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09/01/2010 21:00

Canal Viagens: Lençóis Maranhenses

O estado de menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil concorre à condição de mais belo. O Maranhão tem sido mais frequente no noticiário pelas nocivas práticas políticas da família Sarney, mas merece um olhar apurado à sua natureza no litoral ou no interior.

Voltei aos Lençóis Maranhenses entre os meses de outubro e novembro últimos, com uma passagem por São Luís e Alcântara, junto de minha companheira – e também jornalista – Maria Thereza Simões Cordeiro.

A ida sugere a locação de um carro e os cerca de 250 km de retas sobre uma rodovia bem sinalizada e de (surpreendente) asfalto novo, rasgando a paisagem dominada por vegetação de restinga e milhares de buritis (espécie onipresente na região), carnaubeiras e areia muito alva.

Poucos quilômetros depois da área urbana da capital, as casas de paredes de pau-a-pique e cobertura de palha de folhas de buriti, um retrato das profundas limitações sociais do povo maranhense, dominam às margens da rodovia.

LENÇÓIS
Prepare-se para o impacto negativo ao chegar a Barreirinhas, o ‘Portal dos Lençóis’: a cidade, com cerca de 60 mil habitantes, tem lixo e sujeira por todos os lados, casas caindo aos pedaços e calçamento precário. Em meio à anarquia, o magnífico Rio das Preguiças, algumas casas antigas bem conservadas e muito artesanato.

A ida aos Lençóis exige condição física mínima, visto que apenas as Toyotas Bandeirante de tração 4x4 das operadoras turísticas atravessam a área verde do parque, nas quais os visitantes sacodem impiedosamente através das trilhas de areia.

A experiência vale a pena: passando agora por milhares de cajueiros nativos, comunidades isoladas que vivem da subsistência agrícola, com sorte é possível avistar exemplares da fauna como socós e jacus.

Os cajueiros são um programa (apetitoso) que merecem destaque. Se estiverem maduros, as camionetes param e os turistas têm colheita farta, apreciando frutas de carne dulcíssima e ajudando a matar a sede quando se chega à parte de dunas dos Lençóis. No retorno, quando a noite expulsa o sol inclemente e ameniza a temperatura, exalam um perfume inesquecível.

Desfrutar as lagoas e cruzar as dunas é algo de descrição quase impossível. Em resumo, a areia é de uma alvura incomparável e a visão não alcança o limite das dunas, de formas exóticas e pontuadas por tufos de vegetação que incluem frutas exóticas (entre elas um caju arredondado e verde, muito saboroso) e comestíveis.

A água das lagoas é de um verde azulado caribenho, mornas e repletas de peixinhos que se atrevem a cercar os banhistas e a beliscá-los, supondo alguma comida.

A origem geológica é menos encantadora, mas explica o paraíso: o lençol freático está muito próximo da superfície e as chuvas (intensas entre janeiro e março) formam as lagoas de água doce entre as dunas. O vento incessante altera o seu formato, enquanto avançam ininterruptamente sobre a vegetação. O mar está a 40 km dali.

O ideal é ir aos Lençóis à tarde e aproveitar o espetáculo do pôr-do-sol, capaz de deixar as dunas com uma cor alaranjada que irrompe genérica sensação de pequenez entre as caravanas de turistas. As pessoas rezam, cantam, os casais se beijam, numa reverência coletiva a algo milenarmente corriqueiro, mas que naquele local se reveste de grandiosidade ímpar.

CABURÉ, LENÇÓIS PEQUENOS E MANDACARU
O Rio das Preguiças desemboca no Atlântico, agitado e de água quente no Maranhão. Os turistas costumam descê-lo em voadeiras, lanchas pequenas e rápidas, e descobrem que o nome do curso d’água refere-se aos mamíferos lentos antes comuns na região, como os jacarés-de-papo-amarelo e as sucuris.

Em 40 minutos de trajeto, por vezes entre igarapés que atalham as longas curvas do rio, há paradas nos Lençóis Pequenos e suas gigantescas dunas, e no Farol de Mandacaru, com uma bela visão panorâmica, até chegar ao imenso braço de areia, quase uma península, que guarnece o encontro das águas doce e salgada.

Em Caburé, os banhos de rio e os almoços regados a muito peixe e camarão recompensam a cansativa jornada. Na ida ou na volta, de novo apostando-se na sorte, avista-se macacos ou os bandos de guarás.

Outras duas experiências que recomendamos. A primeira: descer o Rio das Cardosas flutuando (ou nadando) por cerca de uma hora em boias, numa água transparente, repleta de peixinhos e entre rica vegetação nativa, como as vitórias-régias e suas flores submersas.

A segunda: sobrevoar os Lençóis em um passeio de 30 minutos (R$ 180 por pessoa) de preferência no limite do anoitecer. Só voando tivemos a dimensão da grandiosidade física (155 mil hectares, o equivalente ao município de São Paulo) e ambiental do parque. Do alto, descobrimos os oásis de Queimada dos Britos e Baixa Grande, onde vivem comunidades isoladas, cercadas por dezenas de quilômetros de dunas e lagoas de vida intermitente.

SÃO LUÍS E ALCÂNTARA
São Luis e Alcântara conservam tesouros do patrimônio histórico arquitetônico brasileiro dos séculos 18 e 19. Conservam em parte, é verdade, porque a dimensão e a desídia impressionam, na mesma proporção, em especial na capital maranhense.

Percorrer as ruas estreitas e muitas ladeiras do centro histórico de São Luis é um passeio gratificante, em especial se observarmos os detalhes dos azulejos portugueses e das construções e largos. Entretanto, nos deparamos com muitos casarões quase desmanchando-se.

Não deixe de visitar o Palácio dos Leões, parte dele onde reside e despacha a atual governadora Roseana Sarney. Móveis, tapeçaria, utensílios de decoração, como ânforas, espelhos e lustres, telas e esculturas magníficos.

Para ir à Ilha de Alcântara opte pelo catamarã – navegação silenciosa e rápida – saindo de um terminal ao lado do centro histórico. São 22 km de travessia, com uma dezena de grandes navios cargueiros e outras ilhas de cenário.

Reduto de barões nos períodos colonial e imperial, Alcântara é um tesouro, com belas praias e centenas de casas, igrejas, prédios públicos, pelourinhos, senzalas e fontes.

O ambiente remete à aristocracia e escravidão, com um toque futurista por conta do espaço mantido pela Aeronáutica, referente ao centro de lançamento de foguetes. O sobe e desce pelas ladeiras é igualmente um sacrifício, em especial àqueles que não são habituados a fazê-lo sob o sol próximo da linha do Equador.

DICAS
Escolher a época certa é essencial, pois sem água nas lagoas os Lençóis perdem a metade da magia. Evite o período das chuvas e a alta temporada (Barreirinhas lotada de turistas é insuportável).

Escolha as pousadas às margens do Rio das Preguiças. Várias delas têm praias privadas.

Aproveite o custo baixo e a boa qualidade do artesanato local, principalmente feito com palha de buritizeiro.

Peixe, camarão, pirão e cachaça de tiquira: um cardápio inevitável e imperdível, a ser saboreado nos bares e restaurantes às margens do Rio das Preguiças.

Os guias que conduzem turistas pelos Lençóis são nativos e sabem bem mais que a decoreba tradicional. Conversando descobre-se muito da fauna, flora e da vida das comunidades locais.

Em São Luís, por segurança, não percorra o Centro Histórico fora do horário comercial ou nos fins de semana. Há, contudo, alguns locais seguros, com bares e policiamento ostensivo.

Texto/ fotos: Carlos Stegemann - Jornalista - carlos.stegemann@palavracom.com.br 

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Redação Portal Engeplus - www.engeplus.com.br
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