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26/08/2007 09:32

Canal Viagens: De Bike pela Europa

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Carlinhos Nunes
europlast@engeplus.com.br

Após alguns meses de planejamento, finalmente consegui iniciar uma aventura com minha bike pela Europa. Tinha um roteiro não muito bem definido ainda, o que preocupava muito mais minha esposa do que a mim, aliás ela que não acreditava muito nessa minha aventura, até quando viu o bilhete da passagem e parecendo ainda surpresa, me perguntou “Mas tu vai mesmo e sozinho!!?”.

Tratei de responder logo: “Não te preocupa que não estarei sozinho.”. Ela fez um ar de quem entendeu , pois estaria sempre com Deus ao meu lado. Teria como roteiro certo Itália e o Caminho de Santiago de Compostela.

Tem que se ter muita determinação e coragem para sair de casa, pois a despedida é sempre bem difícil, até porque tenho um filho que completaria 11 anos e claro minha esposa. Ela que nunca disse “não vá”, talvez porque pensasse que eu estava sonhando acordado sei lá, mas ao ver que estava decidido, pediu para fazer as coisas com cuidado e sempre mandar notícias.

Saindo de Criciúma na véspera no dia 23 de abril, fiquei em Florianópolis para pegar um vôo da TAM das 10 horas para Congonhas e depois um para Milão com escala em Londres.


Chegada em Milão

Chegando em Milão, tomei um trem para Verona, com duas malas, sendo que uma delas era minha bike com 23 kgs, incluindo mala-bike e algumas ferramentas. Pouca bagagem mesmo. Até porque estamos na primavera Européia, o que me indicava pouca roupa para a ocasião.

Cheguei na Itália com uma temperatura de 29ºC. Para mim um verão fora de época, uma vez que estava saindo do outono. Liguei para casa para dizer que tinha chegado bem e já estava hospedado na casa de amigos e Peschiera del Garda.


Cidade de Peschiera

Após três dias me ambientando com o fuso horário, comecei minha jornada pela vizinhança de Verona, uma vez que já estava em Peschiera del Garda. Uma cidade belíssima com um lago que tem 170 km de circunferência entre montanhas, túneis, campos e muitas flores. Perto dali fui, até Borgueto, Mantova, Desenzano e Lasizi.

Entre vinhedos e pomares, havia uma ciclovia com mais de 25 km entre Peschiera e Borgueto que margeava sempre um rio calmo e límpido, com acácias que deixavam um perfume incrível no caminho e uma outra árvore que soltava uma pluma que parecia neve. Tinha que proteger a boca e a narina para não respirar aquelas plumas, esta árvore é encontrada em quase toda Itália.


Vilarejo com rios límpido e calmos,
acácias que deixavam um perfume
Borgueto

Em Peschiera, tinha uma família de brasileiros que davam suporte para mim.
Comecei então a viajar mais longe, a Belluno onde mora um casal amigo. De lá fui subindo ao encontro dos Alpes, destino Cortina, passando por Longarone, cidade em que encontrei uma placa com uma bandeira do Brasil escrito ao lado Urussanga. Descobri então que é uma cidade-irmã.


Longarone, Bagni de Lucca e Urussanga

O caminho é de tirar o fôlego entre montanhas ainda com neve, túneis com mais de 3 km de rios, e seguindo o caminho, sem senti-lo, pois fica-se um tanto hipnotizado pelo visual.

Até sentir que não dava para continuar, devido ao frio que chegava a congelar os dedos das mãos e pernas. Assim, então resolvi voltar após uns 70 km a favor do vento. A volta ficou muito mais frio e difícil. Cheguei em Belluno quase 10 horas da noite com muita fome e cansado. Voltei então para Peschiera no dia seguinte.

No outro dia, fui até Padova, a caminho de Assis, para visitar a catedral de São Francisco de Assis, um lugar simplesmente lindo, a primeira vez que me emocionei.


Catedral de São Francisco de Assis

Nesta catedral, alguma coisa muito forte me envolveu naquele momento e foi um choro de alegria, ao mesmo tempo sentia como se estivesse recebendo uma benção de paz, de confiança, tanto que, o que me acompanhou em todos os momentos de minha viagem, foi um terço de São Francisco de Assis. Nos momentos difíceis e de dúvidas, pedia para me proteger e orientar. Sempre fui muito feliz nas minhas decisões pois contava com “este” apoio muito forte e seguro.


Centro de Perugia

De Assis fui a Perugia, uma outra colina, que fiz questão de conhecer porque fiz um curso de italiano no Brasil no Ceclisc, conveniado com a Universidade de Perugia, só que este caminho de Assis a Perugia, já me reservava uma surpresa.

Eram cerca de 35 km a mais e acabei me perdendo, caindo numa auto-estrada, o que era proibido para ciclista. Mas quando percebi que estava errado, era tarde e não tinha como voltar. Segui em frente até que numa subida brusca dei de cara com um túnel de 1 km.

Segui túnel adentro e comecei a notar que algo se movia no chão. Eram ratos e muitos deles corriam nas margens do túnel. Eram tantos que cheguei a atropelar alguns. Naquele momento fiquei um pouco apavorado pensando se por ventura furasse um pneu da bike, o que fazer com todos aqueles ratos.

Procurei acelerar mais para chegar ao fim do túnel o mais rápido possível. A verdadeira frase “querer ver a luz no fim do túnel” se fazia concreta naquele momento. Desse túnel, saí por trás da cidade, não me pergunte como, mas fiz essa façanha, pois era uma subida terrível, muito inclinada. Mas, cheguei lá.

Bem, se a Itália é um museu ao ar livre, Perugia certamente é a porta de entrada.

Fui então conhecer Verona com sua muralhas que circundam toda a cidades e com várias portas de saídas e entradas da cidade.

Visitei ainda a casa de Julieta e a Bela Arena de Verona, palco de grandes espetáculos mundiais. Percorri toda a cidade, pois com a bike a vantagem é que tudo fica perto e acessível.

Segui então para Veneza, que é um lugar de beleza impar. Não sei se verei algo ainda parecido, mas cheguei de bike até lá e fui seguindo cidade adentro, procurando a praça São Marcos.

Entre canais e pequenas pontes, sempre com degraus, fui seguindo à frente, e notei que as pessoas me olhavam um tanto espantadas. Achei esquisito pois os europeus geralmente não estão nem aí, até que resolvi perguntar para alguém se estava fazendo algo errado ou diferente, e ele me respondeu: “Sim, eu nunca tinha visto ninguém com uma bike pelos canais de Veneza”. Pois então, meu primeiro mico, mas tudo bem. Já contaria com algo do tipo, mesmo assim, estava no meio do caminho e segui em frente, até chegar na praça.


Entre turistas e pombos, a bike
por mais colorida, nem chamava atenção.

Estava cheia de gente, muito bonita e imponente, com milhares de pombos, procurei um telefone para ligar para minha esposa no Brasil, até porque o próprio lugar fazia lembrar muito a família e em especial, por ser um lugar muito romântico.

Ela atendeu prontamente e me perguntou “Onde você está? Estás bem?”. Bem não consegui responder, me faltou voz e a emoção veio à tona. Ela continuava a me indagar se eu estava bem. Tomei respiração e falei que estava em Veneza, na praça São Marcos, e estava bem, um pouco emocionado e disse que gostaria que ela estivesse ali comigo. Ela respondeu que não faltará oportunidade para irmos um dia juntos. Isto realmente foi fantástico, me deu uma certa segurança. Nos despedimos e procurei ficar mais relaxado e aliviado.

Depois de circular por todos os cantos da cidade, resolvi voltar. Tomar um ônibus-barco naquele momento, seria essencial, pena que o piloto do barco disse que era proibido entrar com a bike. Assim, tive que voltar por todo o caminho e novamente fiquei meio perdido, entre as centenas de canais.

Então, tomei um trem com a bike para Peschiera.

Me programei então para algo mais emocionante e longo. Sai de Peschiera e fui a Mantova, Modena, destino para Pisa.

A torre, claro, qualquer um sempre impressiona, e estar ao lado dela, ainda mais. O grau de inclinação é algo realmente surpreendente de perto. Fui então para Firenze, uma cidade linda, onde me alojei num camping muito bom, numa colina com vista para toda a cidade. Levei sorte! O primeiro dia choveu muito, e tive que ficar até o sol aparecer para conhecer melhor a cidade, seguindo então para Roma.

Como diz o ditado “quem tem boca vai a Roma” pois é, “...e com bicicleta, bem mais longe!”. Uma metrópole muito grande, com turistas para todos os lados e apesar do grande fluxo de pessoas e veículos, com as tradicionais sccoters, me sentia seguro com o respeito que eles têm pelos ciclistas, ainda mais “ciclo-turistas” como no meu caso. Aliás, sempre me identificava com a bandeira do Brasil pendurada na minha mochila. Com certeza, respeito eu carregava. 

Fiquei três dias em Roma e visitei todos os cantos, incluindo o Vaticano. Neste, em especial, tive a oportunidade de subir a cúpula da Basílica de São Pedro, e tirar belas fotos do interior. É de uma riqueza de detalhes incríveis.

Segui então para Pescara, no outro lado da Itália, no mar Adriático. Foi uma viagem de trem de 385 km impressionante pelo belo visual, contando com montanhas, algumas montanhas com neve, muitos túneis e vistas fantásticas de muita mata. Os trens são na maioria bem confortáveis e seguros, aliás, segurança tive em todos os lugares por onde passei e fiquei.


Cômoda viagem de trem, segura e tranqüila

Ao chegar a Pescara, percorri toda a costa, em lugares belíssimos, com avenidas largas e calçadas com ciclovias com mais de 20 km. Fiquei em um camping e acabei descobrindo que era de uma brasileira que morava na Itália há mais de 20 anos. Ela ficou surpresa ao saber que eu estava viajando pela Itália de bike, então me convidou para jantar com eles, uma costela assada no forno, onde eu realmente “tirei a barriga da miséria”. Absolutamente saborosa!

Segui dois dias depois para Ancona, uma cidade portuária muito bela, a caminho para Bolonha. Me chamou a atenção pela quantidade de arcos nas construções que fazem a calçada de toda a cidade.

Assim, cheguei então de volta a casa em Peschiera, após 14 dias na estrada. Relaxei uns três dias e me preparando para uma outra etapa da viagem, Costa Azzura e França. Saindo de Milão indo a Genova, Savona , Mônaco, Nice,Canne, Marselle e Toulouse a Sant Paulo lê Dax.
 


A aventura de Carlinhos Nunes continua no próximo domingo!

Redação Portal Engeplus - www.engeplus.com.br
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