Ademar José Fabre *
Sempre que se agravam os problemas da cidade relacionados com engarrafamentos, trânsito lento, dificuldades pontuais para a circulação de pedestres, vêm à tona as soluções simplistas de sempre: abrir o calçadão, implantar elevados, “pendurar” passarelas para pedestres.
Na prática, as três soluções comumente apontadas não são simples, nem baratas e muito menos fáceis de ser assimiladas por segmentos da população, motorizados ou pedestres.
O calçadão da Praça Nereu Ramos é um empreendimento consolidado, com mais de 30 anos, ampla aceitação, tanto de pedestres quanto de comerciantes. Tornou-se verdadeira conquista da comunidade. Verdade é que está carecendo, com urgência, de ampla revitalização, mas isto é outra história.
Nesses termos, rasgá-lo ao meio com uma canaleta, sob o pretexto de melhorar a circulação de veículos, é uma medida simplista e facilmente contestável. Salvo melhor juízo, essa canaleta vai estimular o afluxo de mais veículos no centro, o que tornará a situação pior do que já está.
Neste momento, a cidade precisa é tirar veículos do centro e não incentivá-los a por ali transitar. Isto ajuda a promover a descentralização e desconcentração de veículos do centro da cidade.
Outra ação que se projeta é a inversão de mão da Rua Santo Antônio, com abertura do calçadão defronte ao Colégio São Bento. É, a meu ver, outra medida precipitada, que precisa ser melhor estudada e avaliada.
A primeira conseqüência de tal medida vai ser a diminuição de segurança para os estudantes que acessam ou deixam o colégio, os quais passarão a disputar a rua Santo Antônio com os veículos que por ali circularão, agora em maior número, com a inversão de mão daquela artéria.
Outra alteração que certamente ocorrerá será a circulação de grande número de veículos pela Av. Getúlio Vargas, em busca da Rua Santo Antônio, com possibilidades de causar engarrafamentos naquela via.
Em vez de inverter a mão da Rua Santo Antônio, no segmento entre o Colégio e a esquina do Besc (começo da Getúlio Vargas), por que não fechar este trecho para veículos, transformando-o em um calçadão? Nessa hipótese, far-se-ia o corte do calçadão defronte ao Colégio, desviando a saída dos carros procedentes da Rua Lauro Müller para o norte/leste, em lugar do fluxo atual.
Com isto, presume-se, permaneceria inalterado o número de veículos na Praça do Congresso e não seria alterado o fluxo na Getúlio Vargas. A idéia foi discutida por um grupo de arquitetos, que assessorou a montagem/confecção do Plano Básico de Desenvolvimento Regional, da AMREC, divulgado em 1997.
Esse fechamento de parte da Rua Santo Antônio permitiria uma integração tranquila entre as duas praças (Nereu Ramos e Congresso), daria comodidade aos pedestres, permitindo, futuramente, até a implantação de uma Rua Vinte e Quatro Horas ou algo equivalente (tipo Mal Center).
Os elevados são empreendimentos caros, definitivos e, no mais das vezes, agridem o ambiente urbano. Pelo fato de ser definitivos, como as cirurgias médicas, precisam ser amplamente estudados e projetados os seus resultados, pois, muitas vezes, um tratamento “clínico”, como uso de semáforos, inversão de mão e outros, é preferível, por não ser uma solução definitiva.
As passarelas para pedestres, muito populares, são sempre candidatas a se tornaram investimentos mal feitos, dinheiro jogado no ralo. Só são razoáveis - em princípio, viáveis e de retorno positivo – quando executadas em vias de fluxo de alta velocidade, a serem transpostas por pedestres ou, em outra hipótese, com menor fluxo de veículos, mas com passagem “bem localizada” e numerosa de pedestres.
Por bem localizada entenda-se um ponto único e obrigatório de passagem de pedestres, o que não ocorre, por exemplo, nas imediações da Estação Rodoviária, que é acessada por pedestres em diversos locais da avenida.
Salvo estudo mais detalhado, em nenhum local da Avenida Centenário ocorrem essas duas situações, o que torna o investimento em passarelas de discutível possibilidade de sucesso.
* Economista / Mestre em Desenvolvimento Regional e Urbano – ajfabre@gmail.com