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Os segredos da migração da baleia-franca-austral, uma espécie em recuperação

As baleias-francas-austrais foram extremamente caçadas por séculos até quase a extinção
Os segredos da migração da baleia-franca-austral, uma espécie em recuperação
Por Redação Engeplus Em 21/05/2020 às 09:22

Em um estudo inédito, formado por uma equipe internacional, foi descoberto onde se reproduzem as baleias-francas-austrais que se alimentam em torno da ilha subantártica da Geórgia do Sul. Esse entendimento permitirá melhorar os esforços de conservação para a recuperação da espécie, após anos de caça. Os resultados serão publicados nesta semana (20 de maio de 2020) na revista científica internacional “Journal of Heredity”.

As baleias-francas-austrais foram extremamente caçadas por séculos até quase a sua extinção. Nesse estudo, o mais abrangente desse tipo já realizado, 30 pesquisadores de 11 países comparam o DNA de amostras de pele de baleias das ilhas subantárticas Geórgia do Sul, com amostras coletadas no Brasil, Argentina, e África do Sul, que são importantes áreas reprodutivas e de berçário da espécie. 

Usando ferramentas moleculares de alta resolução, a equipe de pesquisadores confirmou que a maioria dos animais que visitavam a Geórgia do Sul tinham nascido na América do Sul e não na África do Sul. Segundo a líder da pesquisa, Dra. Emma Carroll da Universidade de Auckland na Nova Zelândia  “Os métodos genéticos são importantes no estabelecimento da conexão entre áreas de reprodução das baleias-francas-austrais (áreas intensamente monitoradas para avaliação da recuperação da população) com as áreas de alimentação, as quais estão sendo e serão afetadas pelas mudanças climáticas. É somente compreendendo esses elos de ligação que podemos entender como as populações das baleias-francas-austrais sobreviverão em um mundo em mudança.”

Colaborando com colegas chilenos, a equipe também analisou pela primeira vez uma amostra de DNA da população de baleias-francas-austrais do Chile-Peru, uma população criticamente ameaçada de extinção. Eles descobriram que as baleias do Chile-Peru são uma mistura genética entre as áreas de reprodução dos oceanos Indo-Pacífico e Atlântico, sugerindo que o litoral do Chile-Peru agiu como um 'trampolim' entre essas duas grandes bacias oceânicas.

A ecóloga e autora sênior Dra. Jennifer Jackson do British Antarctic Survey, instituição que liderou o projeto, diz: “Este resultado é uma parte importante do quebra-cabeças para entender a amplitude da distribuição das baleias-francas-austrais. A identificação dos vínculos migratórios das populações de baleias em recuperação é crucial para realizar avaliações precisas sobre como as populações de baleias estão se recuperando, e para entender qual a vulnerabilidade frente às ameaças antropogênicas ao longo de seu ciclo de vida. Houve mortalidades inexplicavelmente altas de filhotes de baleia-franca-austral na região da Península Valdés na Argentina nas últimas duas décadas. Portanto, há muito trabalho a ser feito para proteger essa espécie em toda a área migratória”.

No Brasil, a mortalidade de baleias-francas-austrais é baixa, porém a espécie foi caçada até o início da década de 1970. Desde então, a espécie vem se recuperando, mas já se sabe que existe uma relação entre o sucesso reprodutivo das baleias-francas-austrais no Brasil e a abundância de alimento na região Antártica. As amostras do Brasil foram coletadas em parceria com pesquisadores do Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos do Rio Grande do Sul (GEMARS) e do Instituto Australis.

Segundo a Dra. Karina Groch, Diretora de Pesquisa do Instituto, os resultados mostram este importante link migratório entre as áreas de ocorrência da espécie e confirma a conexão entre Brasil e Argentina, assim como dados preliminares de estudos genéticos e fotoidentificação já apontavam. Conforme destacado pelo Dr. Paulo Ott, da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, que coordenou as coletas das amostras no Brasil, a compreensão da relação entre as diferentes populações de uma espécie altamente migratória como a baleia-franca-austral somente foi possível devido a existência de uma rede internacional de colaboradores. De acordo com os pesquisadores brasileiros, o próximo passo será aprofundar estes estudos e identificar de forma mais precisa quais as áreas de alimentação das baleias-francas-austrais que nascem no Brasil.

A equipe da Dra. Jennifer Jackson também está acompanhando, de forma inédita, os movimentos de duas baleias-francas-austrais nas Ilhas Geórgia do Sul em tempo real usando transmissores de satélite fixados nos indivíduos no último verão.  Uma das baleias monitoradas já está migrando para a costa sul-americana, fornecendo mais evidências dessa conexão migratória entre estas áreas. Siga estas baleias aqui.