privada e da sua população, uma vez que as fronteiras de contágio de uma pandemia praticamente são inexistentes e afetam a totalidade dos espaços de convívio.  Em caso contrário, iremos hibernar enjaulados indefinidamente.

 

Fonte: CAU/Swissinfo